Bem-aventurados os trágicos de coração, pois sabem antes

Alguns dias dizem mais sobre o Nada do que outros. Talvez hoje seja um desses dias. Se não é, será amanhã. A negação no que tange ao Nada é artifício infantil. A ingenuidade é o alvo da tragédia.

Esse dia é quando toma conta por inteiro, corpo e alma, aquela sensação de estar meio que em suspenso, como naquelas cenas do cinema em que tudo ao redor passa rápido, mas tão rápido, que é como estar à parte do mundo, mas ainda fazer parte do mundo. Em cena, deve haver o que fazer, mas o quê? A reza dirige-se ao tempo.

Foto: Roberto Naar.

Emil Cioran usa o “n” maiúsculo sempre quando escreve a palavra nada. É reverência ou petulância? Talvez, o Nada mereça condescendência, um novo olhar. O Nada é reduto, diferente da falta, que aflige e tortura. Como é um e não outro? A quantidade de crença.

O contrário, o exercício da crença, cede, porém, maneiras de “fraudar a consciência” sem negar a “impraticabilidade da felicidade”, como escreveria Agustina Bessa-Luís. Arriscamos, entre algumas, o amor. Do amigo ao amante.

O gozo, porém, não é meta dos corações trágicos, e o amor é acaso, este último “antiprincípio de tudo o que existe”, como define Clément Rosset. Se assim é, há vantagem.

Os trágicos de coração sabem antes. Não por adivinhação, mas por lógica. Sabem que não há nada capaz de salvar qualquer coisa ou qualquer quem. Sabem que não devem dar muitos adjetivos a si mesmos. Os trágicos de coração assim vivem o dia. São bem-aventurados porque olham o mundo com tolerância e acolhimento, justamente porque não têm nada do que abrir mão.

Não são pessimistas os de corações trágicos, apesar de parecerem, porque não baseiam suas sensações e pensamentos naquilo que experimentaram e foi insatisfatório; antes, sequer crê na possibilidade de constatar algo. Os corações trágicos nunca buscam abrigo.

Alguns dias dizem mais sobre o Nada do que outros. Se hoje é um desses dias, vale o riso trágico, o que tira algum prazer do acaso. Riso propriamente do quê? Basta olhar ao lado. Há mais razões para rir do que para crer. O cômico é uma forma inteligente de não sucumbir, é de alguma forma plainar. Só não ria, nunca, da fé alheia, ainda que pareça a maior das ilusões. Se não há como constatar verdades, tampouco mentiras.

Se ao lado, contudo, está o amor, vale o reconhecimento, além do profundo respeito, a essa interrupção ilógica e oceânica na lógica do pior.
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A todos que não sabem exatamente o que sentem, mas sabem que sentem.

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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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