Em agonia…

Nikos Kazantzákis publicou Ascese em 1945. É considerado um dos maiores escritores gregos do século XX. Uma das frases contidas no livro inspira o seguinte aforismo.

Nikos riria aos berros se me visse agônica assim, diante dessa versão minha de nada temer e de nada esperar. Falta-me profundidade até para agonizar. Um punhado de palavras não basta para descrever a paisagem que sou; árida não, de mar revolto! É tanto vai e vem cá dentro que me canso de mim. Penso em me jogar contra a parede para acordar e selar um pacto desses mentirosos, sem sentido algum.

Foto: Roberto Naar.

Aliás, isso é exatamente o mais estranho. Tenho vontade de jurar promessa, embora eu não saiba pelo quê, muito menos o que de mim oferecer para justificar tamanho favor, o de me livrar dessa metade que resiste. Ou terço. Mas eu seria a mesma mutilada? Que amanhã posso esperar se não danço entre agonias?

Envergonho-me, é claro, tudo parece infantil. Só que é estranho. Dos sentidos que elegi como meus, só meus, há dias em que nem eles me preenchem. Sentidos não são óculos no criado mudo, ao alcance e que ampliam as possibilidades do amanhecer. Sentidos são criaturas vivas, em movimento e mutação. O sentido dos sentidos é aprender a dançar com eles.

Não temo nada. Não espero nada. Sou livre. Nikos Kazantzákis escreveu em Ascese. A frase que também o apresenta ao mundo os mortos, porque se encontra em sua lápide em Creta, me norteia nesses estados de quase morte: quando não consigo me sentir parte de nada. Mas não sou livre.

Sou livre quando tenho o que dizer, ainda que eu não diga. Sou livre quando existo em um outro, ainda que só pensamento. Mas deixe estar. Preciso ir, mesmo em agonia. Minhas máscaras não estão no meu rosto, mas cobrem meus pés. São elas meus sapatos: hoje meus inimigos porque não quero ir.

Abaixo-me para calçá-los quando vejo uma mão. É a de Nikos, que sorri gentilmente. Ele também sabe que atrás das aparências há uma essência em luta.
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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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