Chico Buarque: setenta maneiras que há de amá-lo

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São raros os artistas que, ainda em vida, consigo definir toda sua obra como “clássica”. Geralmente, o reconhecimento vem pós-morte ou depois de um trágico acontecimento em plena juventude. Acontece que o nosso país possui uma rara exceção, que com 50 anos de carreira deixa um legado garantido nas prateleiras de obras-primas de quem ouve suas músicas ou lê os seus livros. Se posso destacar algo, por um olhar feminino, arriscaria três coisas: seus olhos verdes, o seu coração sensível e, uau, ele ainda joga futebol.

Não é todo dia que um gênio completa 70 anos com o reconhecimento de toda uma sociedade que ainda acredita que é possível um homem sério parar de contar dinheiro para olhar a banda, que ainda reconhece que muitos de nós falamos palavras duras, como “perdi”, ou que talvez exista alguém no mundo que deseja entrar pela “porta de trás” mil dias antes de nos conhecer.

Para os que são amadores no assunto, apresento Chico Buarque. Para os com um pouco mais de conhecimento podemos incluir o “de Hollanda”. Os profissionais podem chamá-lo de Julinho de Adelaide, Zsoze Kósta ou simplesmente de Chico. Mas tome cuidado ao ir além e usar diminutivos para mostrar intimidade, pode soar brega e seu nome nunca se tornar um dos títulos de suas canções.

Por outro lado, você não precisa se chamar Carolina, Lígia, Ana (e ser de Amsterdam, Atenas ou Angola), Rita, Teresinha, fazer cinema, Madalena ou até mesmo Geni para ter uma identificação imediata com que o compositor diz. Chico Buarque, assim como todos os homens que viram mais de três filmes franceses na vida (e gostaram), venera as mulheres mais sérias, blasés, com um olhar infinito e de ressaca como o da Capitu, que te suga como o mar e em um jogo de futebol não sai pulando e gritando assim que a bola passa do meio de campo. Se quiser comprovar a minha hipótese, escute “Olhos nos Olhos”, “A Mais Bonita” ou “Suburbano Coração”, todas com o eu-lírico feminino e a natureza humana que toda mulher do Chico carrega sobre si.

Existe também a prostituta e sua relação com o “sonho de valsa”, a mãe que vê a ordem natural das coisas se inverter ao arrumar o quarto do filho que se foi e também aquela que recusa todos os presentes do mundo para ser chamada de “mulher”.

Chico também é do carnaval, do futebol, da política, da simplicidade, das rimas, das ambiguidades, do Rio de Janeiro, do mar, da literatura, da história do Brasil, muitas vezes dentro de uma única música. Ouvindo suas canções, desde a barriga de minha mãe, posso afirmar que me sinto fazendo parte desta festa. Essa sensação é tão “in” que penso seriamente em passar na loja de bolo da esquina e depois soprar as velinhas sozinho, já que para mim ele não existe, mesmo depois de vê-lo cantar duas vezes bem na minha frente.

Por muitas vezes fantasiei andar pelas ruas do Leblon e encontrá-lo sem querer pelos largos quarteirões do bairro ou até mesmo dentro de uma drogaria comprando uma pastilha ou uma Maracugina para a turnê que se aproximava. Regina Zappa, biógrafa do cantor afirma que a velocidade de sua caminhada não faz com que o mais rápido dos fãs consiga dizer um “oi”. Talvez diga isso como consolo à imensa maioria que nunca encontrou e nunca encontrará o cantor olhando a Renata Maria saindo mar.

Chico, sempre me lembro que o vinho busca ocupar o lugar da dor, que até o mar faz maré cheia para chegar mais perto dela e que um dia, por descuido ou poesia, ela vai gostar de ficar.

Se um dia cruzar contigo, provavelmente não direi nada, e entenderei que é possível viver o tempo da delicadeza, mesmo sem nunca ter descoberto o que passa na cabeça desses amantes, seja da sua música, seja das suas mulheres.

Tiago Souza Written by:

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