Elisabeth Gruner: “J. K. Rowling talvez seja o que Dickens foi para o século 19”

É ousado demais dividir a literatura infanto-juvenil em antes e depois de Harry Potter? A saga de J. K. Rowling completa 20 anos e para celebrar a data convidamos uma especialista nas sete novelas fantásticas. Elisabeth Gruner é professora de literatura na Universidade de Richmond, Virgínia, Estados Unidos, doutora em literatura inglesa do século XIX pela Universidade da Califórnia e especialista em literatura infanto-juvenil. Apesar dos mais de 800 milhões de livros vendidos em todo o mundo, só o tempo poderá dizer se a saga entrará na galeria dos clássicos. Porque, claro, há quem torça muito o nariz para os bruxinhos de Hogwarts. Qual é a sua opinião?

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Elisabeth Gruner.

Fausto –  J. K. Rowling um dia terá a importância de um Lewis Carroll, por exemplo?
Elisabeth Gruner: É difícil dizer, embora eu pense que, em termos de efeito sobre as crianças, sim, ela já tem. Seus livros foram tão populares e formativos para uma geração que sua importância não pode ser ignorada. Há aulas em faculdade sobre o trabalho dela, e ela é regularmente incluída em pesquisas sobre literatura infanto-juvenil, assim como Lewis Carroll. Também como Carroll, suas obras foram traduzidas para muitas línguas, fazendo com que seu impacto fosse sentido de maneira ainda mais ampla. Minha única consideração é no sentido de obras que seguem fornecendo conhecimento. O legado de Carroll continua mais de 150 anos depois de a publicação de Alice no País das Maravilhas. Imagino que o mesmo aconteça com a série Harry Potter, mas ainda é cedo demais para ter certeza.

Qual é a importância da obra, principalmente as 7 novelas, para a literatura infanto-juvenil em geral?
Um efeito realmente significativo dos livros tem sido a expansão do conhecimento em literatura infanto-juvenil em geral. Antes de Harry Potter, o campo existia e era robusto e ativo. Desde Harry Potter, cresceu. Muito mais instituições oferecem cursos de literatura infanto-juvenil e muitos outros estudiosos assumiram o campo, muitas vezes sem conhecimento da história da obra, mas são estudiosos e podem aprender. Acredito que Harry Potter também levou muitas crianças e jovens adultos a explorar outras áreas da literatura infanto-juvenil. Muitos que pensavam que “não gostavam de fantasia”, por exemplo, gostaram tanto da série que passaram a ler outras séries de fantasia como Fronteiras do Universo, de Terry Pratchett e Diana Wynne Jones, entre outros. Ou, talvez, mudaram do gênero fantasia para outros livros populares para crianças e jovens adultos, como os livros de John Green. Green explora explicitamente a comunidade de fãs de Harry Potter. O fandom de Harry Potter também é extremamente ativo, gerando, entre outras coisas, fanfics que atraem os leitores da série e aumentam a probabilidade de lerem e escreverem outras obras.

Considera Harry Potter um clássico?
Sim, acho que é. É de interesse duradouro para leitores e estudiosos, e também é cultural e historicamente importante. J.K. Rowling talvez seja para os séculos 20 e 21 o que Dickens foi para o século 19. Não estou dizendo que ela é tão boa escritora como Dickens, mas que suas obras alcançam o nível dele de popularidade e de interesse para outros escritores. Também vemos no trabalho de Rowling muitas das preocupações importantes do nosso tempo: a educação das crianças, o posicionamento dos meios de comunicação, a necessidade de empatia, diversidade e equidade, além da batalha contra um regime fascista.

Há uma resistência, por parte dos intelectuais, em considerar a saga um clássico?
Sim, obviamente. A popularidade nem sempre está relacionada com a qualidade literária. Escritores como Harold Bloom e A.S. Byatt, por exemplo, levantaram questionamentos sobre a qualidade literária da série. Muitos estudiosos de literatura para crianças também. “Clássico”, no entanto, pode significar “duradouro” em vez de “de alta qualidade”, e poucos podem contestar a natureza duradoura de Harry Potter. Em comparação, note que a série Crepúsculo, similarmente popular, parece não ter amadurecido ou durado de maneira tão ampla.


“J.K. Rowling talvez seja para os séculos 20 e 21 o que Dickens foi para o século 19. Não estou dizendo que ela é tão boa escritora como Dickens, mas que suas obras alcançam o nível dele de popularidade e de interesse para outros escritores.”

 

Elisabeth Gruner

Por tratar de bruxaria, há ainda uma resistência religiosa em torno da saga?
Realmente, não posso dizer com certeza, embora a série permaneça na lista da ALA (American Library Association) de livros infanto-juvenis contestados, desde agosto de 2016. A maioria dos livros contestados no passado o foram por feitiçaria, então, suponho que continue.

Hogwarts se apresenta como uma escola encantadora, em todos os sentidos da palavra, mas também bastante rigorosa. Houve uma mudança no aprendizado das crianças por causa disso? Ou mesmo pela disciplina dos personagens, principalmente de Hermione.
Tenho argumentado na imprensa que a série não promove particularmente a leitura ou mesmo uma apreciação dos estudos. As crianças, na série, regularmente copiam a lição de casa uma da outra, ou pelo menos obtêm as respostas de Hermione; elas deixam de fazer suas atribuições e se concentram em quase qualquer outra coisa, além dos estudos, apesar do cenário da escola. Dito isto, muitos leitores aumentaram sua compreensão de leitura e seu interesse em ler e escrever por causa da série. Este é um efeito indireto, acredito, em vez de um exemplo claro de emular um modelo de conduta, mesmo Hermione.

Quais são os valores morais que estão como pano de fundo da saga?
Lealdade e coragem, os valores mais associados com Lufa-Lufa e Grifinória, respectivamente, me parecem os valores morais mais aprovados pela série.
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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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