Bingo: O Rei das Manhãs e o tempo que jamais voltará

O que é “politicamente correto”? Fácil conceituar? Não.

Há entre os profissionais de marketing digital os especialistas em SEO (Search Engine Optimization). Eles são os responsáveis pelo bom “ranqueamento” dos conteúdos publicados na Internet. O que isso quer dizer? Quer dizer que há uma “briga” entre os veículos para que quando você, leitor, ao digitar no Google “o que é politicamente correto”, por exemplo, leia a minha definição e não a definição do meu concorrente.

A definição chamada “marco zero” é a mais cobiçada. É aquela que fica dentro de um “box” simples, logo abaixo do buscador. Então, no marco zero sobre o que é “politicamente correto”, consta: “O adjetivo politicamente correto é usado para descrever a evitação de linguagem ou ações que são vistas como excludentes, que marginalizam ou insultam grupos de pessoas que são vistos como desfavorecidos ou discriminados, especialmente grupos definidos por sexo ou raça.”

Definiríamos de forma mais simples: politicamente correto é o encarceramento da imaginação em nome de uma pureza que nunca houve e nunca haverá.

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Cena do filme Bingo: O Rei das Manhãs.

Esse artigo não é sobre Bingo: O Rei das Manhãs? Sim, é. E sobre o politicamente correto. E sobre a saudade dos anos 1980, quando não existia tanta chatice, tempos de Bozo e suas piadas, dos shortinhos da Xuxa e da Angélica, além das maluquices do Sérgio Malandro, tudo o que tornou a infância dos, hoje, trintões e quarentões, menos reclusa – seja pelos condomínios ou pela segunda vida, a virtual.

Quem viveu esses tempos e assistir Bingo: O Rei das Manhãs, sentirá saudade de quando as segundas intenções confundiam-se com as primeiras e não havia imposição de terceiras em nome de uma utópica pureza. Bingo diz sobre esse tempo que, beijinho, beijinho, tchau, tchau.

Dirigido por Daniel Rezende, estrelado por Vladimir Brichta, o longa também revela outro lado da TV – nada novo, por sinal, mas que ainda pouco se fala – que é o lado “obscuro” da fama: drogas, álcool, sexo, tudo sem restrições e julgamentos morais. Arlindo Barreto não foi o primeiro e nem será o último. Nem é vítima por isso, menos ainda herói. A vida imita a arte ou a arte imita a vida? Pelo menos nos anos 1980, o véu transparente que dividia o mundo criado do mundo real era o que definia se algo era atraente ou entediante.

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Bingo: O Rei das Manhãs conta um pouco da história de Arlindo Barreto, mas no filme o protagonista é Augusto Mendes. Bingo tem quase tudo de Bozo, mas não é Bozo. Há elementos fictícios. No elenco estão Leandra Leal, como a austera diretora do programa; Emanuelle Araújo no papel de Gretchen – um dos pontos altos do filme; e Tainá Müller, ex-mulher de Augusto.

Quem aprecia filmes com lição de moral, dá para sair do cinema refletindo sobre a relação pai e filho, que de bonita se tornou tão delicada por causa da fama. Será?

Seja como for, jamais cantaremos outra vez canções como Garoto Problema, de Xuxa feat Evandro Mesquita. Eis um trecho:

Ele era um garoto só
Mas não tinha pinta de bocó
Estavam sempre chamando sua atenção
Cobrando dele atitudes padrão
Não queria ser um filho robô
Nem o predileto do avô,
Mas aí o caldo entornou
E sem pensar duas vezes, se mandou!

Pena, que pena.

Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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