Clara, de Aquarius, e o fio de realismo

Passado o falatório em torno de Aquarius, o filme de Kleber Mendonça Filho que virou arma para atacar e defender posições políticas, é possível falar sobre Clara, a personagem de Sonia Braga. Clara merece ser vista à parte, principalmente por quem saiu do cinema um tanto frustrado com o filme. Sim, há quem assistiu Aquarius sem hastear bandeira de partido e não o achou tão incrível assim, ou nada incrível, apenas crível.

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Cena de Aquarius.

Mas por que falar sobre Clara? Talvez, porque a personagem dialogue com mulheres fortes. E como seria essa mulher forte? Talvez, a que tem mais consciência de si mesma, algo que vai muito além das teorias feministas ou dos manuais de como se comportar numa era em que dizer que homens são essenciais sim para a felicidade de uma mulher (hétero, é claro), é uma afronta.


Não é raro o abuso da mulher em relação a ela mesma, quando em nome de uma falsa independência procura no sexo o amor.


Mulheres fortes conseguem facilmente se imaginar dançando sozinha no meio da sala. Elas não temem o sábado à noite sem nada para fazer. O fazer é, antes de tudo, algo que ninguém é capaz de determinar como regra. Claras podem ler um livro, ver um filme, cozinhar para si mesmas ou chamar um garoto de programa cujo preço não é emocional. O sexo pago por mulheres ainda é assunto pouco discutido. E como os direitos devem ser iguais, não é difícil concluir que serviços de prazer garantido são melhores que relações abusivas. Assim como não é raro o abuso da mulher em relação a ela mesma, quando em nome de uma falsa independência procura no sexo o amor.

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Poucas atrizes passariam com tanta verdade essa ideia de fortaleza inata quanto Sonia Braga. E por fortaleza inata entende-se a capacidade de uma mulher de bastar-se naturalmente, sem comportamentos afetados aprendidos em livros cujos títulos começam com “Como…” Fortaleza inata é ânimo interior que os anos de experiência, errando e errando, tornaram atuante. É o contrário da negação das próprias necessidades em nome de uma bandeira.

Para além da euforia e histeria esquerdista, Aquarius é um filme que tinha tudo para ser inspirador se não demorasse tanto. As 2h30 cansam, como cansam os discursos ideológicos em torno dele. Neste filme há uma história boa. Um cortezinho aqui, um cortezinho ali e Clara seria uma musa. Principalmente porque vive da melhor forma que pode.

Julgo que nunca é bom tecer uma opinião – boa ou ruim – sobre algo que não se viu, leu ou ouviu. Assim como julgo que nunca é bom acatar uma “proibição”, principalmente se o objeto proibido não representa perigo real. Costumo entender o perigo como algo realmente mais sério do que ver ou não um filme. E no caso de Aquarius, o único perigo é dormir e perder esse fio de realismo que talvez Clara representa.
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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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