Clóvis de Barros Filho: “Inveja denuncia inferioridade, fragilidade e mesquinhez”

Afinal, o que move as paixões? Clóvis de Barros Filho, ao lado de Luiz Felipe Pondé, respondeu a inquietante pergunta e as respostas estão no extraordinário livro O que move as paixões. A questão arguta tornou-se elucubrações. Se não indubitáveis, sem dúvida extraordinárias. Ler é transportar-se para um universo paralelo onde quase nada mais importa a não ser acompanhar a elegante dança de ideias entre os dois cavalheiros. Dada a natureza, diga-se, passional de FAUSTO, propusemos a Clóvis de Barros Filho conversar sobre algumas das paixões expostas na obra de Nelson Rodrigues, outro passional, outro genial. Inveja, ciúme, covardia, coragem. O que te move?

Clóvis de Barros Filho, co-autor de “O que move as paixões”.

FAUSTO – Relembrando o conto Diabólica… Na noite de seu noivado com Geraldo, Dagmar acaba confessando ao noivo uma inquietação que é o “desabrochar” de sua irmã mais nova, Alicinha. Dagmar teme que a irmã fique mais bonita do que ela e faz Geraldo jurar que se um dia houver traição, que jamais seja com Alicinha. Só que a diabólica cunhada começa a tentar Geraldo até que passam a ter um caso… Qual é o grande poder das mulheres mais jovens?
Clóvis de Barros Filho: A juventude traz consigo o brilho da descoberta. E é um brilho extremamente sedutor. Acredito que esteja aí, nessa presença mágica do futuro que nada mais é do que o presente imaginado. Logo, é o brilho que a imaginação do que está por vir traz ao presente. Esse brilho intriga e seduz quem está por perto. Contudo, é importante dizer que em momento algum é tolerável, moral ou politicamente, a abordagem de aproximação física de pessoas que não sejam plenamente capazes de discernir.

Geraldo acaba matando Alicinha e vai até a delegacia confessar o crime. A surpreendente reação de Dagmar é quando, na delegacia, grita “Graças!” pela morte da irmã. É a inveja declarada?
Há afetos que são mais mal vistos do que outros, mas todo afeto se deixa submeter a um crivo social. Há para tudo o que sentimos uma espécie de grade de valores. Isso faz com que certos afetos sejam de manifestação mais livre, mais autorizada, do que outros. E definitivamente a inveja não é um afeto legítimo de se manifestar porque denuncia inferioridade, fragilidade e mesquinhez. De certa forma, a manifestação genuína e autêntica de um afeto invejoso requer coragem.

Inveja é controlável?
Ela mesma, como tudo que é do mundo das emoções, tem muito de descontrolado. O que é controlável é a comunicação da inveja: a inveja traduzida em gesto, palavra, ofensa, desabafo. De certa maneira – e falo também por mim – quase todas as minhas incidências de afeto invejoso foram criteriosamente confinadas no mundo intra subjetivo e não se deixaram comunicar de jeito nenhum, para que ninguém soubesse mesmo. A inveja é avassaladora e a comunicação da inveja é uma questão de autenticidade.

O amor é sempre o pano de fundo daquilo que se inveja? Mesmo quando aparentemente o que se inveja é outra coisa, por exemplo, a beleza. Inveja-se a beleza porque a beleza supostamente chama o amor, inveja-se a riqueza porque supostamente a riqueza chama o amor…
É uma tese. Sempre digo que o amor é o que há de mais interessante na vida. E não só isso. O amor também confere interesse ao restante. A política é interessante se você ama a política, o esporte é interessante se você ama o esporte. Não creio, porém, que o amor seja responsável por tudo. Creio que quando a inveja é a inveja do amor, ela é uma inveja robusta, mas não creio que no mundo de hoje a coisa termine tão longe. Creio que pode mesmo haver apenas inveja do instrumento, do meio.

Estou indo muito longe?
Quando invejo a juventude que não tenho, a beleza que não tenho, a lucidez que não tenho, eu não sei se participa desse movimento de inveja os amores que nunca terei por falta de instrumento. Não sei te responder. Talvez a coisa seja mais tosca e ficamos mesmo com inveja dos recursos do outro, sem chegar a ter consciência do que esses recursos viabilizariam. Mas, é possível que no fim das contas quem tenha razão é você e que toda inveja seja inveja dos amores que nunca teremos.

No conto Casal de Três, Filadelfo vive um casamento de “melancolia tremenda” com Jupira. Até que o sogro de Filadelfo, pai de Jupira, expõe ao rapaz uma teoria: “A virtude é triste, azeda e neurastênica.” E diz que esposa amável é aquela que trai. Um belo dia Jupira muda. Torna-se amável, passa a se arrumar e a se perfumar, e a vida sexual do casal reacende… A virtude é triste, azeda e neurastênica?
Naturalmente, não tenho como responder a não ser com o meu próprio olhar. Portanto, discordo. Discordo demais da conta dessa afirmação. Penso que algumas virtudes são essenciais para a vida e para a vida em sociedade. Se entendermos uma virtude moral como uma espécie de princípio que através da inteligência se impõe para podermos viver e conviver, podemos chamar de chato, mas sem isso não haveria respeito, que não é necessariamente amor. É possível não amar, mas tendo que conviver com uma pessoa, respeitá-la e considerá-la. Isso é uma virtude. Não vejo nada disso como azedo. Meu jeito de pensar não é rodriguiano. Entendo que, sendo a virtude uma espécie de arremedo de segunda classe das paixões mais nobres, melhor seria se amássemos. Melhor seria se a vida fosse atravessada por forças vitais exuberantes. Não tenho dúvida, mas como nem sempre é assim… Mas reconheço que a tese com a qual não concordo é muito mais atraente do que a minha.

O genro então desabafa com o sogro sobre o suposto caso e o sogro dá um conselho também controverso: “Te custa ser cego?”. O maior medo de um homem é o de ser traído?
Existe nas paixões, de fato, uma pretensão de certa exclusividade. Isso decore do fato de que a presença de um rival que busca o mesmo troféu que você, a vitória dele exclui o seu acesso ao troféu. Melhor seria que toda e qualquer manifestação afetiva tivesse você como destinatário. No caso de uma paixão, o ciúme é um afeto real e será tanto mais pungente quanto maior for essa pretensão. Mas não sei se esse é o maior medo… O ciúme pode ser entendido como um termômetro para a paixão, não sei se para o amor, mas para a paixão, como diz o Pondé, a paixão romântica, se você não tem ciúme é sinal que apaixonado não está. No caso de ser afetado pelo ciúme, a constatação do interesse do apaixonado por um terceiro elemento é extremamente dolorosa. Mas não sei se é o maior medo, há tantos outros como o medo da morte do ser amado. É um medo que supera o medo da cornitude.

Mas o medo da morte não é diário, o da cornitude pode ser… [Dá risadas]
[Dá risadas] Não sei… É uma experiência que me é estranha. Tenho muito mais medo da morte de alguém que amo do que da traição. Depende um pouco do momento da vida em que se está.

Nelson Rodrigues foi o autor brasileiro que mais percebeu as tantas nuances das paixões?
Ah, um dos que mais, sim.

Quais outros autores mais?
Machado de Assis em Dom Casmurro é de uma sutileza extraordinária. Existe O Cortiço, obra de Aluísio Azevedo, um leque de situações descritivas de paixões que acho muito interessantes também.

Outros autores não necessariamente brasileiros…
Gabriel Garcia Marquez. Amor em tempos de cólera é um livro a ser lido, revela muita delicadeza no trato das paixões… Jorge Amado também com Tieta do Agreste, Dona Flor e seus dois maridos e Gabriela, cravo e canela. Há muitos autores que tratam das paixões com muita finesse, mas Nelson Rodrigues sem dúvida é um gênio.

Pensando numa relação hétero, mude o mundo como for, mas a mulher sempre vai esperar do parceiro coragem?
Talvez seja pertinente a tese, mas como não me considero nada corajoso…

Mude o mundo como for, os homens sempre vão esperar da mulher devoção?
[Silencia]

É uma visão muito estereotipada?
Estereótipos são simplificações da realidade, mas quem quiser dar conta da realidade por meio do discurso vai esbarrar em um problema: a realidade é complexa demais para ser conversável. Precisamos de certos simplificadores. O estereótipo é um simplificador compartilhado da realidade.

Quando coloco “mude o mundo como for” é porque a mulher pode se emancipar o quanto for, mas percebo que ainda se frustra quando não encontra um homem corajoso…
O problema é o “mude o mundo como for”. Não sei… Será que eu não poderia esperar coragem da minha mulher e ela esperar de mim devoção? Em nosso caso é mais isso do que qualquer outra coisa… [Sorri] Creio que admiro muito mais a minha mulher do que ela a mim. E acho que ela tem muito mais coragem do que eu. Talvez por isso mesmo eu a admire tanto…

Parto de uma visão romântica, mas é o que percebo…
Na história das relações entre homens e mulheres, a coragem masculina está na raiz. Aquele que enfrentava fisicamente as ameaças, as dificuldades do provimento, ou seja, com as coisas da rua. A partir do momento que a mulher foi para a rua também, e bate também, e enfrenta também, a expectativa da coragem do outro passou a ser dividida e compartilhada. Quanto à devoção… Fico no âmbito da admiração. Talvez eu esteja indevidamente ocupando um polo que: ou desmente sua teoria ou desmente o meu gênero.

[Dá risadas] Possivelmente minha teoria…
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Eliana de Castro Written by:

Idealizadora da FAUSTO, é jornalista e ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP.

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