E que vida, Domingos Oliveira!

Para você, quem foi Domingos Oliveira?

Se você tem mais de 50 anos, ele deve ser o grande cineasta de “Todas as Mulheres do Mundo” (1966).

Se você tem 30 e poucos, provavelmente ele é o pai de Maria Mariana, uma das protagonistas da mais-que-bem-sucedido série Confissões de Adolescentes, exibido pela TV Cultura, em 1994.

Domingos Oliveira. Belíssima foto de Paula Giolito para Folhapress.

Já para nós mulheres, Domingos é tipo um daqueles homens que um dia desejamos ter: bom amante, interessante, inteligente… E para os homens, enfim, ele é o invejado. As mulheres maravilhosas que amou ao longo da vida chamaram tanto a atenção quanto ele, entre elas Leila Diniz.

Domingos Oliveira então é muitos! E em Vida Minha o ator, dramaturgo e cineasta repassa sua trajetória em texto íntimo, porém descontraído, como uma deliciosa conversa de bar. Ótimo senso de humor, fatos curiosos, confissões, reflexões e, como em toda vida interessante, um tantinho de drama. O autor conta quase tudo. Ao menos, tudo o que nós queremos saber de seus romances e de seus filmes. Leitura imperdível para quem aprecia boa companhia.

“Lembrando-me desses meus primeiros passos, nas vielas do amor, de repente me pergunto, espantado: como pude ser um garoto tão romântico? Quase um psicopata do amor? Porque éramos todos assim. Filhos de Hollywood.”

Domingos Oliveira foi ao mesmo tempo protagonista e testemunha de uma época gloriosa. Não foi à toa que a atriz Maria Ribeiro fez um filme em sua homenagem, depois de segui-lo com uma câmera por oito anos. Ele, que se considera o Woody Allen brasileiro, exibe nesta autobiografia a mesma veia cômica e o tom romântico exagerado. Segue um belo trecho:

“Se vou ser escritor, não sei, mas que a angústia constante e a paixão da escrita entraram em mim, disso tenho certeza. Minha inspiração vem quando chamo. A tinta azul, o papel branco… E o mundo desaparece. Somente fica comigo o que é belo ou irremediável e minha alma se acalma nos versos que eu canto.”

Os capítulos ganham os nomes de suas mulheres. Como Domingos mesmo diz, foram elas que o definiram. Eliana é a primeira. E uma a uma vai contando suas aventuras, grandes histórias, sempre com mulheres fortes, de personalidade. “Lindas”, diria ele, “como todas as loucas”.

Leila Diniz ganha a parte quatro do livro. É notório o amor que devotou a ela, do primeiro instante até hoje. Para nós, eles formam a versão brasileira de Brigitte Bardot e Roger Vadim.

A parte nove traz os mandamentos de Domingos Oliveira. São dez ao todo. Filosofia de vida leve e engraçada. Ler o resumo do que o regeu, e o que de alguma forma aconselha, dá margem para imaginar o cineasta recitando cada trecho em voz alta, em sua sala, como assim o fez para os amigos mais íntimos logo que o livro foi concluído. Figura!

Eis o oitavo mandamento:

“O amanhecer, o entardecer, a história, a filosofia, o espaço vazio depois da última estrela. Tudo sexo. Sexo é a força fundamental. Somente na cama os seres humanos revelam como realmente são. É muito educativo. Sexo. Sexo é a força que une os átomos. Devo observar, porém, que é muito difícil estudar esse assunto. Nunca conheci um sexólogo que escapasse totalmente do perfil do tarado. Homens e mulheres mentem quando falam sobre o seu comportamento na cama. E aqui, nesta biografia ouso, por vaidade, tocar pessoalmente neste assunto delicado. Minha vida sexual. Coragem, Domingos.”

Priscilla Rozenbaum, merecidamente, ganha dois capítulos quase no fim do livro. Com uma diferença de idade de 23 anos, Domingos revela a beleza da relação dos dois, sem pieguice. Nada, aliás, é piegas nesta narração. A não ser que conte falar sobre a condição de apaixonado:

“A paixão é, sem dúvida, o sentimento magno do ser humano. O Himalaia da imaginação de Deus. Deveríamos perseguir na rua as pessoas apaixonadas. Para beijar-lhes as mãos e joelhar diante delas, rezando para que aquela paixão dure para sempre.”

Assim é Domingos Oliveira, um homem intenso que viveu como quis viver, ou ao menos o mais próximo do que desejou viver. Um homem que misturou sua arte e sua vida, e tornou tudo tão interessante que esta autobiografia serve até como alento para a vida que às vezes foge entre os dedos. A paixão é o grande segredo para não sucumbir. E a arte como um veículo:

“A arte é uma fome. O melhor antidepressivo, portanto importantíssima na prevenção do enlouquecimento geral. A arte é uma atividade de utilidade pública. (…) A arte é o mais importante trabalho do ser humano na Terra, mais do que a ciência ou mesmo a filosofia. A arte é a professora. Se vejo num canteiro um girassol amarelo, penso que aquilo é uma flor estranha, exagerada, que não entendo bem, não sei bem o que é. Mas, se vejo o girassol que Van Gogh pintou, aí eu sei o que é um girassol.”
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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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