Bruno Garschagen: “Sempre tem saída, mesmo que seja pelo aeroporto”

Ele vem na contramão. Independente, aberto ao diálogo, apaixonado por política. Bruno Garschagen é o autor do momento. Na lista das publicações mais vendidas, “Pare de Acreditar no Governo – Por que os Brasileiros não Confiam nos Políticos e Amam o Estado” tem uma linguagem acessível, fluída e com uma dose deliciosa de humor. É um livro necessário para aprender a gostar do assunto e a entender as dimensões complexas e muitas vezes contraditórias da nossa política. Graduado em Direito, Garschagen é Mestre em Ciência Política e Relações Internacionais pelo Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa e Universidade de Oxford, como estudante visitante. Seus trabalhos como professor de Ciência Política, tradutor e podcaster têm respondido às necessidades de um tema hoje ainda mais pungente. Membro do conselho editorial da MISES: Revista Interdisciplinar de Filosofia, Direito e Economia, Bruno é também a prova de que a dedicação à leitura e a vontade do Saber abrem muito mais do que portas profissionais. Nascido em Cachoeiro de Itapemirim, interior do Espírito Santo, o autor tem viajado o país propondo uma nova maneira de pensar. Típico de apaixonado? Pode ser. A verdade é que ele não tem passado despercebido. Em entrevista exclusiva para a jornalista Eliana de Castro, Bruno Garschagen fala sobre o que está em alta nas redes sociais e cada linha é um convite latente para mergulhar mais fundo. Topa o desafio? Confira a seguir.

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Séries como “House of Cards” mostram a verdade sobre os ambientes políticos ou disseminam a utilidade – pouco preocupada com moral – da mentira, da traição, quando não do crime?
Elas mostram de forma acentuada uma dimensão da realidade política. Se a política fosse inteiramente daquele jeito, o sistema ruiria. Mas é justamente por essa dimensão operar de forma oculta que é tão difícil controlá-la ou extingui-la, pois se aproveita das rachaduras e das sombras do sistema para funcionar.

Em uma cena, ao receber uma proposta de apoio do Frank Underwood, em troca de um cargo, a deputada Jackie Sharp responde: “mas isso é quase traição”. Frank rebate dizendo: “quase traição é política”. Lealdade é um valor utópico? Na política ou fora dela?
Não se pode elevar a concepção do Frank Underwood como um modelo de atuação na política formal, mas não se deve cair no erro de achar que esse tipo de pensamento e prática não existem, que é coisa de filme. O problema é que a política formal quase cria uma segunda realidade, na qual o padrão de pensamento, de ação e de comportamento é diferente do que acontece na vida em sociedade. Um exemplo? Na vida em sociedade, uma traição é uma traição, ou seja, algo negativo a ser evitado. Na política, pode ser a diferença entre deixar e afastar do poder um Lula, mas também pode ser a diferença entre preservar e derrubar um imperador como D. Pedro II.

É possível gostar de política e estudar política sem baratear a discussão? Esquerda x Direita, Coxinha x Petralha? É possível viver fora dessa disputa? Porque hoje essa polaridade alcançou outras áreas da vida.
Sim, é possível não vulgarizar e baratear sua própria percepção da realidade e seu envolvimento no debate. E para isso não é necessário estar “fora” das posições em discussão. Presumo que seja algo impossível acompanhar e estudar política sem estabelecer qualquer tipo de envolvimento com as ideias em pauta – mesmo que você não se identifique ideologicamente ou pragmaticamente com as opções em vigor. A sua pergunta é importante porque evidencia o tipo de embate que vemos hoje: antagonismos radicais que, em certos momentos, partem de fundamentos e premissas equivocados, muitas vezes por falta de informações básicas sobre o tema em questão. E nem estou falando de nuances sofisticadas, que as melhores cabeças têm condições de identificar e explorar. Refiro-me a conceitos básicos de política que, em virtude de uma baixa qualificação intelectual geral, prejudica ou inviabiliza debates profundos e proveitosos. Sendo assim, é mais fácil e cômodo deslocar do futebol para a política um modo de ver a vida, e a política em particular.

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Quando se alega que a falta de conhecimento/repertório é um dos problemas para votar bem, o que dizer de grandes intelectuais que se posicionam de maneira férrea, deixando claro, para o mais leigo, que não está sequer aberto para o diálogo. Há uma crise também entre os ditos exemplos, a elite cultural e intelectual? E elite que chamo aqui é exatamente o que você levanta em seu livro, o exemplo, o que há de melhor, não o termo pejorativo que se tornou…
Presumo que o primeiro grande problema quando se trata de escolha eleitoral no Brasil seja a ausência completa de opções que sejam verdadeiramente diferentes e plurais. A maioria dos políticos no poder e aqueles que pretendem se candidatar nas próximas eleições são filhos de uma mesma mentalidade estatista e de uma cultura política intervencionista. Se substituíssemos amanhã todos os políticos não iria mudar muita coisa; haveria apenas uma variação, para cima ou para baixo, no grau de intervenção. A classe política quer sempre intervir de alguma forma para justificar a sua existência.

Quanto aos intelectuais, não sou um otimista cultural. Não acho que os membros de uma elite cultural estejam imunes a fazer escolhas equivocadas quanto a ideologias, partidos e políticos. Num plano mais amplo, a ausência de uma elite cultural e intelectual, composta por aqueles que representam o melhor, tem consequências várias, e não apenas no âmbito da política. Uma sociedade sem modelos e referências virtuosos sequer sabe qual a diferença entre o melhor e o pior – e tudo passa a ser medido por uma mesma régua de baixo padrão.

Nosso problema cultural é muito difícil de lidar porque é profundo e pluridimensional. Seria muito fácil culpar apenas os ignorantes, mas o tipo de “elite” que temos faz com que a diferença entre seus membros e os ignorantes seja irrelevante e, portanto, parecem estar todos num mesmo plano qualitativo e isto é um infortúnio para todos nós.

Você fala sobre política com muita paixão. Qual a lembrança mais remota que possui se interessando pelo assunto?
É da minha infância, quando um amigo e eu fizemos um megafone de papelão e xingamos um por um os políticos cujos santinhos recebemos dias antes daquele período eleitoral. Depois, já adolescente, lembro-me do meu avô, que não queria ser atrapalhado em sua vida por governo algum, sempre dizendo para eu não confiar em político nem em sindicalista (muito menos no PT). Se estivesse vivo, meu avô não estaria nada surpreso com todos os escândalos envolvendo membros do partido, desde o primeiro governo Lula.

Já desejou em algum momento ser político?
Não. Creio que meu talento e vocação sejam estudar e refletir sobre a política, não envolver-me no exercício da política formal.

No decorrer de sua trajetória acadêmica, conforme ia se aprofundando nos temas e autores, mudou de posição muitas vezes?
Nunca fui um dogmático racional, nem nunca tive uma ideologia para chamar de minha. Alguns de meus heróis intelectuais atuavam como livres-pensadores e eu sempre tive isso em mente. O que acontece ainda hoje é eu ficar maravilhado (ou aterrorizado) com as descobertas e, a partir delas, aprofundar algumas reflexões ou reformá-las ao verificar que algumas anteriores eram teoricamente insustentáveis. Só consigo imaginar uma vida intelectual aberta às descobertas e a eventuais reformulações substantivas.

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Para Kant, o esclarecimento é a saída do homem para a menoridade intelectual. Como e onde encontrar esse esclarecimento?
A primeira ação para superar a menoridade intelectual não é o esclarecimento, mas a vontade de conhecer, de melhorar. E essa vontade passa ou por uma fortuita descoberta individual ou pelo acesso a uma informação através de um familiar, um amigo, colega, professor. Mas se não há vontade, de nada adianta a informação. Se eu indico uma música, um livro, um filme e a pessoa não ouvi-la, lê-lo ou assisti-lo, essa informação não tem qualquer valor.

Em nenhum outro tempo tivemos tanto acesso à informação e tanto espaço para falar. Seria razoável concluir que atuamos como se essas informações não existissem? Por exemplo, qual a diferença do jovem dos anos 1980 que não tinha veículos alternativos de informação e redes sociais e o jovem de hoje, que tem tudo isso?
Pelo contrário. O acesso à informação nessa escala gigantesca tem feito grande diferença na vida de muitas pessoas – para o bem e para o mal. Antes da internet, uma pessoa que quisesse assistir uma aula ou palestra de um professor das principais universidades do mundo só teria condições de fazê-lo se fosse lá estudar – o que continua sendo dificílimo. Hoje em dia, do meu computador, tenho acesso às aulas de vários e importantes professores, de Oxford, Cambridge, Harvard, Stanford, dentre outras.

Por outro lado, há o jovem (e adulto) que prefere buscar outro tipo de informação, que será consumida rapidamente para satisfazer uma necessidade circunstancial e depois automaticamente descartada.

No caso das notícias, hoje não estamos mais reféns de editores de jornais e repórteres que escolhiam por nós aquilo que eles consideravam relevante. Atualmente, também nós atuamos de forma mais e menos qualitativa, como mensageiros de informações diversificadas. O ganho com isso foi tremendo.

Qual o papel das artes, da cultura, na boa formação política do cidadão?
A boa formação política começa em casa com a família ensinando que existem e o que é o bem e o mal. Sem essa formação de base de nada adiantará um conhecimento técnico posterior sobre cultura lato sensu ou política.

Normalmente, investimos muita energia para esquecer que tudo pode ruir em nossa vida a qualquer momento. Se assim não o fizéssemos, o medo nos paralisaria e não construiríamos nada. Refletindo sobre uma frase que você usa muito no livro: “nada é tão ruim que não possa piorar”. Nós adotamos, quanto povo, essa mesma defesa, a “negação”, para não sermos engolidos pela verdade de que não tem saída?
Creio que não faz parte da nossa cultura pensar dessa maneira, sequer sobre a verdade. Também não acho que devamos fazer qualquer esforço para esquecer a nossa condição humana porque isso de alguma forma nos paralisaria ou no arruinaria. São justamente as nossas limitações que deveriam nos estimular a ser pessoas melhores em todos os sentidos. A brevidade da vida é um convite a ser melhor e a fazer o bem.

Você acredita que tem saída?
Sempre tem. Mesmo que seja pelo aeroporto do Galeão ou de Guarulhos.

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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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