Documentário Chico – Artista Brasileiro: resista se for capaz

Quando Chico Buarque começar a rir, esteja certo: você não vai conseguir compreender o restante da história. Isso acontece com alguma frequência em Chico – Artista Brasileiro, documentário de Miguel Faria Jr. Em contrapartida, a espontaneidade do cantor é tão contagiante que se torna irrelevante saber o que quer que seja. E é essa espontaneidade que faz o espectador se sentir diante do próprio artista, sentado em seu sofá. Na maior parte do tempo, o filme acontece em sua casa do Leblon. Chico veste uma camisa azul que destaca seus olhos cor de mar. Não faltam belas imagens, de sorrisos e de paisagens, para contar a trajetória deste ícone da cultura nacional, ainda que hoje sua imagem esteja presa em uma guerra política polarizada.

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É difícil medir a estatura de Chico Buarque no que se refere à sua capacidade de tocar o outro. Somar adjetivos seria apenas empobrecer o relato. Como escravos da linguagem, às vezes é uma questão de bom senso não tentar explicar algumas emoções. É por isso que cada espectador (mesmo!) se entregará ao documentário por uma razão particular. Em algum momento pode ser que um nó se instale na garganta. Tudo vai depender da maneira pela qual Chico Buarque fez parte da história de cada um. Pela música, pela literatura ou por ser testemunha de um tempo que foi eternizado pela cultura brasileira, pela música popular brasileira. As tomadas aéreas de São Sebastião do Rio de Janeiro podem levar às lagrimas. Não falta artefato para emocionar.

Em seus depoimentos, Chico Buarque fala sobre tudo: a infância, o período escolar, a influência do pai, além de cenas históricas e hilárias com seus amigos tão ícones quanto ele – e nesse panteão estão Vinicius de Moraes e Tom Jobim. Impossível sentir o tempo passar na sala do cinema. É como se o espectador de alguma forma pudesse magicamente fazer parte desse passado.

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Um dos trechos de Chico – Artista Brasileiro mais comovente é quando o artista conta que foi pela literatura que conseguiu se aproximar do pai, o historiador e sociólogo Sergio Buarque de Holanda. Outra referência nacional, Sergio é um dos responsáveis por ter decodificado a identidade do Brasil, ao lado de Joaquim Nabuco, Euclides da Cunha, Gilberto Freyre, Florestan Fernandes e Raymundo Faoro. Todos eles fazem parte dos “inventores do Brasil”. Logo, o pai, tendo tanto prestígio, poderia ter jogado sobre o filho a obrigação de corresponder tamanho amor ao país. Chico conta no documentário que Sergio era tão “sagrado” aos olhos da mãe que “superá-lo” jamais foi uma opção.


Quem não quiser ser pego gostando de Chico Buarque, não assista ao documentário.


Através das câmeras de Faria Jr. vemos como tudo começa: as músicas, os textos. A bela vista do Leblon o inspira cotidianamente. Ele que se sente mais escritor do que músico, como declara no filme, revela também detalhes de seu irmão alemão, o mesmo que inspirou seu último romance “O Irmão Alemão” (2014).

É claro que falar de Chico Buarque é também falar de mulheres. Paixão nacional das brasileiras – e não importa a idade – Chico, contudo, fala apenas de uma única mulher. Sim, as românticas morrerão de inveja. A declaração que Chico Buarque faz para Marieta Severo é tudo o que uma mulher sonha ouvir de um homem… Chico viveu com Marieta por mais 30 de anos e tiveram três filhas: Helena, Luiza e Silvia. Apesar de Marieta aparecer apenas em fotos, a convivência pós-divórcio é tranquila. Aos domingos, as respectivas casas (de Chico, de Marieta ou das filhas) se tornam o centro de um mundo particular que o filme de Miguel Faria Jr. permite bisbilhotar.

Mesclando depoimentos com performances, Chico – Artista Brasileiro também conta com participações musicais de Mônica Salmaso, Moyseis Marques, Péricles, Ney Matogrosso, Laila Garin, Martnália e Adriana Calcanhoto. Sim, Chico também canta! E inebria. O que também não é novidade.

Claro que é possível ser imune ao carisma de Chico Buarque. Ou não considerá-lo tão brilhante assim. Mesmo quem se ressente de seu apartamento em Paris ou o inclua em brigas político-ideológicas, parece ser difícil não se contagiar com sua espontaneidade. Sendo assim, fica o aviso: quem não quiser ser pego gostando de Chico, não assista ao documentário.
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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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