Clube de Compras Dallas: sem julgamentos, sem falsa piedade

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A todo o instante, ao assistir ao filme “Clube de Compras Dallas”, o pensamento praticamente não muda: “o que eu faria se isso acontecesse comigo?”. A dura realidade de contrair o vírus da AIDS, só que não hoje, nos anos 1980, quando a doença surgiu e pouco se sabia sobre ela. Essa é a história verídica de Ron Woodroof, vivido brilhantemente por Matthew McConaughey – que deve levar o Oscar de Melhor Ator pela atuação e pela surreal caracterização. McConaughey emagreceu mais de 20 quilos e deixou para trás o estereótipo de galã. A consagração. O papel de sua vida.

Além de Melhor Filme e Melhor Ator, o longa de Jean-Marc Vallée concorre em mais seis categorias: Melhor Ator Coadjuvante, com a magnífica interpretação de Jared Leto como a transexual Rayon, que disputará ferrenhamente com Barkhad Abdi, de “O Capitão Phillips”; Melhor Roteiro Original, Melhor Maquiagem e Melhor Montagem. Possivelmente, “Clube de Compras Dallas” é a trama mais querida pelo público, a que levaria a estatueta como melhor filme do ano se não fosse a preferência da Academia por “12 Anos de Escravidão”. Mas quem assistiu a todos torcerá até o último segundo pela história de arrepiar do anárquico Ron Woodroof. Vamos ao trailer!

Assista ao trailer de “Clube de Compras Dallas”!

A empolgação em torno de “Clube de Compras Dallas” não é sem motivo. Desde que estreou nos Estados Unidos – dois meses antes de ser lançado no Brasil – o longa conquista cada vez mais público e já faturou mais de 40 prêmios. Todo esse sucesso vai além da caracterização dos atores McConaughey e Leto, porque o filme fala muito mais alto sobre outros assuntos. Primeiro, o preconceito – muito pior do que ainda vemos hoje – não só da sociedade em geral para com as vítimas como o das próprias vítimas em relação a elas mesmas. Segundo, o monopólio das empresas farmacêuticas, no caso do longa a que detinha o direito de produzir o AZT, a primeira droga produzida para combater a doença. E, terceiro, e o mais importante: a vontade visceral dos portadores de driblar as estatísticas. Ron foi taxativamente condenado pelo médico que o informou sobre sua doença a apenas 30 dias de vida. Contar o quanto ele viveu é contar parte do filme e “Clube de Compras Dallas” é um desses que precisa ser visto.

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O roteiro que conta ainda com Steve Zahn, Jennifer Garner e Griffin Dunne começou a ser pensado em 1992. O roteirista Craig Borten chegou a entrevistar Woodroof um mês antes de sua morte. É uma pena que o filme tenha demorado tanto para sair. E tudo é muito curioso porque até que fosse finalmente produzido, a proposta do filme foi rejeitada 87 vezes! E todo o roteiro reescrito dez vezes. Matthew McConaughey tirou a sorte grande, sorte essa que foi tirada das mãos de Woody Harrelson, Brad Pitt e Ryan Gosling, porque o projeto nunca saía do papel. Quase 30 anos depois de Ron, o assunto ainda merece atenção. Ele que nos anos 1980 foi atrás, em outros países, de drogas não legalizadas que funcionassem melhor que o AZT. Ao lado de Rayon, que representava o seu maior preconceito, porque Ron é homofóbico, o anti-herói criou um clube de fornecimento de remédios ilegais que passou a manter vivos muitos dos diagnosticados.

Jean-Marc Vallée e equipe não fizeram um grande trabalho apenas em termos de produção, de roteiro, atuação, caracterização, trilha sonora ou ambientação, porque tudo isso é muito bem feito. O mais importante prêmio – simbólico, é claro – é por retratar uma personalidade como Ron, que representa tantas outras pessoas que nos primeiros anos da doença sofreram e foram vencidas pela falta de informação e de drogas eficazes. Mas, mais que isso, o prêmio é por trazer o assunto de volta aos holofotes sem julgamentos ou falsa piedade.

Dizem que há uma explicação para tudo. Para a vida, para a morte, para grandes conquistas que são travadas depois de um golpe tão duro. Mas dizem que há um sentido para tudo também. Ron se tornou imortal pelo cinema.

Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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