Capitão Phillips: por trás do homem comum

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É sempre um prazer ver Tom Hanks no cinema. Sempre. Raros são os filmes em que ele não satisfaz a plateia – se é que é possível lembrar algum. Por isso, o astro é o tipo de ator que leva público às salas sem o menor esforço. Dá até para apostar que quase ninguém lê a sinopse antes de comprar o ingresso. Exagero? Talvez, não. Em “Capitão Phillips”, filme que concorre ao Oscar de Melhor Filme, Hanks vive o próprio comandante Richard Phillips – porque a história é verídica – e o roteiro é baseado na aventura que foi relatada pelo próprio oficial em um livro de memórias. O longa não é daqueles arrebatadores, mas tem o seu brilho e, claro, tem Hanks. E os motivos para gostar de “Capitão Phillips” começam pela maior habilidade do astro, a conferir:

Com seu jeito de bom cidadão, Tom Hanks consegue transformar personagens até meio sem graça em gigantes! Quem não sentiu a solidão de Chuck, em “Náufrago”, filme de 2000? A lista de sucessos do ator é enorme: “Filadélfia”, de 1993; “Apollo 13”, de 1995; “O Resgate do Soldado Ryan”, de 1998; o divertido “Prenda-me se for Capaz”, de 2002, com DiCaprio, que estava o máximo também; além de “O Terminal”, de 2004, talvez o menos empolgante, mas ainda sim muito bom. Com exceção de Carl, de “Prenda-me se for Capaz”, o que todos os personagens de Hanks têm comum com o capitão Richard Phillips? Possivelmente, o fato de todos serem homens comuns que conseguiram atravessar seus conflitos e revelar uma grandeza inesperada ou, talvez, pouco estimada. E o que gera mais identidade com o público é o quanto todas essas lutas internas dos personagens são democráticas, não aliviando ninguém por ser mais rico ou belo ou famoso. A vida real. O que se encontra em cada esquina, em qualquer pessoa.

Assista ao trailer de “Capitão Phillips”!

Quando o experiente capitão Richard aceitou trabalhar no navio cargueiro Maersk Alabama, com uma equipe desconhecida, em uma missão que pretendia levar alimentos aos somalis, não previa que seria mantido refém por piratas por cinco dias. Não previa que sua coragem, seu controle emocional e sua experiência seriam tão colocados à prova. Isso aconteceu em abril de 2009. O caso chamou bastante atenção das autoridades e moveu a Casa Branca e a Marinha americana para uma operação bastante arriscada. No filme, tudo é relatado sem delongas. Logo no início da viagem, o Capitão Phillips percebe a presença de piratas e não demora muito para que seu navio seja abordado por somalis armados. Mesmo a experiência de Phillips torna impossível a não invasão dos inimigos e a aventura, à bordo, se desenrola. Muito mais tensa pela brilhante atuação de Barkhad Abdi, que faz o capitão somali Muse. Aliás, o ator, diretor e produtor somali naturalizado estadunidense, vai disputar bravamente o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante com Jared Leto, de Clube de Compras Dallas, apostamos.

O filme não dá um minuto de descanso e todas as cenas são incríveis, seja pela disputa entre os piratas e os americanos ou pela realidade da vida, do mundo, que torna tanta crueldade – em nome da sobrevivência – possível. “Capitão Phillips” concorre também nas categorias: Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Montagem, Melhor Edição de Som e Melhor Mixagem de Som.

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Na trama, na maior parte do tempo, reinam os dois comandantes: Richard e Muse. A intenção do diretor Paul Greengrass, revelada em entrevistas coletivas, seria a de provocar uma reflexão sobre as consequências da globalização. É ela acontece, mesmo que pouca, em mentes menos atentas, ou mais sutilmente, em quem não está assistindo ao filme com um olhar tão politizado. No caso, os americanos não são apresentados como vítimas, muito menos os piratas da Somália como inimigos. É mais uma história de “cada um na tentativa de defender o seu”, que explica muitas das “maldades”. E é interessante notar que em diversas partes da disputa há até atitudes de compaixão entre os oponentes, além dos diálogos curtos, porém profundos, o que dá consistência à tensão, levando o espectador à indecisão. Para quem torcer? Difícil tomar partido.

Até o final, que pode deixar uma sensação de “tinha que ser assim?”, o espectador vai refletir sobre os valores que estão em jogo quando o assunto é a sobrevivência. Quem gostar do desfecho, tem mais claro suas posições políticas, consciente ou não. Quem sair da sala do cinema inquieto, vai se perguntar por mais tempo, em algumas situações do cotidiano, quem é mesmo a vítima e quem é o herói.

Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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