Ela: quando não é possível fugir das emoções

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Ao assistir ao filme “Ela”, no cinema, repare atentamente: 1, no texto, nas minúcias do texto; 2, na entonação das vozes dos dois personagens principais, no caso, o escritor Theodore, vivido por Joaquin Phoenix, e o sistema operacional chamado Samantha, cuja voz arrebatadora é de Scarlett Johansson; e, 3, na reação da plateia. São três elementos essenciais para perceber o brilho de “Ela”. Não será um grande risco apostar que muitos não entenderão a profundidade da narrativa que, de tão precisa na descrição de como funcionam os relacionamentos afetivos hoje, chega a ser brilhante! Mas vamos à sinopse, para melhor compreensão:

Theodore é um homem solteiro, antisocial e um tanto deprimido. Depois de terminar o casamento com Catharine, vivida pela linda Rooney Mara, Theodore não consegue se abrir para novas relações afetivas. Ele trabalha em uma empresa que escreve cartas – sobre os mais variados temas – e tudo o que realiza é envolvido por tédio e total falta de significado – mesmo as sensíveis cartas que escreve, que são elogiadas por colegas e por quem paga por elas. Um belo dia – como todo simbólico dia que muda a vida de alguém – Theodore adquire um sistema operacional dotado de inteligência artificial das mais elevadas. Do sexo feminino, de nome Samantha, o sistema tem voz humana e do tipo “mais sexy, impossível”, como citado no início do texto, voz emprestada de Scarlett Johansson. Mas não é a voz o maior atrativo desse sistema. Ele, no caso, ela, é companheira, extremamente competente no que se refere à organização de tarefas, compreensiva, rápida e, uau, divertidíssima! Ela possui até um leque significativo de emoções. Como alguém recluso poderia não se apaixonar por algo tão capaz de completar e tão fácil de desligar?

Assista ao trailer de “Ela”!

O diretor e roteirista Spike Jonze fez bem sua lição de casa, não apenas observando atentamente a maneira do mundo se relacionar na era das redes sociais e smartphones, como tentando se aprofundar, filosoficamente falando, nos conceitos, entre eles, de Zygmunt Bauman, sobre as relações líquidas. No momento que o espectador, no cinema, classifica como bizarro o tesão que Theodore sente pela máquina, quase humana, ele se depara – consciente ou não – com a mais perfeita caricatura de suas próprias relações – não todas, talvez, ou nem todos, talvez, no caso, os raríssimos que hoje não divivem seu cotidiano com outras pessoas por meio de redes sociais ou aplicativos que permitem trocas instantâneas de mensagens, citando os mais famosos: Facebook e Whatsapp. O que Spike Jonze faz quase como um bem para a sociedade é tornar mais compreensível o que nem todo mundo ainda percebeu: há um tanto de Theodore em cada um de nós.

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Os mais atentos e dispostos a decifrar o tempo em que vivemos assistirão ao filme com uma estranha – porém, leve – tensão e ininterrupto questionamento: “será que também sou assim?”. Outra reação plausível será: “que absurdo, se apaixonar por uma voz!”, quando possivelmente, no próprio cotidiano do espectador, ele pode se pegar em algum momento com sentimentos de ciúme, possessão, excitação ou rejeição por alguém com quem apenas se relaciona virtualmente. Ou seja, o humano que faz o papel da máquina, na vida real, o outro que está do outro lado da tela, nem sequer imagina o quanto é interpretado e carregado de estúpidas ilusões e expectativas.

Brilhantemente, “Ela” acontece em uma cidade que tem cara de futuro, uma megalópole acentuada pelo cinza e pelos edifícios imponentes. A cidade que qualquer um pode estar morando. Qualquer um que tenha sido fisgado pela modernidade líquida de Bauman, mesmo sem o querer. Qualquer um que tenha dinheiro o bastante para se munir de apetrechos tecnológicos que abrem fronteiras sim – e que ótimo – mas que na mesma medida enterram emoções e deixam claro que ninguém mais precisa dedicar tanto empenho assim em relações complicadas – porque irônica e erroneamente, no mundo virtual tudo é mais fácil e leve. Como disse o filósofo Paul Valéry: “não podemos tolerar mais o que dura”.

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Concorrendo a cinco Oscar: Melhor Filme, Melhor Trilha Sonora, Melhor Canção Original, Design de Produção e Melhor Roteiro Original, “Ela” é melancólico. É até triste. Mas “Ela” também é um grande alerta. E o seu final, digno de horas de discussão com aquela pessoa especial – sim, porque só o final rende horas de discussão – é um fio de esperança. Não é possível fugir das emoções, do estranhamento constante e natural que vem do ato de se relacionar. E a beleza da vida real está justamente nesse ajuste de contas quase que diário que dá o mesmo peso ao “pedir” e “conceder” perdão, “dar” e “receber” amor. Ou seja, a troca, total e essencialmente humana. É como a personagem Amy, amiga de Theodore, vivida por Amy Adams diz: “O amor é a única forma de insanidade socialmente aceitável”. E não há do que fugir e porque fugir.

Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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