Birdman: o idiota, cheio de som e fúria, significando nada

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Em uma das cenas de “Birdman”, Riggan Thomson, vivido por Michael Keaton, caminha pelas ruas de Nova Iorque e passa por um homem que finge encenar “Macbeth”, de William Shakespeare. O mendigo, o louco, ou apenas um homem qualquer, recita uma das mais famosas frases shakespearianas: “A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, significando nada”. Um dos filmes favoritos do Oscar 2015, “Birdman” é dirigido por Alejandro González Iñárritu e concorre em nove categorias. No elenco, constam ainda Edward Norton, Naomi Watts, Andrea Riseborough, Zach Galifianakis, Amy Ryan, Emma Stone e Lindsay Duncan. Em busca de significação (ou ressignificação) está o homem: Riggan Thomson.

Thomson se tornou famoso protagonizando o super-herói Birdman. Às vésperas de estrear um espetáculo sobre o qual deposita a esperança de uma consagração autentica, ele inicia sua jornada. Muito já foi dito que a história de Thomson é a mesma de Keaton, que congelou sua carreira no tempo como o Batman de Tim Burton. Que a ressignificação a que procura o personagem é também a que busca o ator. Se o filme ganhar nas principais categorias, esta suposição pode se firmar, mas nos concentremos na trama, que vai muito além.

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Riggan Thomson decide dirigir, roteirizar e estrelar uma adaptação de um texto consagrado da Broadway. Inseguro, ouve vozes. Debate-se consigo mesmo a todo o momento. A voz o lembra quem ele é: o idiota. Mas mesmo assim o personagem sai em busca da sua consagração. Os testes que provam sua competência começam nos ensaios da peça, quando contrata Mike Shiner, vivido por Edward Norton, um ator em alta, talentoso sim, mas completamente irreverente e irresponsável. Mike desafia Riggan o tempo inteiro, obrigando-o a se impor e a acreditar em si mesmo para não ser vencido antes mesmo da cortina se abrir.

Magistralmente, Alejandro González Iñárritu contou a história de “Birdman” sob um único olhar. Os cortes são tão perfeitos que a sensação que se tem é que a câmera foi ligada e apenas depois de duas horas foi desligada, seguindo um único percurso. É genial. A câmera ziguezagueia pelos corredores do teatro como se o espectador estivesse sendo a testemunha ocular de tudo aquilo.

São dois grandes pontos a discutir em “Birdman”: um, o quanto buscamos o tempo todo ser os melhores, os protagonistas, e mesmo quando nossa miséria é colocada diante de nossos olhos por nossos filhos, ou pessoas com quem nos relacionamos mais intimamente, ainda sim nos preocupamos na bela imagem que sairá no jornal sobre nós; dois, quão vazio é o mundo do entretenimento atual e suas produções milionárias, voltadas para um público não pensante, que as deseja, tão culpados quanto quem produz. Apesar de ser uma crítica, o filme é cômico. Então, o longa gira em torno desta dualidade: por mais que Thomson tente afastá-lo, o pássaro continua ao seu lado. E por mais que negue, Thomson ainda quer que o pássaro seja parte dele.

Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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