Ela: quando não é possível fugir das emoções

Ao assistir ao filme Ela, repare atentamente em: 1, no texto, nas minúcias do texto; 2, na entonação das vozes dos dois personagens principais, o escritor Theodore, vivido por Joaquin Phoenix, e o sistema operacional de nome Samantha, cuja voz arrebatadora é de Scarlett Johansson.

São esses dois os pontos principais que fazem de Ela um filme extraordinário. Mesmo que tenha sido lançado em 2014, não será de todo estranho que haja incapazes de entender a profundidade da narrativa que, de tão precisa na descrição de como funcionam os relacionamentos afetivos hoje, causam terror. Estamos tão medrosos assim?

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Para quem ainda não assistiu, Ela conta a história de Theodore, um homem solteiro, antissocial e… um tanto deprimido? Depois de terminar o casamento com Catharine, vivida pela linda Rooney Mara, Theodore não consegue se abrir para novos amores. Ele trabalha numa empresa que escreve cartas – sobre os mais variados temas – e há tédio e falta de significado em tudo o que faz.

Um belo dia – como se diz sobre quando algo muda drasticamente – Theodore adquire um sistema operacional dotado de uma inteligência fenomenal, embora seja, claro, artificial. Do sexo feminino, de nome Samantha, o sistema tem voz humana e do tipo mais sexy, impossível.

Scarlett Johansson prova ser uma atriz das maiores. Durante todo o filme, só empresta a voz. Sua beleza, contudo, paira como só uma deusa é capaz. Mas, ainda que seja arrebatadora, não é a voz o maior atrativo desse sistema. Ela é companheira, extremamente competente no que se refere à organização das tarefas de Theodore, compreensiva, rápida e, uau!, divertida. O sonho de qualquer pessoa? Ainda com a facilidade de desligar quando não estamos a fim.


Em estado terminal, desligamos os aparelhos de nossas relações. Não podemos tolerar mais o que dura, escreveu Paul Valéry.

Ela possui até um leque significativo de emoções. Poderíamos considerá-la inteligente emocionalmente, uma vez que no preenchimento dos requisitos sobre o ser perfeito que devemos ser, desconsidera-se a espontaneidade, para o bem e para o mal.

O diretor e roteirista Spike Jonze fez bem a lição de casa, não apenas ao observar meticulosamente a maneira como nos relacionamos hoje, como aprofundando alguns conceitos, entre eles, os de Zygmunt Bauman, sobre a pós-modernidade e suas relações líquidas.

Se você achar bizarro o tesão que Theodore sente pela máquina, quase humana, tenha consciência: esse pode ser você.

Você, não todas as relações, talvez, mas você se divide o seu cotidiano com outras pessoas por meio das redes sociais e aplicativos de mensagens instantâneas. O que Spike Jonze faz, para o bem e para o mal, é nos mostrar: somos todos Theodore.

Os mais dispostos a decifrar o tempo em que vivemos assistirão ao filme com estranha – porém, leve – tensão e ininterrupto questionamento. Outra reação possível: que absurdo, se apaixonar por uma voz! Mas, atenção: você sente ciúme, excitação ou rejeição por alguém com quem se relaciona apenas virtualmente? Quem está do outro de sua tela nem sequer imagina o quanto é interpretado e carregado de estúpidas ilusões e expectativas.

Ela acontece em uma megalópole acentuada pelo cinza e por edifícios imponentes. Uma cidade que pode ser qualquer uma. Assim como Theodore pode ser qualquer um que tenha aparelhos tecnológicos cada vez mais extraordinários.

É mais do mesmo dizer que tais aparelhos abrem fronteiras e que na mesma medida enterram nossas emoções para o mais obscuro subsolo. Para que perder tempo com relações complicadas? Em estado terminal, desligamos os aparelhos de nossas relações. Não podemos tolerar mais o que dura, escreveu Paul Valéry.

Ela é melancólico. É até triste. Mas Ela também é um grande alerta. O final… Bom, o final é um fio de esperança. Digno de horas de discussão com aquela pessoa especial – pessoalmente.

Ainda que queiramos muito, não é possível fugir das emoções, do estranhamento constante e natural que vem do ato de se relacionar. E a beleza da vida real está justamente nesse ajuste de contas quase que diário em que dar e receber têm o mesmo peso.

No fim, é mesmo como a personagem Amy, amiga de Theodore, vivida por Amy Adams, diz: O amor é a única forma de insanidade socialmente aceitável. E não há porque fugir.
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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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