Considerações de um Natal a la Charles Dickens: o que vai mudar?

Natal não é para todos. Ou talvez o Natal não seja apenas para você, ou para mim. Porque se pensar bem, o que há para celebrar? Jesus? Ah, não. Nem religioso você é, e nem eu. O amor? Ah, o amor. Mas ele ainda pode ser apenas um ideal em sua vida, ou na minha. Então, no fim, Natal é apenas uma obrigação. Em Um Conto de Natal, de Charles Dickens, o protagonista, um velho rabugento chamado Ebenezer Scrooge, é alguém que não vê sentido no Natal (talvez em nada), como você, ou eu. Dickens o descreve assim: “Oh! Mas Scrooge era um unha-de-fome, um sovina, isso sim! Um velho pecador ambicioso, duro, violento, invejoso, cobiçoso e resmungão! Duro e frio como uma pedra que nunca foi maculada pelo fogo generoso, nenhuma vez; reservado, contido e solitário como uma ostra.”

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Em dado momento da história, como provavelmente aconteceu com você, e comigo, o sobrinho do senhor Scrooge chegou radiante para desejar “Feliz Natal!” Como é possível ficar radiante numa noite que é exatamente como outra qualquer? Você pensa assim? Pode confessar, ninguém está vendo. Eu penso. E eis a resposta do velho: “…que é a época do Natal a não ser uma época de contas a serem pagas sem dinheiro; um tempo para se descobrir um ano mais velho e nem uma hora mais rico…” Mas depois da lamúria, o sobrinho responde assim:

“Há muitas coisas que eu posso fazer que de fato não me dão lucro algum, ouso dizer”, respondeu o sobrinho, “Natal está entre elas. Mas eu tenho certeza de que sempre penso na época do Natal quando ele está chegando como uma época boa – à parte da devida veneração à sua origem e aos nomes sagrados, se alguma coisa relacionada a isso pode ser colocada à parte –: um tempo de perdão, caridade e prazer únicos; a única época que conheço ao longo do calendário do ano quando homens e mulheres parecem consentir abrir livremente os seus corações que se encontram fechados, e pensar nas pessoas como sendo companheiros numa longa jornada até o túmulo e não como uma outra raça de criaturas cheias de orgulhos em seus caminhos. E embora, tio, você pense que nunca um pedaço de ouro ou prata já esteve em meu bolso, eu acredito realmente que tudo isso tem me feito ser bom e sempre me fará ser bom; e tenho dito, Deus o abençoe!”.”

O conto de Dickens é um clássico. Só através da Disney, já foi para o cinema duas vezes. Se puder, leia o livro e se permita reviver cada Natal passado, como o senhor Scrooge, que tem uma lição a aprender. Como você e eu.


A melhor proposta de Charles Dickens em Um Conto de Natal é permitir que você veja o seu futuro.


Bem, como diz Harold Bloom, “do conto esperamos obter o prazer da conclusão.”  E a moral da história de Charles Dickens é simples, fácil de entender. Mesmo não gostando do Natal – ou sendo indiferente a ele -, você e eu podemos discordar do sentido que ele deve começar a ter. É que na medida em que for lendo Os Contos de Natal, será inevitável repassar sua vida, suas escolhas e, principalmente, como será o seu futuro se você continuar exatamente como está.

Talvez, a sua noite de Natal tenha sido melhor do que o esperado. Talvez, tenha pensado menos na parte não tão boa da vida porque comeu bem e bebeu melhor ainda. Você pode também ter aproveitado a data para falar com alguém especial que ficou perdido no ano que passou. Natal é ótimo para isso. Indulgência para todos. E se não é a autoindulgência a melhor de todas! É dia de telefonar para certo alguém e até de se arrepender depois sem muitas consequências, afinal, foi o espírito natalino que o levou a tal tolice.

Mas a melhor proposta de Dickens neste conto é permitir que você veja o seu futuro. Se você soubesse que vai perder o seu amor atual porque ninguém aguenta tanta chatice (sim, você é o chato), o que faria para mudar? A graça da leitura é se imaginar no futuro. Se soubesse que vai perder aquele parente muito querido, arrumaria mais tempo hoje?

O Natal acabou para mim como um dia normal. Foi um dia normal. Não mudei, nada mudou para mim. Mas como o senhor Scrooge eu pude ver o meu futuro e por isso decidi aprender a fingir. Talvez valha no começo interpretar o personagem que fará feliz o meu pai, o meu irmão, amigo ali, amigo lá. Vale a pena fingir para que o meu amor não se canse de mim e de meu muro de convicções.

Se você tiver saco, como foi preciso ontem e antes de ontem, pense um pouco no seu futuro. Pode pensar que não se importará de continuar como está. Acredito até que será bem tentador. Mas acredito que Dickens tinha razão. Pelo menos eu não quero pagar para ver. Feliz Natal atrasado.
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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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