A Era Madonniana – Os 57 anos de Madonna

Quando “Like a Virgin” (1984) estourou em televisões e rádios de todo o mundo, a pergunta que se fazia era: quem é Madonna? Que nome estranho desafiava o status quo da sociedade americana com trejeitos exagerados e trapos a que chamava de novo estilo de se vestir.

Madonna chegou provocando como nenhum outro artista ousara fazer. E a lista de atrevimentos, nos primeiros anos de carreira, foi longa: os seios de fora, as cruzes em chamas, o santo negro, uma criança que assiste a uma stripper dançar, a mulher interessada em dinheiro, a namorada com uma coleira, a gravidez na adolescência, a simulação de masturbação aos olhos de milhares, entre outras provocações mais simbólicas. Madonna vestiu-se como homem, vestiu-se como prostituta e, principalmente, vestiu-se como mulher, não abrindo mão de nenhum arquétipo que pensou fazer parte de uma mulher.

Aos 57 anos, aos olhos do mundo ainda prova ser uma artista ativa, criativa e com vigor admirável. Quem ainda duvida, a cartada final será “Rebel Heart Tour”.

Madonna

Tudo começou oficialmente em outubro de 1982 com o single “Everybody” (1982), produzido por Mark Kamins. Distribuído pela Warner Music Group para um público mais restrito, o da dance music – “Everybody” foi classificada como dance music. A capa do compacto não exibiu nenhuma fotografia da cantora. Menos de um mês depois, “Everybody” figurou na parada dance da Billboard, em 6 de novembro de 1982, ainda sem nenhuma fotografia de Madonna.

“Burning Up” (1983) veio em seguida. Produzido por Reggie Lucas, um nome respeitado do rhythm and blues, a canção ganhou um videoclipe ainda rudimentar, comparando-o às grandes produções de hoje. A ausência de técnica de produção (a carreira de Madonna despontou no mesmo momento do surgimento do videoclipe e da MTV) faz de “Burning Up” um vídeo simples, mas muito rico de símbolos. Foi ele que apresentou o rosto de Madonna e a cantora tornou-se então conhecida pelos que já haviam abraçado sua música dançante. Depois de mais um single emplacado, o selo Sire, dono desses primeiros dois singles, arriscaria um álbum completo. “Madonna” foi lançado em julho de 1983.

A grande estrela da pueril pop music, no início dos anos 1980, foi Michael Jackson (1958-2009). Se o título de rei foi dado a ele, logo estaria disponível o título de rainha, posto que Madonna trabalharia para ocupar. E foi o disco de estreia “Madonna” que colocou a cantora na escalada do sucesso. Com apropriações artísticas inovadoras para a época, Madonna chegou à posição que hoje, pouco mais de três décadas depois, se mantém inalterada como um exemplo de emancipação, tanto no contexto dos gêneros como em inovação artística, forma de expressão pura e simples.

O potencial iminente, de uma artista que alcançaria notoriedade mundial pela originalidade, era algo que estava apenas na mente da Madonna, irremediavelmente ligado à ambição da artista de querer, a qualquer custo, ser uma celebridade. Poucos foram os executivos do mercado do entretenimento, no início dos anos 1980, que viram Madonna como uma figura longeva. Para ela, não importaria como alcançaria a fama. E nesse contexto, é difícil dissociar o sucesso de Madonna da própria época em que viveu. Os anos 1980 foram perfeitos para a ambição da artista. Como bem colocou Randy Taraborrelli, um de seus biógrafos:

“A noção de “celebridade” nunca teve muito a ver com as habilidades pessoais de alguém nem com o que ela possa ter realizado em termos artísticos. Sempre tem a ver com o marketing pessoal – e isso nunca foi mais verdade do que na década de 1980. Com o crescimento da tevê a cabo, dos videoclipes, das revistas, da publicidade de rua e outdoors, da propaganda em rádios e filmes, uma celebridade podia ser explorada 24 horas por dia: nas salas das pessoas, em clubes, em supermercados e nas ruas, a mesma imagem projetada de todas as direções, de onde quer que se olhasse. Madonna foi uma das primeiras artistas a entender essa reviravolta cultural; Michael Jackson também percebeu. No início de sua carreira como cantora nos anos 80, ela se certificara de sempre contar com a cobertura completa da mídia. Iria aparecer de bom grado em todo show de televisão, capa de revista, videoclipe chamativo, custasse o que custasse.”

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Seria apenas o despojamento de uma imagem e o frescor de uma sensualidade nova, marcada pelo ordinário, pelo puído, que comporia o desejo das “wannabes”, o termo criado pela mídia americana para designar as garotas que queriam ser como Madonna naqueles primeiros anos? Ao longo de sua trajetória, Madonna vendeu mais de 300 milhões de discos. Atualmente, é a artista mais rica do mundo. Os números espantosos vieram de um legado que não deixou ninguém de fora: homossexuais, travestis, pobres, ricos, crianças, mulheres e homens comuns.

Considerada uma ameaça à família, à mulher decente, mãe e esposa impecável, principalmente depois do livro “SEX” (1992), a cantora fez ensaios polêmicos e apropriou-se da liberdade que a libertinagem por definição permite para reunir os vários universos considerados subversivos. Provocando um dos maiores escândalos de sua trajetória, o livro foi considerado um ataque ao pudor, uma ameaça para a sociedade, pelo caráter obsceno. Todo o ensaio foi filmado e parte dele tornou-se, logo depois, o videoclipe da música-tema “Erotica” (1992). Esse registro de duas horas encontra-se disponível na Internet pelo título “Making of Sex Book”.

Anos 2000. Pela primeira vez em toda a sua trajetória Madonna divide os holofotes com outras artistas mulheres. Nos anos 1980, a cantora Cindy Lauper também fez parte do cenário pop com Madonna, mas de alguma forma a “disputa” não se dava no campo da imagem, apenas da música. Cindy Lauper nunca exalou a mesma energia sexual de Madonna. Ao contrário, mesmo que o despojado também compusesse o seu estilo, cheio de peças baratas de brechós – como Madonna também se apropriaria dessa composição mais ordinária – e quanto mais ordinária melhor – Lauper estava mais para o esdrúxulo, com seus cabelos ora azuis ora amarelos, distante do platinado a la Marilyn Monroe de Madonna.

Então, nos anos 2000, ao lado de Britney Spears e Christina Aguilera, que pegaram carona no conceito estreado por Madonna de diva pop sex-kitten (termo criado para Brigitte Bardot, que tinha a ver com uma sensualidade menos femme fatale e mais amigável, algo mais próximo das pin-ups) seriam os novos exemplos para a primeira geração depois do boom do seu estrelato.

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O primeiro grande tema de Madonna em um videoclipe foi o das relações amorosas inter-raciais, em “Borderline” (1984). A emancipação da mulher e seu poder são o tema central em “Express Yourself” (1989). Por outro lado, em “Material Girl” (1985), um pastiche da interpretação de Marilyn Monroe em “Os Homens Preferem as Loiras” (1953), são o dinheiro e o poder do homem que seduzem a mulher. Se a diversão infantil é tema de “Cherish”, a vaidade e a disputa de poder pauteiam “Vogue”. Nem a violência fica de fora. O vídeo de “What It Feels Like for a Girl” (2001) foi compreendido pelo público como violento.

Os dois fenômenos da música pop, Michael Jackson e Madonna, caminhariam, ano após ano, por estradas muito distintas. A música de Michael Jackson só cresceria em qualidade sonora, enquanto sua voz política se perderia em um abismo emocional. Já Madonna, determinado dia, teve o insight de, em um trecho do seu show, simular o ato de se masturbar na frente da plateia. Intitulá-la heroína seria exagero. Todavia, parece inegável que sua rebeldia tenha dado a seu público algum motivo para não mais esconder suas fantasias – e as sexuais seriam apenas algumas delas, uma vez que sua fama não declinou depois de “Erotica”. Viriam ainda muitas outras facetas. Para a mulher, feminista ou conservadora, hedonista ou aristocrática. E seus discos refletiriam isso, cada bandeira ou estereótipo.

Madonna tornou-se o próprio Satã quando jogou luz sobre a escuridão de uma vida afetiva cômoda, burguesa ou não. Ela mesma deslizou o tempo todo pelos extremos dessa relação desejo-puro-e-imoral e tradições-imutáveis-arquetípicas. Foi mãe, casou-se no modelo mais aristocrático. Suas expressões artísticas enquanto esteve “apaixonada” não escondiam seus desejos de ser consumida pelo objeto de sua paixão e até de viver um modelo moralmente superior. Ela, traidora da religião de sua infância, voltara-se às questões existenciais primordiais com a cabala.

Atualmente, toda a obra de Madonna contempla treze álbuns, três coletâneas, quatorze DVDs, entre turnês e filmes, oito álbuns fotográficos, cinco livros infantis e artigos de moda lançados pela marca “Material Girl”, criada em 2010. Parte do mundo entende como bizarro uma senhora expor seu corpo de maneira tão explicita. Outra parte, contudo, em seus ambientes privados, passa a dar outro significado a seus corpos, libertando-os das imposições sociais limitantes da idade. Ainda temos muito o que estudar sobre Madonna.

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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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