Dionisius Amendola: “Handmaid’s Tale busca compreender a condição humana em sua plenitude”

Em questão de semanas, a série Handmaid’s Tale foi parar em praticamente todos os veículos de informação do mundo. Das páginas da Vogue francesa aos sites de cultura pop, passando, é claro, pelos grandes jornais como Guardian e New York Times, o frisson que a série tem provocado é, como diz nosso entrevistado Dionisius Amendola, “nós de tensão”, estes que todos nós sentimos “diante das possibilidades assustadoras de controle social.” Contudo, as análises que pipocam por aí são rasteiras. Associar o totalitarismo abordado na série ao Trump? Em entrevista exclusiva para a Fausto, o criador do Bunker do Dio, vlog de critica cultural, aprofunda os assuntos que tecem o pano de fundo da belíssima adaptação do romance distópico O Conto da Aia, de 1985, da escritora canadense Margaret Atwood. Entrevista irrepreensível.

Dionisius Amendola.

Por que o mundo está assustado com Handmaid’s Tale?
Temos diversas razões aqui. A mais óbvia – e burra – é que boa parte da chamada crítica especializada está traçando paralelos entre a distopia representada na série e o atual momento da política americana, com Trump no poder.

Por que burra?
A última coisa que o Trump é, é um “fundamentalista cristão”. E olha que nem conservador ele é! Ele é apenas – ou exatamente isso – o representante escolhido por uma parcela da população americana que se revoltou com suas elites preguiçosas e parasitárias. Fenômeno esse antecipado por Christopher Lasch em seu livro A rebelião das elites, no qual ele mostra que as elites traíram os ideais do povo comum. Trump é um populista, mas no sentido de ser aquele que quer deixar o povo, ou melhor, as pessoas, escolherem seus caminhos, e não impor sua vontade, ou ainda, aceitar os desmandos de uma vontade geral criada nos círculos progressistas que tanto dominam o imaginário democrata. Em outros aspectos, o livro também vem em um momento em que se discutem novas distopias, novas ideias totalitárias.

Por exemplo?
Se George Orwell escreveu 1984 com o totalitarismo estalinista em mente, se Aldous Huxley atacou o totalitarismo cientificista com Admirável Mundo Novo, hoje vemos autores como Michel Houellebecq apontar os perigos do totalitarismo islâmico em Submissão, e ainda temos uma pequena obra prima chamada 2084, do autor nigeriano Boualem Sansal, que presta não só uma homenagem ao livro de Orwell, mas atualiza os horrores daquele livro, mas agora falando sobre uma sociedade “pós-islâmica”. Então, voltando à pergunta, acho que este “susto” com as ideias contidas no livro O conto da Aia, e na série, são estes catalisadores, estes “nós de tensão” que todos sentimos diante das possibilidades assustadoras de controle social, que se no século XX foram expressas em todo o seu horror pelos totalitarismos nazista e soviético, no século XXI estamos à mercê de novos tipos de loucuras totalitárias: sejam elas ismaelitas, sejam elas dos grandes utopistas do Vale do Silício, ou ainda, o tipo de reacionarismo pagão que assola o submundo político e a cultura da Europa.


“Este “susto” com as ideias contidas no livro O conto da Aia, e na série, são estes catalisadores, estes “nós de tensão” que todos sentimos diante das possibilidades assustadoras de controle social.”

 

Dionisius Amendola sobre Handmaid’s Tale

Em resumo, a República de Gilead, de Handmaid’s Tale, é filha do casamento entre política e religião?
Diria que é o próprio casamento entre religião e política. Na série, não é a política que é alçada ao patamar religioso, mas o contrario, a religião que se rebaixa à política. Isto é, a partir de uma visão religiosa fundamentalista, vai se pensar e construir uma nova sociedade. Mas, para além dos aspectos religiosos, é interessante notar que tanto o livro quanto a série também apontam o dedo não só para um tipo esquizoide de conservadorismo, mas também para a ideia pueril – e perigosa –  de que o ultra-liberalismo seria uma solução. Penso aqui em Hans Herman-Hoppe, que em seu livro Democracia – o Deus que Falhou fala explicitamente em eliminar aqueles que ameaçam a aliança “fundada com a finalidade de proteger a família e os clãs… Eles – os defensores de estilos de vida alternativos, avessos à família e a tudo que é centrado no parentesco como, por exemplo, o hedonismo, o parasitismo, o culto da natureza e do meio ambiente, a homossexualidade ou o comunismo – terão de ser também removidos fisicamente da sociedade para que se preserve a ordem libertária.” Creio ser importante dizer que quem apontou este detalhe perturbador do pensamento de Herman-Hoppe foi o escritor Martim Vasques da Cunha, autor de um dos mais importantes livros publicados nos últimos anos nesta nossa distopia tupiniquim, A Poeira da Glória.

Há realmente muito mais o que discutir…
Isso eleva em muito a discussão sobre a série e o livro. Se pensarmos bem, e devo este insight também ao meu amigo Martim Vasques da Cunha, estamos diante de uma distopia conservadora-libertária, que tem como alvo original a utopia libertária de Ayn Rand, mas que hoje pode ter novos alvos.

O que seria a utopia libertária de Ayn Rand?
Ayn Rand escreveu e pensou sua obra como uma resposta ao comunismo – que ela viveu na pele, por sinal – mas ao fim e ao cabo, ela é tão materialista quanto o mais marxista dos marxistas. Antes de tudo: ela não acredita na transcendência! E isso termina esvaziando toda sua obra de um sentido maior. Em sua visão de mundo, os homens nada mais são do que meras peças em uma engrenagem capitalista, sem maior sentido do que satisfazerem suas vontades e egos. Boa parte do libertarianismo que vemos grassar hoje em dia tem esta mesma ideia, este mesmo esvaziamento da vida humana. Para esta turma, não há nada intrínseco à condição humana que a justifique, para eles existe apenas a lógica do mercado. Isto é: você só tem valor como pessoa se for um ser produtivo, autônomo, independente, etc… Caso contrário, você é apenas um estorvo.


“Boa parte do libertarianismo que vemos grassar hoje em dia tem esta mesma ideia, este mesmo esvaziamento da vida humana.”

 

Dionisius Amendola sobre Handmaid’s Tale

Então, falar de teocracia totalitária não é falar apenas de imposições da “extrema direita”?
Em primeiro lugar, é preciso entender que O Conto da Aia é um ataque não a um tipo de fundamentalismo, mas a todos eles. No livro, e ainda mais na série, percebemos vários momentos em que está implícita a crítica ao tipo de fundamentalismo que vemos nas teocracias islâmicas – exemplo são as cenas onde gays são enforcados em guindastes – também há a crítica ao liberalismo quando todos os direitos mais básicos da condição humana são violados para que se possa fazer comércio, e também críticas que podemos identificar com o tipo de relações de poder existentes em países como a União Soviética, onde uma nomenklatura comandava o país com mão de ferro, mas às escondidas, locupletava-se de bens advindos do sistema capitalista.

Que tipo de totalitarismo é retratado no livro?
É aquele totalitarismo que atropela tudo e todos: médicos que praticam o aborto são punidos e mortos, assim como padres católicos, e assim como gays podem ser enforcados – ou, no caso de mulheres férteis – mutilados genitalmente. Há ainda referências explicitas aos horrores da Revolução Francesa – com cenas de pessoas enforcadas em igrejas e mesmo a destruição dessas mesmas igrejas, afinal, elas contrariam a “nova ordem”, o “novo sistema”.

Haverá democracia enquanto o mercado tiver força?
A democracia é o melhor dos sistemas e o pior também. O problema é confundir os ajustes e dinâmicas do sistema – sempre necessários, sempre difíceis – a regras secas, isto é, quando submetemos a realidade àquilo que Nassim Taleb chama de mentalidade Harvard-soviética, isto é, uma mentalidade que acha que pode domar a realidade e suas nuances através de formulas de Excel. A grande tentação do conservadorismo, especialmente aquele mais reacionário, é não querer aceitar as dinâmicas da realidade, e achar que pode impor sua visão de mundo, suas ideias. E isso só gera mais problemas, mais desgastes, mais desequilíbrios, isso é, tudo aquilo que, supostamente, o conservador seria contra.


Handmaid’s Tale é uma série que busca compreender a condição humana em sua plenitude, em seus defeitos e em suas virtudes.”

 

Dionisius Amendola sobre Handmaid’s Tale

A ideia de uma política regeneradora com fins de tornar a sociedade mais justa é uma utopia?
Primeiro devemos saber o que é uma “sociedade mais justa”. Existe isso? Será que ao pensarmos em corrigir todas as injustiças não geramos ainda mais injustiça? Estes questionamentos estão no cerne da obra de René Girard, e responder a eles – e pensarmos neles – já nos coloca em uma posição de prudência ao pensarmos em como corrigir estas injustiças todas. Veja que na série existe uma cena sublime sobre isso quando as aias são colocadas em uma posição na qual elas vão corrigir uma injustiça, onde elas são instrumento punitivo. E todas se entregam ao ato bárbaro de forma absoluta. Afinal, elas estão “corrigindo” uma injustiça.

Ao determinar o uso de uma única cor de roupa para cada casta, a intenção é a de eliminar qualquer possibilidade de individualidade?
O uso das cores, o visual todo da série, tem como base – antes de tudo – a obra de Veermer, que é um pintor de segredos e de luzes, de nuances e de uma beleza luminosa, quase sacra. O que torna, é claro, a série impressionantemente bela! E isso cria um sentimento ainda mais perturbador ao assistir: ficamos encantados com a beleza, com a fotografia, com o visual, sem contar os atores, especialmente a protagonista, Elizabeth Moss, que estão incríveis e bonitos! Mas toda essa beleza que nos encanta vai perturbando, afinal, estamos diante dos horrores de uma sociedade totalitária, onde as mulheres são estupradas metodicamente, onde padres e gays são enforcados, onde a mutilação genital é real. Isso também revela algo bem interessante sobre a concepção da série, para além de ser um “panfleto feminista”.

O que exatamente?
Handmaid’s Tale é uma série que busca compreender a condição humana em sua plenitude, em seus defeitos e em suas virtudes. E isso é explicitado justamente no uso que você aponta das cores para identificar as “castas”, isso é, não são apenas as mulheres que são submetidas a um sistema totalitário, mas todos os indivíduos. A própria Elisabeth Moss, em entrevista à época do lançamento da série, apontou essa visão dos criadores da série. Ela disse explicitamente que a série buscava essa compreensão maior dos dramas humanos, e que não era limitada apenas à situação da mulher. Claro que ela foi atacada pelos “justiceiros sociais” que pululam por este mundo afora e depois teve que adequar suas palavras.
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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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