A luz entre oceanos: pecado, perdão e sobretudo amor

Acordei com uma das cenas finais de A luz entre oceanos. Aquele morrer do sol laranja intenso, estupendo, dilacerando silenciosamente Michael Fassbender. O filme de Derek Cianfrance diz sobre pecado, perdão e sobretudo amor.

Mas não sobre o amor fácil, desses, amor gourmet. Foi então que me lembrei de uma frase do Padre Fábio de Melo que me toca profundamente: Amar é sofrimento de purificação.

Essa foi minha leitura de A luz entre oceanos. Ninguém sai pior de uma experiência de amor verdadeiro, ainda que haja todo tipo de horror ao redor, ou entrelaçado, ou invadido. Como foi com Tom, Isabel e Hannah.

Cena de A luz entre oceanos.

A história é de Tom Sherbourne, Michael Fassbender, zelador de um farol, na costa oeste da Austrália, e sua mulher, Isabel, Alicia Vinkander.

Tom aceita viver longe de tudo e de todos depois dos horrores da guerra. Triste, reservado, há nele um tipo de culpa por ter sobrevivido quando tantos morreram e quando a outros tantos matou. A encantadora Isabel é quem volta a dar motivo à vida de Tom. Viver de maneira tão isolada não é então um problema para o casal. Ao contrário, torna o laço de afeto ainda mais forte. Um pequeno paraíso, idílico, necessário a quem não vê mais sentido em nada.

Aliás, ouvi essa pergunta esses dias: qual é a diferença entre significado e sentido? Para mim, significado é o que é, sentido a importância que dou ao que é. E, como escreveu Nietzsche, no amor não há descanso.

Acontece que Tom avista, quase à beira da praia, um barco. O barco que traz a mais dura prova de suas vidas. É quando Hannah, Rachel Weisz, passa a existir. E mais! É quando sua forma de pensar e sentir é capaz de abarcar a natureza do perdão.

Por um sonho, não bobo, quase ancestral, Isabel peca e faz Tom pecar. Pecado grave, algo capaz de destruir uma vida.

Foi lembrando de A luz entre ocenaos que, ainda na manhã clara, decidi procurar as anotações onde consta a frase que me toca. Lembrava apenas que era papel simples, escrito em caneta verde. Latejava como sopro as palavras: pecado, perdão e sobretudo amor.

Meio empoeirado de largado ao canto, no papel achado estava outra definição do Padre Fábio de Melo, agora sobre pecado: Pecado é todo ato falho cometido de forma consciente, e que tem o poder de repercutir em Deus, em nós e na sociedade.

Deus, nós e sociedade. Perfeito para ler o filme. A beleza do longa é tamanha que os três personagens disputam ao apresentar faces do amor e do perdão.

Nada é simples no mundo dos sentimentos reais, humanos até o limite. São sentimentos difíceis de definir e também de julgar.

A última anotação dos escritos do Padre Fábio de Melo, uma coincidência dolorosa, diz completamente sobre Tom: O amor é uma força capaz de nos levar a sacrifícios concretos a ponto de tocarmos a nossa humanidade mais profunda.

Como poderemos depois de tudo continuar os mesmos?

Sobre o perdão?

Perdão é mesmo algo divino. Lança fora toda ideia de justiça. Aliás, o conceito de justiça é essencialmente social, como escreveu Bertrand Russell. Entendi melhor a ideia na vida de Tom e Isabel.

Lembro, enfim, da frase de C.S. Lewis: Perdão é um ideal belíssimo até termos algo a perdoar. Em A luz entre oceanos, Hannah apresenta uma das melhores definições.
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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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