A Marilyn de Mailer: a visão de um Pulitzer sobre a deusa do sexo

Mais interessante do que a própria história de Marilyn Monroe é o texto de Norman Mailer. O autor de “Marylin” (1973) apresenta uma biografia cheia de referências e ironias. Mailer narra o fato e o julga, narra e julga. Nada de imparcialidade: “Sim, ela fez um reconhecimento dos anos 1950 e nos deixou uma mensagem em sua morte: ‘Comecem o baby boom’”. O sarcasmo torna a obra incomum, diferente do bom e velho estilo “isento”, comumente mais aceito em biografias. Lançado no Brasil pela Record é um ótimo livro para quem já sabe um pouco sobre a vida da grande estrela de Hollywood.

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Vencedor duas vezes do Prêmio Pulitzer – por “Os Exércitos da Noite” (1968) e “A Canção do Carrasco” (1979) – o autor é reconhecido justamente pela pena criativa que deslizou pelo jornalismo literário americano e criou, ao lado de Tom Wolfe e Truman Capote, o que se considera o Novo Jornalismo. Além desses premiados textos há outro chamado “Os Nus e os Mortos” (1948), uma obra muito elogiada pela crítica.

Quando lançado, “Marylin” gerou polêmica. Vendeu muito e incomodou o FBI e a CIA, pela hipótese que Mailer levanta de que ambas as instituições foram responsáveis pela morte da atriz, uma vez que reprovavam o romance que mantinha com o senador Robert Kennedy, o Bobby. Mas “Marylin” é mais, muito mais. Norman Mailer no comando resume Marilyn Monroe assim:

“Era uma estrela de cinema da mais obstinada reserva e da mais ostensiva franqueza, da mais conflituosa arrogância e do mais avassalador complexo de inferioridade. Grande populista dos filósofos – ela amava o trabalhador – e a mais tirânica das parceiras, uma rainha castradora pronta a chorar por um peixinho moribundo. Uma amante de livros que não lia, e uma orgulhosa, inviolada artista que quando estava na fogueira podia se curvar à publicidade mais rápido que uma prostituta agarraria um punhado de dólares.”

Mailer não poupa Marilyn. Evidencia o seu mau cheiro e a falta de inteligência, às vezes até com chavões preconceituosos:

“Sem instrução, o familiar infortúnio das loiras bonitas, ela também não tinha cultura – podemos adivinhar que não saberia dizer se o Rococó veio três séculos antes do Renascimento ou se a retirada de Napoleão de Moscou se deu porque seus trens não funcionavam no frio. Embora fosse historicamente vazia, era sensível – tão sensível quanto historicamente vazia – e, em seu estado normal, quando não estava muito sedada, recebia as novas percepções de maneira vibrante.”

Mas a deusa do sexo chamou a atenção do escritor e o fez escrever um livro inteiro sobre ela. E Mailer sabe o seu papel: “A exigência que se faz ao biógrafo é explicar por que ela é excepcional.” Por que Marilyn Monroe é excepcional? A selvagem que exala sexo e do sexo se alimenta é a grande paisagem dos clássicos “Os Homens Preferem as Loiras” (1953), “Nunca Fui Santa” (1956), “Quanto Mais Quente Melhor” (1959) e “Adorável Pecadora” (1960).

“Quando as garotas ficavam com inveja e fofocavam sobre ela, fazia questão de usar biquínis ainda menores e ficava deliciada com o resultado. Era o centro das atenções. Se a libido estava à frente fluindo de sua superfície, exigia que também fluísse de volta, e sempre que era o centro das atenções, a energia voltava para ela, vinda dos outros. Assim, seu sex appeal é sempre um reflexo de seus arredores.”

Pobre moça, suas emoções não deram conta de tanta beleza. Culpa de quem? Como bem escreveu Mailer: “Maus agouros a cercavam como os parentes que nunca teve à mesa de jantar.” E a menina cujo pai não conheceu e a mãe via tão distante, viveu em busca do amor e da mesma maneira o repeliu. Joe DiMaggio, Arthur Miller… “Nenhuma força externa, nenhuma dor, se provou mais forte que seu poder de oprimir a si mesma.” Marilyn morre em 1962, por overdose de remédios – até que se prove o contrário.

Houve quem a amou. Esses dois, por exemplo. Grandes homens. Fizeram tudo por ela. E mesmo Norman Mailer, com todo o seu deboche, encerra o livro com uma passagem linda, que merece ser lida não aqui. Merece ser ainda imaginada com riqueza de detalhes. Uma passagem doce como só Marilyn sabia ser.

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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com