Dois Dias, Uma Noite: um olhar diferente sobre a Europa

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“Dois Dias, Uma Noite” é um filme padrão na trajetória cinematográfica dos irmãos Dardenne. Seus principais temas, personagens e ambientes estão todos presentes. A fé na humanidade diante de todas as adversidades, bem como o retrato de uma Europa de pessoas comuns, marginais aos cartões postais. O desafio é alcançar o grande público com essas histórias, que de tão comuns são incomuns no cinema. Considerando que o filme chegou ao Oscar, pode-se dizer que eles estão mais próximos desse êxito.

O enredo é confuso, procure não se perder: Sandra é uma operária que após ser afastada de seu trabalho em decorrência de uma depressão, vê seu emprego ameaçado. Seu supervisor avisa a seus colegas que haverá uma votação entre eles para decidirem se ela será mantida no emprego ou se eles receberão um abono. Eles votam pelo abono, porém Juliette, colega de Sandra, convence o diretor a fazer outra votação. Sandra tem apenas um final de semana para convencer seus colegas a votar a favor dela. E é isso. Uma simplicidade clássica dos Dardenne.

Dessa forma, “Dois Dias, Uma Noite” é uma espécie de Lola Rennt (Tim Twilker, 1999) sem a edição videoclíptica, herança da MTV. E isso faz toda a diferença, pois aqui a questão moral é muito mais exposta, sendo o mote principal. Exemplificadas em um típico episódio do mundo corporativo, dilemas do cotidiano são questionados no longa: até que ponto cada ser humano tem o direito de colocar seus interesses acima da sobrevivência do outro? Até que ponto uma única pessoa pode colocar sua sobrevivência acima das necessidades de outras pessoas? Toda moral judaico-cristã é claramente vivenciada por Sandra e seus colegas, em uma pequena fábula que abrange muito das relações de trabalho deste começo de século. O medo que patrões incutem na cabeça dos funcionários diante da iminência do desemprego, crises econômicas, como a Europeia, problemas de grandes empresas que competem com a China e outros países asiáticos, entre outras questões.

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Diante de tamanha identificação com o tema, é impossível não passar por “Dois Dias, Uma Noite” sem nos questionarmos o que faríamos na situação dos colegas de Sandra. Trata-se de um dilema principalmente moral, em que apenas padrões éticos não são suficientes para garantir uma decisão justa e humana. A empatia, nossa com os personagens e dos personagens, colegas de Sandra, para com ela, se torna o ponto de foco de todo o longa.

As narrativas dos Dardenne é o que temos de mais próximo em muito tempo dos clássicos filmes do neorrealismo italiano, em que uma Europa devastada por uma guerra, buscava na solidariedade a força para se reerguer. Filmes como “Ladrões de Bicicletas” (Vitorio de Sicca, 1948) surgem como uma referência direta, retratando uma sociedade cuja única preocupação é manter seu sustento. Essa simplicidade também pode ser encontrada nos filmes de Laurent Cantet, como “Entre os Muros da Escola” e “A Agenda”, ainda que com um naturalismo menos latente.

Ao escolher uma atriz como a francesa Marion Cotillard, badalada, vencedora do Oscar, garota propaganda da Dior, gosta dos bichinhos (ela é porta-voz do Greenpeace), os irmãos conseguiram levar a luz dos holofotes para esse submundo comum europeu. Com pouca ou nenhuma maquiagem, postura curvada e olhar desesperançoso e vazio, Marion simboliza perfeitamente a figura da operária ansiosa e depressiva, demonstrando toda sua insegurança diante daquela situação incomoda. É eficiente ao manter a sobriedade e não tornar falsamente exagerado um drama cotidiano. E todo elenco está no mesmo nível de naturalismo, em harmonia com o mise en scène.

As imagens captadas pelos irmãos soam documentais, com muitas locações e espaços abertos. O uso da trilha apenas diegética (que diz respeito à dimensão ficcional de uma narrativa; ouvimos apenas as músicas que as personagens também ouvem) reforça esse tom, que marca o restante da filmografia dos Dardenne, com uma ou outra exceção.

“Dois Dias, Uma Noite”, último lançamento de Jean-Pierre e Luc Dardenne, é um dos filmes mais aguardados da temporada. Não é para pouco. Apesar de figurarem predominantemente fora do circuito, os irmãos conseguiram prêmios em Cannes com todos seus filmes desde a Palma de Ouro em 1999, com “Rosetta”; a segunda Palma veio com “A Criança” (2005); prêmio de melhor roteiro por “O Silêncio de Lorna” (2008); um prêmio do júri por “O Garoto da Bicicleta” (2011) e um prêmio de atuação masculina, de Olivier Gourmet em “O Filho” (2002). Curiosamente, “Dois Dias, Uma Noite” é o primeiro filme dos irmãos desde 1999 que não conta com Olivier e não consegue prêmios no Festival francês. No entanto, se por um lado no cinema dos irmãos, menos sempre é mais, no sentido do espetáculo e virtuosismo estéticos, menos prêmios, ou melhor, esse hiato, pode vir acompanhado de uma maior exposição desse tipo de cinema para o grande público. Algo que deve consagrá-los definitivamente e colocá-los no panteão dos grandes cineastas da atualidade.

Denise Balesteros Written by:

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