Absolvição

Eu absolveria Meursault. Absolveria porque conheço a indiferença, o tanto faz. Imagino, às vezes, a notícia de que mãe morreu.

Isso não quer dizer nada, como bem sabia Meursault. Digo isso, talvez, só porque minha dor vem do útero. Nasci nela ou dela me formei, não sei. Mas vem desde quando senti frio pela primeira vez, no meu corpo e também na minha alma, devido ao choro de mãe.

Foto: Roberto Naar.

Mas não sei se Meursault também. Nasci não sei para o quê ou só sei quando estou assombrada, no numinoso de Otto. Apesar de entender Meursault, por razão que não sei qual é, tenho a absolvição em mim: o amor. Não sempre, nem por todos, mas sou meio Marie, a moça de riso fácil. E pouca coisa, acho, valha mais do que um fio de cabelo meu.

Mas isso é mérito da indiferença: ela deu-me a mim. Indiferença é uma forma de silêncio interior. Entre tantas, como também fotografar e tomar banho de mar. Na indiferença não é preciso elaborar, definir, angustiar-se. Não há obrigações.

Entendo Meursault, mas sou Marie. Lembram por aí de meu vestido e de minha pele marcada pelo Sol. Entendo Meursault apenas porque vaguei – ou ainda vago, será? – pela indiferença. Não sempre, nem por todos, mas sou meio Meursault.

Absolvo porque condenação maior não há do que não ser tocado pelo amor. Só quem foi um dia indiferente, e tocado pelo amor viu nascer razões dentro de si, sabe que na condição do primeiro não há vida enquanto na do segundo nem o céu é limite.

Amor é demanda de coragem. Porque não há amor onde não há risco. Amor é destruição semântica. Quem sabe definir o que significa, afinal? E cada vez que se encontra uma definição não a vemos escapar como o tempo?

Sou Marie, por isso absolvo; como sou Meursault, por isso desejo absolvição. Há no amor essa curiosidade que, claro, não é justa: absolver. E sobre a indiferença? Ela pode até morar dentro, mas pode levar à morte, ainda que haja vida.
***

Alusão à obra O Estrangeiro, de Albert Camus.

Dedico à Madely Ferrari, quem me absolve todos os dias.

Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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