Ed René Kivitz: “Antes de buscar o ser divino, o ser humano busca sentido”

Por que viemos ao mundo? Há propósito em tudo o que acontece? Qual é a razão de tanto sofrimento? No dia a dia como pastor na Igreja Batista de Água Branca, bairro paulistano, o teólogo Ed René Kivitz responde constantemente a essas perguntas. Em um mundo cada vez mais angustiado, não faltam mesmo indagações sobre o sentido da vida. Autor de Vivendo com propósitos e Outra espiritualidade, Ed René é mestre em Ciência da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo e ainda assina o título O livro mais mal-humorado da Bíblia – a acidez da vida e a sabedoria do Eclesiastes. Exclusivo para a Fausto, Kivitz conversa sobre Deus e os demônios e sobre o vazio em todos nós, condição sine qua non. Triste? Talvez. Profundo? Certamente. Antes de qualquer coisa, porém, é reflexão imperdível.

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Fausto – Qual é a justificativa do sofrimento?
Ed René Kivitz: Não tem justificativa. O sofrimento é um dado da condição humana que não é útil para nada. Pela ótica da cultura moderna, que quer fazer de qualquer limão uma limonada, ele tem utilidade. Ou seja, damos um jeito de justificá-lo: “há males que vem para bem”. A cultura moderna também usa o sofrimento como auto-aperfeiçoamento. E é a cultura moderna que vai vender essa ideia de que conseguimos colocar rédeas nesse mundo caótico. Agora, nós também conseguimos, respondendo ao sofrimento, descobrir dimensões da existência humana que, na zona de conforto, jamais acessaríamos.

E o sofrimento pela ótica religiosa cristã?
É um dado posterior ao que a teologia chama de pecado original. Ou seja, o sofrimento não deveria ser um elemento da realidade existencial humana. O sofrimento é consequência de algo errado que fizemos.

A tentação pode ser considerada uma expressão do próprio pulsar da vida? “Sou tentado, logo existo”.
Nesse sentido, sim. Ou: eu tomo consciência de que sou arrastado em várias direções, que sou um ser desejante. Ou ainda: determinados desejos conspiram contra mim e são cindidos, algumas vezes sou senhor dos meus desejos e noutras vezes eles são senhores de mim. Isso é a própria condição humana. A palavra tentação traz uma conotação de mal, fazer o indevido, o transgressivo, algo que voltará contra mim. Portanto, é uma experiência de comportamento destrutivo e autodestrutivo. A consciência de que esse processo me habita é estar vivo, é estar em sintonia com a condição humana. Fora disso, você está alienado, você ainda não se descobriu, não se deu conta de qual é a sua condição enquanto ser humano.


Quando você encontra, fora de você, algo que você ama e por esse amor está disposto a se perder, aí você se doa numa relação.

Ed René Kivitz

Crê na possibilidade de uma pessoa ter nascido sem a capacidade de acreditar em Deus? O que é diferente de alguém que escolheu não acreditar.
O ateísmo é a incapacidade de encaixar Deus em nossa lógica, de explicar Deus. Aquilo que não explicamos, não decodificamos. Logo, não controlamos. O ateísmo militante, por exemplo, é um argumento a favor da realidade divina.

Como assim?
A pessoa não é revoltada com Deus – que, afinal, ela crê que não existe – mas com a ideia de que Deus possa existir. Agora, por que a ideia de que Deus possa existir faz tanto mal? Porque Deus, ou a ideia de Deus, dizem que não é você que está no controle. No controle da existência, do mistério da vida, da contingência, do processo da sua própria história. Ou seja, você está vulnerável.

E estar vulnerável…
Gera toda a sorte de conflitos, inclusive a rebeldia, que chamaríamos aqui de ateísmo militante. Na filosofia, seria o ressentimento: “não admito estar nessa situação.” Ou: “não admito ser tratado por esse tal ser divino dessa maneira.” O ateísmo é um debate dentro da racionalidade humana. Creio também que, determinados ambientes de formação tendem a facilitar ou a dificultar a possibilidade de crer; e não acho que, porque a pessoa nasceu em um espaço religioso ela tenha mais facilidade para crer. Muitas vezes é exatamente o inverso.

Haveria mais razões para não crer?
Einstein teria dito certa vez, numa igreja, ouvindo a prédica do pastor: “não posso admitir que esse homem fale com essa displicência do mesmo princípio que estudo e enxergo no universo.” Muitas vezes tenho a impressão de que os ateus, no fundo, no fundo, têm uma intuição daquilo que eventualmente seria Deus, e essa intuição é tão mais refinada que eles preferem negá-la do que admitir que Deus é isso que dizem por aí. Voltando a pergunta anterior, não creio que alguém nasça desprovido do crer. Agora, esse crer não é corroborado por evidências. No fim, é sempre uma aposta.

Há quem não queira ter esperança…
Esse debate sobre crer ou não crer, sobre ter ou não uma experiência religiosa, de escolher uma escola filosófica, seja lá o que for, ideologia, identidade, enfim, esse debate é o ser humano agonizando pela busca de sentido. Antes de buscar o ser divino, o ser humano busca sentido. Alguns o encontram na experiência da fé, outros não; ou encontram em seu contrário.

Quanta solidão é necessária para termos vida interior?
Absoluta solidão. Vida, com V maiúsculo – não crise existencial e nem dilemas que podem ser resolvidos com terapia – apenas com absoluta solidão. Parafraseando Tolstói: se você vai ao absoluto desespero e constata que a conta da existência não fecha, e mesmo assim você se recusa ao suicídio – que seria o caminho do Camus – o que te mantém vivo? Tolstói diria: “Deus é isso aí!”. Para encontrar o que te mantém vivo, nesse nível de profundidade, é só na mais profunda solidão. E nessa solidão que me refiro é preciso se despir de todos os seus papeis. É estar completamente nu: sem vínculos, paixões, amores, posses, poderes, status. É você, o desespero e o que o leva para além do desespero.

Em tempos de redes sociais e conexão full time
Aí vamos para Pascal: o que fazemos da vida não é outra coisa a não ser tentar calar esse grito de angústia que nos habita. Ou é Facebook ou é leite condensado. Vivemos em um mundo barulhento. E não só isso! Vivemos em um mundo no qual todos acreditam que têm uma resposta. É o oposto da experiência espiritual. Na experiência espiritual, ou vida interior, esse encontro acontece na solidão, na ausência de respostas. Respostas que cabem em Power Point, em frases de 140 caracteres, são absurdas. É cultura banal, de distração, de alienação. É cultura fake. Todo mundo vende a melhor imagem de si e, com certeza, é uma imagem mentirosa, motivada pelo medo da rejeição, do abandono, da traição, do desamor. Logo, motivada pelo medo da solidão. Vê como é um circulo?

Hoje, é preciso certa dose de ingenuidade para se doar aos relacionamentos?
Por um lado, sim. Ou, talvez, seja exatamente o contrário. Você só vai se relacionar e se doar numa relação se amar muito e se correr o risco de se perder. Enquanto você está se poupando, está amando a si mesmo. Quando você encontra, fora de você, algo que você ama e por esse amor está disposto a se perder, aí você se doa numa relação. São três caminhos: a ingenuidade, a cegueira ou o amor, que é o ápice, o máximo de lucidez.

Heschel aponta, em Deus em Busca do homem, que a religião é a resposta para as indagações definitivas do homem. Ainda fazemos “indagações definitivas”?
Estou lendo um teólogo tcheco, Tomáš Halík, e cheguei a tuitar uma de suas frases: “Há interrogações demasiado boas para serem estragadas com respostas”. Uma das expressões mais belas do Heschel é quando ele diz que só pediu uma coisa a Deus: o deslumbramento. Isso transcende as respostas. Heschel não diz que a religião dá respostas objetivas, lógicas e racionais ao dilema da existência humana. Ele diz que a religião é a resposta porque a ancoragem da experiência religiosa é a transcendência. A reposta não está na imanência. Acho que a religião se torna opressiva, irrelevante e enfadonha, como escreve Heschel, quando pretende dar as respostas da imanência. Quando se mete a dar as respostas da imanência, a religião está querendo afirmar que a conta fecha.

E a conta nunca fecha…
A conta só fecha na transcendência. Citando C.S. Lewis: “Eu fui feito para outro mundo.” Você pode entender como pós-morte, paraíso, céu, nirvana, seja lá o que for, e pode ser outro mundo dentro desse mundo aqui mesmo, quando compreendemos que algumas perguntas não têm respostas. Aí você entra em um estado de serenidade para conviver com essa falta. Passa a ter coragem sobre o caos. Isso é ir para outro mundo, outra lógica, outro patamar de vivência, que é desesperançar-se deste mundo para conseguir viver nele.
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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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