Do amor proibido

Talvez, das decisões idiotas, o amor pelo proibido seja a primeira. Porque sempre é possível fugir, mas quem foge?

Amor proibido: a garrafa de vinho pela metade esquecida sobre a mesa.

Em questão de horas, a euforia se tornou dor lancinante. O que havia para celebrar se esvaiu, como o sabor da uva deu lugar ao gosto amargo do dia seguinte.

“Secret Love Couple”, Helmut Newton, 1976.

Amor proibido é autodestruição. Porque vive de inveja e de alegria silenciosa, incompatíveis.

Ainda se fosse de alegria que se pode gritar aos ventos, mas não. Alegria silenciosa, só com Deus, misericordioso e tardio em julgar quem ama errado.

Amor proibido é trancar-se sozinho, e por vontade, nos sinuosos caminhos das escolhas que não tem volta.

Se há segundos para ponderar, não há amor. O risco é o seu caráter, a culpa o seu grilhão. Arrependimento? Pode ser que nenhum.

Há quem renasça. Ou até quem nasça. Nasci do pecado do amor proibido. Sei quem sou no espelho do erro. Não seja ridículo e raso em julgar que o amor não é capaz de mil faces. O amor é o grande ator.

Amor proibido não deixa respirar. Ele dá à pobre alma que se apaixona direito a poucos fôlegos. O oxigênio do outro. O suor do outro. O cúmulo do desejo é o suor do outro.

Que tentativa estúpida de tentar se ver no outro quando o outro provavelmente nem é capaz de se reconhecer em si mesmo.

Amor, a única dor que desejo todos os dias.

Dela reclamar à exaustão. Não tenho pretensão de impedir que me consuma. Quero que reze meus passos, que me prostre em castigo pela sorte de sentir o que o mundo anseia. Não dou a mínima para o mundo.

Sou condenada porque não resisto? Porque me debato, enlouqueço, prometo esquecer, mas nunca cumpro? Sou, na verdade, o que desejam ser. O amor tomou minha alma e no lugar deixou poderes de divindade.

Há amor proibido limpo. Que só dói porque não pode desabrochar, tem de existir botão, fechado, miúdo, curvado. Mas como o tal grão do livro sagrado é apenas o necessário para mover montanhas.

Do grão do amor proibido pode brotar força e fé onde apenas o nada sempre reinou.
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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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