Boyhood: o estudo do comum e a experiência cinematográfica

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O filme “Boyhood”, de Richard Linklater, é um símbolo de como a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas está trabalhando recentemente em sua premiação, o Oscar. Há alguns anos, não era muito comum filmes independentes e estrangeiros (no caso, de língua inglesa) serem indicados a principal categoria, a de Melhor Filme. No entanto, neste ano, apenas “Sniper Americano” foi feito em terras californianas, com verba do estúdio e exibido em grande número de salas. Assim como os maiores indicados, “Birdman” e “O Grande Hotel Budapeste”, cada um com nove indicações, “Boyhood”, com seis, é um filme autoral, com heranças estéticas e narrativas do cinema independente.

Esse traço de mudança no Oscar se deve, basicamente, a tendência dos estúdios deixarem de arriscar em produções inovadoras, trabalhando fortemente no lançamento de sequencias e adaptações dos quadrinhos. Apesar da qualidade técnica e roteiros cada vez mais densos, de maneira geral, tais filmes não representam o que a Academia gosta de premiar. Pessoalmente, que bom!

“Boyhood” também representa o filme mais inovador do Oscar 2015, apesar desse fator se resumir na duração do período de produção. O filme acompanha a infância e adolescência de Mason, vivido por Ellar Coltrane, por 12 anos. As câmeras de Linklater acompanharam o desenvolvimento natural de Coltrane e dos outros atores. Richard gravava por uma semana com toda equipe, uma vez ao ano. Vale lembrar que experiência muito parecida foi levada a TV pelo diretor e produtor Michael Apted (Nell, Masters of Sex). Na série “56 Up”, ele registrou 56 crianças inglesas por meio século, em intervalos de sete anos. A grande diferença para o filme de Linklater é que a série de Apted assume totalmente o gênero documental.

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De qualquer forma, o caráter duradouro da produção é uma mudança pequena, porém com grandes consequências. Imagine manter uma equipe motivada por 12 anos, contar com a sorte de todos estarem vivos e com saúde para trabalhar. Conseguir direcionar os atores em papéis aos quais eles voltam apenas uma vez ao ano, intercalando com outros trabalhos completamente diferentes. Manter locações, padrão estético, o que depende muito de um equipamento específico de captação e iluminação, principalmente. E depois de tudo isso, montar esse material de maneira coesa e fluída ao longo de todos esses anos. Não à toa, a editora Sandra Adair, colaboradora de Linklater desde 1993, é o nome mais cotado para o prêmio de Melhor Montagem.

Para o espectador, a evolução do tempo é sentida de maneira extremamente natural, de modo que o diretor não subestimou a inteligência do público. Além das mudanças físicas dos atores, a trilha sonora, recheada de hits pops desses 12 anos, indo de Britney Spears até Arcade Fire, data a evolução do tempo, bem como convida o espectador a reviver sua própria história.

A experiência cinematográfica de contar através do cinema a evolução natural de personagens ao longo de anos, ou seja, com os mesmo atores, não é de todo uma novidade para Linklater e para o ator Ethan Hawke, que interpreta o pai de Mason. Com Julie Delpy, eles fizeram a já clássica “trilogia do Antes”: “Before Sunrise” (Antes do amanhecer, 1995), “Before Sunset” (Antes do pôr do sol, 2004) e “Before Midnight” (Antes da meia noite, 2013). Os filmes que contavam o romance vivido pelo casal Jesse e Celine, desde o momento em que se conheceram em Viena, no primeiro filme, se reencontraram em Paris, no segundo e passaram por uma crise no casamento, em Atenas, no último longa. Além da naturalidade, o reflexo na tela desse tipo de processo, pode ser visto tanto na trilogia quanto em “Boyhood”: é nítida a colaboração dos atores, inclusive os mais jovens, para com o roteiro, seja nos diálogos, bem como nas experiências vividas pelos personagens, algo que confere uma autenticidade única aos filmes. Difícil por exemplo não ver no próprio Hawke a imagem do pai moderno de posição política democrata.

Mais do que um mero registro do desenvolvimento de um adolescente, “Boyhood” explora sem pieguice todas as dúvidas, dramas e inquietações de uma fase da vida com a qual o cinema tende a optar por caminhos mais óbvios e pouco criativos. Algumas exceções: nos anos 80, com o diretor John Hughes, tivemos a chance de ver os jovens como protagonistas, em filmes mais descompromissados, como “Gatinhas e Gatões”, até mais profundos, como “O Clube dos Cinco”, passando pelo mega sucesso das sessões da tarde, “Curtindo a Vida Adoidado”. Neste século, vale mencionar a estreia de Richard Kelly, com “Donnie Darko”, protagonizado por Jake Gyllenhaal bem jovem. O próprio Linklater já se aventurou a falar sobre adolescência, em “Jovens, Loucos e Rebeldes”. A grande mudança aqui, portanto, é uma abordagem mais precoce, que toma a parte das pequenas descobertas da infância como ponto de partida e o foco em um jovem curioso, confuso e imerso a diversos problemas familiares, apesar do carinho constante e incondicional dos pais.

Apesar de não ser nenhum arrasa quarteirões, a bilheteria positiva de “Boyhood” só cresce. Após prêmio e indicações, o filme voltou a ser exibido e com mais salas nos cinemas de todo o mundo. É também um sucesso de crítica. No site “Rotten Tomatoes”, uma página americana destinada a pequenas análises e avaliações, o filme atinge uma média impressionante de 98% de aprovação, um dos maiores da história, sendo que há alguns meses era de 100%.

Alguns filmes conseguem um bom número de indicações ao Oscar e se frustram ao obter poucas ou nenhuma estatueta. “Boyhood” não deve correr esse risco. Além da já citada e quase certa premiação por melhor montagem, Patricia Arquete, que interpreta a mãe de Mason, é a favorita para o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante, já tendo vencido o Globo de Ouro, Bafta e o prêmio do sindicato dos atores. A Academia tem seguido nos últimos anos uma prática que o comitê de jurados de Cannes já faz há muito tempo: equilibrar os prêmios de melhor filme e melhor diretor. Nessas duas categorias, “Boyhood” concorre fortemente com “Birdman”. Portanto, mais uma estatueta deve vir dessas duas categorias, ou para “Boyhood” ou para Richard Linklater.

Denise Balesteros Written by:

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