Da gentileza

Cada vez mais acredito que gentileza é o bem mais valioso e raro de nossa época. Falta tanto que quem é gentil, deliberadamente, assim, sinceramente, torna-se logo o aconchego das relações. Torna-se aquele com quem a alma deita e dorme o sono mais profundo. Só que, para ser gentil, creio, há de se ter dentro de si algumas certezas. E há de se falar pouco.

Da gentileza.

Não tenho, contudo, certeza se se nasce gentil ou se se torna gentil. Talvez, a gentileza seja um dom, como o sorriso de bom dia de dois ou três que conheço. Tenho para mim que esses dois ou três dormem ao lado de Deus.

Sorrisos de bom dia, deliberados, assim, sinceros, me perecem sinais espirituais. Sinais de certeza de proteção divina. Sorrisos de bom dia guardam a segurança que muitas vezes me falta quando acordo. Ou quando vou dormir. Segurança do amanhã. Ou mesmo do presente. Do presente que se basta presente. Sem lamentações, sem aspirações.

Faz sentido, creio. Porque quando me percebo rude, sei que estou presa no passado. Ou no futuro. É sempre no pensamento que tudo acontece, esse buraco negro sem tempo tiquetaqueando. Ou nas emoções que insistem em ficar. Tento tanto ser apenas curva de passagem. Odeio ser vala. Ser poça. Ainda se eu fosse oceano…

Em presença do presente também sinto que sou mais leve. Seja como for, tenho certeza de que é na figura de meu pai que reconheço o rosto da gentileza.

Homem que não frequentou escola, que não sabia nem riscar a letra do ó, como se diz nos recônditos áridos, aprendeu a escrever o próprio nome, e coisinhas fundamentais, em anos como vigia noturno de uma oficina mecânica de luxo. Ele é o mais gentil e refinado dos homens que já cruzaram meu caminho.

Ele é um rei, como costumo dizer. Como príncipe é meu irmão, outro nome de gentileza. Por causa disso, talvez, doa tanto a rudeza dos gestos menores. Dói quando sou eu o risco em alguém porque não sou capaz de vencer meus ressentimentos.

Entretanto, ainda que eu tropeça, é verdade que sei viver no deleite do bom trato. Sei dançar! Gentileza tem o poder de fazer o tempo parar. É como dançar.

Com típica simplicidade e doçura, meu pai sempre pediu licença para sentar em minha cama toda vez que desejava conversar comigo. Na verdade, sempre pediu licença para tudo: para se sentar à mesa, para se levantar, para falar quando a conversa não o incluía. É como se ele tivesse noção de que o espaço físico é porta de entrada da alma.

Tivesse noção? Ou será que ele tem noção, apesar da simplicidade? Sabedoria vem de conceitos decorados ou de um amor puro pela vida?

Apesar de lutar todos os dias por esse amor puro pela vida, porque sou de Camus, sei que gentileza é incenso que purifica o ar triste do cotidiano. Gentileza é colete salva-vidas em mar aberto. Até podemos ver graça em não precisar sustentar o corpo em terra firme enquanto quem salva não vem. É isso! Gentileza é sair do chão por segundos, horas, dias…

Cada vez mais acredito que gentileza é o bem mais valioso e raro de nossa época. Falta tanto que quem é gentil, deliberadamente, assim, sinceramente, torna-se logo o aconchego das relações. Torna-se aquele com quem a alma deita e dorme o sono mais profundo. Só que, para ser gentil, creio, há de se ter dentro de si algumas certezas. E há de se falar pouco.

 

 

Eliana de Castro Written by:

Idealizadora da FAUSTO, é jornalista e ensaísta, mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP.

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