Carta de uma romântica a Isaiah Berlin

Caro Berlin,

Aprendi com Montaigne, um pouco antes de saber que minha alma tinha nome, que posso escrever com instinto. Envio-lhe, então, esta carta para falar de “As Raízes do Romantismo”. Não foi pretensioso dar o nome “raízes” às suas palestras. Entendo sua aflição em minha própria alma, pois quando escrevo também sinto minhas feridas se abrirem, ou tento curá-las ao escrever, ainda não sei ao certo. Mas gostaria, logo de início, de solidarizar-me. Quando começamos algo, nunca sabemos quando vamos terminar, ou se vamos terminar. Tudo é tão imprevisível.

Que devoto serviço fez Henry Hard, não achou? Quase posso ver suas mãos trêmulas e a emoção ao transcrever cada palavra de sua fala em vida. Em vida nesta terra, é claro, porque em vida eu o posso sentir.

Não encontro em nenhum olhar o acolhimento para falar de morte, de solidão, de vazio. Este mundo que não se embriaga do sentir não me compreende. Assim, resta-me a pena. Deste tinteiro debruço-me para alcançá-lo. Em que esfera, caro Berlin? Onde está neste instante em que te chamo? Se é capaz de me ler como quero supor que é, me receba como uma perdida. A época que me acolhe sofre. Não menos ou mais que a sua época, que a dos irmãos generosos que nomearam nossos sintomas. Mas minha época não percebe nada.

O senhor tem razão em dizer que se alguém é um pensador romântico ou um herói romântico não é dizer qualquer coisa. Sinto raiva de quem leva a vida sem propósito, porque a nossa vida não é assim. Quem ousa desconfiar da nossa significância? No outro extremo onde reside o meu orgulho está a solidão. Quem seria eu sem a experiência da escrita? Minhas emoções se ampliam na proporção do meu vocabulário. Hoje, posso dar nome a elas. Batizo com exatidão e sacramento o que se passa em cada parte de mim. E o que mais sei sobre esta experiência de viver é que não desejo que seja rasa.

É, meu caro, são muitos os irmãos que escreveram e deram a nós as letras como alimento. Schiller me embriaga, Kant me sara. E todos os outros me seguram pelos braços quando não sei se quero continuar. E sopram em meus ouvidos: “saia dos extremos, saia dos extremos, encontrará vida na equanimidade.”

Aposto que, quando partiu para descobrir as raízes da nossa história desejou não ter vivido o tempo em que viveu. Ao menos isso acontece comigo. Não acho que seja fuga, o senhor acha? Penso mais ser uma certeza. Certeza de que, por mais que viver não tenha lá nenhum propósito muito nobre, nos recusamos a viver sem sentido. Contraditório, eu sei. Mas o senhor também sabe que nada nos importa a não ser sentir, mesmo que tudo seja tão intimamente contraditório. Tatuaria o dizer que fosse capaz de me salvar, como se marca um animal que tem um dono. Há outras formas de prisão a se temer.

Se mudamos, caro Berlin, a consciência do Ocidente, foi porque conseguimos revelar o homem tal como ele é: um estranho a si mesmo. Como foi que o senhor disse? Somos animais “sem peias”, não é? Herança de Schiller. Nosso irmão Schiller nos lembrou dessa maldição de conciliar as necessidades da nossa carne que envelhece e apodrece ao desejo de voar. Corpo e alma. Incompatíveis.

O senhor tem razão: “nada mais foi igual”! Nenhuma revolução histórico-cultural abrangeu tantas áreas, da filosofia às artes, passando pelas ciências, as religiões, a moral e, olha lá, a política! Fomos nós. Desorientados orgulhosos. Bate em mim uma culpa por me achar melhor do que muita gente. Um senso de importância me pega como se fosse inaceitável ser comum, um texto sem rosto. Se vivo contraída pela dor latente de viver no passado e no futuro é porque o presente me escapa como punição. Ou será um presente escapar do presente para sair em busca do Saber?

Fiquei meditando também no que o senhor disse sobre os selvagens e os bárbaros. Achei de uma beleza ímpar e me questionei se sou um ou outro. Será que faço as perguntas certas e domino minhas paixões apenas para garantir o pão que neste instante está sobre minha mesa?

Enquanto viajei em suas palavras, caríssimo Berlin, me reconheci neste tempo sem data. Pergunto sobre os motivos de só em fins do século 18 terem nomeado nossa estirpe. Tudo isso me soa tão incapaz de ser datado. Somos tão sensíveis e impossíveis. Nosso esconderijo é o livro que nunca acaba. Os nossos abismos. E o eco que faz dentro de mim, agora, são suas palavras:

“Aquilo que você está perseguindo é inesgotável, que você está tentando agarrar o que é impossível de agarrar, que você está tentando aplicar uma fórmula a algo que foge a sua fórmula, pois, onde quer que você tente segurá-la, novos abismos se abrem, e esses abismos se abrem para outros abismos.”

Despeço-me, feliz por tê-lo como irmão e por termos, sem precisar de mais, a beleza.

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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com