Catherine Hakim: “Disseram às mulheres que explorar a beleza é desonesto”

O sociólogo francês Pierre Bourdieu inseriu na análise social na década de 1970 quatro tipos de capitais: econômico, social, cultural e simbólico. Esses bens – que possuímos ou não – facilitam nossas relações e nos ajudam na conquista de outros bens. Pois, então… Passado apenas algumas décadas, em 2011 a socióloga inglesa Catherine Hakim ousou nomear outro capital, que para ela é tão importante quanto os demais. Deu o que falar desde então. Seria este o capital erótico! Em entrevista exclusiva para a Fausto, a professora da London School of Economics, autora do livro Capital Erótico, fala sobre os mau-entendidos em torno do conceito e como podemos ou não usá-lo a nosso favor. Renda-se!

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Catherine Hakim, autora de Capital Erótico.

Fausto – As pessoas confundem capital erótico com vulgaridade?
Catherine Hakim: Capital erótico não é vulgaridade. Gisele Bundchen é uma das modelos mais bem-sucedidas do mundo, e muito bem paga, porque não há nada de vulgar em sua aparência ou estilo. Ela se exercita, faz ioga para manter seu corpo maravilhoso. Audrey Hepburn interpretou uma garota de programa no filme Bonequinha de Luxo, mas ela aparece muito elegante neste filme. Estilo é tudo.

O capital erótico também é um tipo de consciência do próprio valor?
Todos têm seu valor, não importa o que façam ou onde vivam. Hoje, muitas pessoas pensam que ter qualificações proporcionará autoconfiança. Em meu livro, contudo, mostro que reconhecer o valor da aparência pode ter o mesmo efeito. Além disso, todo mundo pode investir na própria aparência e no próprio estilo, e muitas vezes é mais barato do que investir em educação. Um bom corte de cabelo custa menos do que ter um diploma.

Satisfação sexual torna uma pessoa socialmente mais segura?
Possivelmente, mas não necessariamente. No entanto, uma pessoa sexualmente satisfeita apresenta-se para as outras pessoas, geralmente, de maneira mais atraente. Como ela está mais relaxada, exala.


“Disseram às mulheres, por tanto tempo, que a atratividade é superficial e que não tem valor, que elas facilmente acreditam que explorar a beleza é desonesto, e de alguma forma é trapaça.”

Catherine Hakim

Opressão, ou repressão, de pai ou mãe determina o capital erótico de uma pessoa?
Todos os jovens possuem o benefício da beleza da juventude e da boa saúde. Pessoas mais velhas muitas vezes sentem ciúmes disso, e elas fingem que apenas a sabedoria e a experiência são importantes. Infelizmente, muitos jovens não percebem que possuem esse recurso significativo, então, eles não valorizam a boa aparência e se consideram “normais”. É interessante notar que modelos recebem trabalhos cada vez mais jovens – hoje, na adolescência, enquanto antes era aos 20 ou 30 anos. Seu capital erótico é reconhecido pelas indústrias da moda e da publicidade.

Qual é a diferença entre a “verdadeira autoestima” e a justificativa ideológica que pretende tornar um ou outro gênero superior?
Em nossos dias, a ideia de que os homens são superiores às mulheres é vista como coisa do passado, fora de moda. Mesmo assim, os velhos hábitos persistem – de modo que muitos empregadores estão mais dispostos a pagar altos salários para homens do que para as mulheres.

Usar o capital erótico no trabalho é questão de inteligência ou é “roubar no jogo”?
Disseram às mulheres, por tanto tempo, que a atratividade é superficial e que não tem valor, que elas facilmente acreditam que explorar a beleza é desonesto, e de alguma forma é trapaça. Homens são criados para pensar que devem usar qualquer vantagem, qualquer ferramenta para alcançar o maior status, promoção, maiores ganhos, e por todos os métodos possíveis. Logo, eles não hesitam na hora de explorar a boa aparência.

Dê um exemplo.
Dizem que David Beckham ganhou mais dinheiro posando com as cuecas Armani do que em sua carreira como jogador de futebol. George Clooney não hesita em explorar sua beleza para ganhar dinheiro em diversas campanhas publicitárias, bem como em trabalhos como ator. Pesquisas mostram que CEOs de grandes empresas – que são quase sempre homens – são mais atraentes do que CEOs de empresas menores. Obviamente, esses homens têm educação, habilidades, inteligência, experiência de trabalho, etc. No entanto, ser branco e ter boa aparência dá vantagem extra, e eles usam para chegar ao topo.

E as mulheres?
Em meu livro aponto que as mulheres foram lentas para reconhecer que qualificar-se não exclui explorar a beleza também, tanto no local de trabalho como na vida privada. Elas deveriam ser mais ativas em explorar suas belezas e charme. “Ande com duas pernas”, como diria Mao.

Há quem interessa que o capital erótico não tenha valor?
Muitos homens fingem que seu dinheiro é mais valioso do que a beleza de uma mulher. Eles argumentam que boa aparência desaparece com o tempo, enquanto o dinheiro retém seu valor. Mas o dinheiro também pode ser perdido, às vezes de um dia para o outro, em uma crise financeira. Pessoas bonitas ainda são bonitas à medida que envelhecem, como vemos Catherine Deneuve ou George Clooney. Basicamente, os homens tentam conquistar parceiros mais atraentes com o menor gasto possível, em termos de tempo, estresse, etc. Homens inteligentes sabem que têm de gastar, às vezes muito dinheiro, para conquistar parceiros atraentes.

Você apresenta no livro Capital Erótico uma citação de um jesuíta, de 1606, que diz “suaviter in modo, fortiter in re“. Ou seja, suave no modo, forte no conteúdo. Você diz que a Igreja exigia que os padres fossem apresentáveis e persuasivos. Mas as religiões cristãs não veem o capitão erótico com certo receio?
Os jesuítas foram, e ainda são, muito bem-sucedidos porque entendiam que a aparência agradável é útil em todas as profissões e em todas as situações. Pessoas bonitas e bem vestidas atraem mais amigos, convertidos, fãs, clientes ou eleitores. Elas vendem mais bens e serviços, são mais persuasivas e as pessoas se lembram dessas pessoas como “iluminadas”. Os puritanos do norte da Europa, mais do que os católicos, tornaram a beleza e o luxo como tentações ao pecado. Defendiam uma vida de austeridade, com roupas simples, pretas, sem nenhuma música, nenhuma dança, sem joias e luxos. Ou seja, eles negavam a beleza. No entanto, no século XXI, a beleza é um luxo cada vez mais importante e altamente valorizado. Garçons ou garçonetes atraentes obtêm maiores gorjetas do que colegas pouco atraentes, mesmo que eles façam exatamente o mesmo trabalho. Nós temos que reconhecer que no mundo moderno a beleza tem valor.
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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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