A confissão de amor de Pondé

Talvez, Luiz Felipe Pondé seja o último romântico. Na filosofia contemporânea, me refiro. Porque é um “espírito romântico” e porque é escravo do gosto. Prova é Amor para corajosos.

Office Love, de Helmut Newton, 1977.

Gosto do quê?

Gosto do próprio amor, gosto da mulher, o gosto agridoce desse sentimento que, em suas palavras, pode levar-nos ao desespero ou à deliciosa experiência de uma reinvenção da vida.

Quando compara o tipo de amor kantiano e nietzschiano, por exemplo, Pondé pertence ao segundo time, justamente por ser um romântico, como Nietzsche. É importante saber disso para compreender porque o filósofo visceral pensa o que pensa sobre o amor. Ou seja, não é nada protocolar como seria em Kant.

Voltemos, entretanto, a Contra o mundo melhor, de 2013Em um de seus aforismos em que fala de amor – tema, aliás, recorrente em praticamente todos os livros – Pondé anuncia: Só desejo uma mulher que seja dependente de mim. E quero que ela seja viciada e dependente de mim até a morte.

Veja, não seja raso na compreensão da sentença. Romantismo é assunto sério e exige de quem decide entrar nesse universo complexo e contraditório o mínimo de boa educação, que neste caso é não gritar convicções sobre a “submissão” da mulher. Como diz em Amor: a pressa é um pecado no pensamento.

Não é nada disso a que o filósofo se refere. Em Amor para corajosos fica mais claro: A autenticidade não é mera mania de dizer verdades inconvenientes, mas a virtude de se ver constantemente no amor e no desejo de fazer o outro feliz. Perder-se no amor por alguém é encontrar-se como ser humano que para existir precisa de um outro a quem reconheça como o ser humano mais importante do mundo para si.

Confesse, porque faz bem à saúde, você também deseja ser a pessoa mais importante da vida de alguém.

A autenticidade é o maior bem romântico. Bem que, inclusive, vem antes dessa concepção particular de amor. Mas assim como o amor, a autenticidade foi colocada no mercado. Daí as mentiras de que tanto você pode amar do seu jeito como pode ser quem você quiser. Não é bem assim e nas palavras de Pondé: O indivíduo empoderado do capitalismo ama apenas abstrações que não implicam nenhum risco ou sofrimento.

Em resumo: você nunca vai ter controle sobre o amor. Ou viverá em desejo ou viverá em culpa.

Amor para corajosos então é um desses títulos que se lê escondido, por medo de os olhos brilharem demais e denunciarem que também somos vítimas da invenção dos românticos históricos.

O que ler Pondé, contudo, permite: primeiro, ver que o amor romântico é melhor do que hoje é apresentado; segundo, aceitar que na tentativa de não sofrer de amor podemos deixar de viver uma das mais significativas experiências que essa vida sem sentido é capaz de nos proporcionar. Ou seja, o amor é um sentido enquanto tal, e evitá-lo é tornar a vida ainda mais vazia.

Por fim, não tentar enquadrar o amor, formatá-lo, dar-lhe regras ou torná-lo a “cereja do bolo” de seu lifestyle invejável, o “toque final” de sua vida bem planejada. Nada pode ser pior para o amor do que tornar-se capa da Casa Vogue.

Creia: amor não é narcísico e os narcísicos não tem vez no amor. É preciso predisposição para o fracasso para amar. Pondé concorda.

Um dos segredos para manter o amor, segundo o filósofo, segue sem meias palavras: A intimidade sexual é uma das rotinas mais poderosas para manutenção do amor. Não existe amor platônico, a não ser em pessoas doentes de alguma forma, pois o amor pede carne. É carnívoro como um predador pré-histórico. O amor gosta de se melar na fisionomia de quem ama. Na filosofia, ele pertence ao universo de tudo que é empírico, nunca do que é metafísico. Pede toque. Uma mulher amada morre quando é tratada como santa. Seu ambiente natural são o pecado e a posse. A separação entre amor e sexo é para ignorantes.

Sobre a bagunça que o amor pode fazer se cedermos a ele – e ao cedermos, ele pode ir facilmente da bagunça à destruição – Pondé classifica suas vítimas – eu e você, talvez – como dois condenados: os canalhas e as vagabundas. Diga-se: Como saber se você é um canalha ou uma vagabunda? é um dos mais libertadores ensaios do livro. Direto ao ponto, pode economizar anos de terapia.

Pois é. Além de toda essa agonia, quem ama precisa lidar com a inveja de quem não é capaz de amar.

É ou não algo para corajosos?

Seja como for, você coitado e você condenada: não estamos sozinhos. Pondé está conosco. Além-vida, talvez Nietzsche agarrado a um exemplar de Anna Kariênina.
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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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