Boris Fausto revela “O Brilho do Bronze”

É no mínimo comovente ver um homem como Boris Fausto debruçar-se sobre o mar de mistérios que é a morte. Mar no qual mergulharam todos os seus sentimentos depois da morte de sua esposa, Cynira Stocco Fausto, em 2010, aos 79 anos, vítima de câncer. Suas emoções fragilíssimas, depois do rompimento de um laço de 49 anos, são reveladas em textos curtos sobre luto, vazio e saudade, além de fatos cotidianos, casos sem pretensão, a não ser o de preencher os dias que não têm mais o mesmo sentido. O melhor de “Brilho do Bronze” é então a vulnerabilidade de Boris Fausto. Publicado pela Cosac Naify, o livro diário narra os dias que se seguiram após a morte de sua companheira.

Foto: Carlos Fausto.
Foto: Carlos Fausto.

A ideia de escrever um diário é na verdade o retorno a um hábito da juventude. Uma grande saída, aliás, para amenizar a irreparável dor da morte. Um voltar menos doloroso à rotina da escrita, que é um dos ofícios de Boris Fausto. Escrever torna-se uma tentativa de dar sentido ao indizível. Quando as palavras são insuficientes, mesmo para um homem que as domina, o sentir é a única via de comunicação, de troca, de conexão com o mundo que continua. Por isso, compreende melhor “O Brilho do Bronze” quem entende a dor da saudade.

Aos 84 anos, o historiador, bacharel em Direito e doutor em História pela Universidade de São Paulo, é autor de “A revolução de 1930: história e historiografia” (1969); “História geral da civilização brasileira: período republicano” (1977); “Crime e cotidiano” (1984); “Negócios e ócios” (1997); “Brasil e Argentina: um estudo de história comparada (1850-2002)” (2005); “Getulio Vargas: o poder e o sorriso” (2006); “O crime do restaurante chinês” (2009) e “Memórias de um historiador de domingo” (2010). Seu colossal conhecimento, assim como seu bom humor, é facilmente percebido ainda que a dor seja o mote principal.

O livro começou a ser escrito em 2010, primeiro apenas para si – e no máximo para os familiares mais íntimos. Logo depois, enquanto escrevia e já sabia que seria publicado, o historiador refinou os textos, evitando a pieguice e os excessos.

O título “O Brilho do Bronze” remete à lápide de Cynira, a qual cuida com muito esmero. As visitas constantes ao cemitério tentam estabelecer uma comunicação sempre cheia de carinho, amor, e algumas vezes de maneira até desafiante. O autor, em várias partes do livro, espera que tudo não tenha passado de uma brincadeira, e que sua companheira volte docemente sorrindo, mal acreditando que ele fora capaz de cair nesse trote sem graça da vida.

Em luto, todos se amparam com certo desespero em qualquer possibilidade de haver algo além desta vida, só para não ser tudo tão sem propósito. Quando o ceticismo não suporta o peso da saudade, ele cede para as teorias rejeitadas, quem sabe, por toda uma vida. É como se fosse dada a permissão para acreditar em algo que nem importa se existe ou não, desde que mantenha intacta a memória desse alguém. Quando uma vida dedicada ao conhecimento não encontra em conhecimento algum a resposta para o vazio que a morte deixa, torna-se necessário redescobrir-se.

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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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