Em “Que Horas Ela Volta?” você é “praticamente” da família

O novo filme de Anna Muylaert, “Que Horas Ela Volta?”, faz barulho por onde passa. Premiado nos festivais de Sundance e Berlin, já foi negociado para exibição em 22 países e faz uma bela carreira na França, por exemplo. Após conferir o filme, esses fatos não surpreendem. Ele tem densidade para discutir os problemas locais, com poder para gerar identificação universal.

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Interpretada pela premiada Regina Casé, Val é uma mãe pernambucana que, como tantas outras, deixa sua filha Jéssica (vivida por Camila Márdila, também premiada) e parte para São Paulo. Com o intuito de dar uma vida melhor para a filha, trabalha como doméstica e babá em uma casa de alto padrão. Anos depois, Jéssica vai ao encontro da mãe. Uma única geração – mais especificamente a nossa geração – foi suficiente para que esse encontro criasse uma desordem, de valores e perspectivas.

A gênese da história, segundo Anna, surgiu de sua história pessoal, quando foi mãe pela primeira vez há 20 anos. A diretora e roteirista de “Durval Discos” (2003) e “É Proibido Fumar” (2009) viu na figura da babá, tão comum em tantos lares, um caso paradoxal a ser explorado. Contudo, transformações em nossa sociedade, sobretudo, no Brasil, fez com que o desenrolar dessa história se modificasse ao longo dos anos.

O ponto-chave, nesse caso, é Jéssica. Um personagem vibrante, que destrói preconceitos com sua postura e seu olhar “confiante demais”, segundo um dos personagens da classe mais abastada. Diz-se que “quando se nasce pobre, ser estudioso é o maior ato de rebeldia contra o sistema” e Jéssica parece que entendeu e viveu isso intensamente.

Cada descontentamento seu com o status quo é bem desenhado. O uso de alegorias e símbolos facilmente reconhecíveis para qualquer pessoa que tem alguma proximidade com a relação patrão-empregado, ou seja, basicamente todo mundo, faz com que o texto flua de maneira mais densa e dramática e menos prolixa e explicativa. Só isso já torna o roteiro de “Que Horas Ela Volta?” digno de estudo e é o tipo de recurso que valoriza o filme em qualquer lugar do mundo.

Afinal, o que é ser praticamente da família, como diz um dos donos da casa a Val? Essas alegorias mostram claramente o quanto de preconceito, machismo e insensibilidade a palavra praticamente esconde, neste caso. A primeira cena é emblemática para ilustrar isso. Um plano em que vemos a piscina, a criança e o cão (que seguia Val para todos os lados, muito divertido) e a babá, cuidando da criança com todo amor, de costas para a câmera. Pode ser qualquer pessoa, sem importância.

Algumas dessas situações têm sido vistas com certo espanto por parte do público estrangeiro, segundo relatos da própria diretora e outros espectadores presentes ao debate promovido no Caixa Belas Artes, dia 2 de agosto, em São Paulo. Nosso abismo social de todos os dias é visto com ares antropológicos. O terreno comum é outro abismo, o das nossas relações pessoais. A identificação é tão poderosa que faz com que Bárbara, a matriarca da família rica, interpretada por Karine Telles, por pouco não caia no maniqueísmo. Apesar de ser o personagem que mais reforça a divisão de classes (com exceção de Val, que o faz por medo de perder o emprego), é ele que sensibiliza plateias de todos os cantos.

Assim sendo, numa segunda camada, mais universal e forte, “Que Horas Ela Volta?”, o título, pode ser interpretado como “quando os pais cuidarão de seus próprios filhos”. Independente do país ou da classe social, esse parece ser o problema em comum.

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O elenco é afinado. Além das atrizes mencionadas, Lourenço Mutarelli e Michel Joelsas, como pai e filho, estão profundamente admiráveis. Eles são atores-autores, como diz Anna, que busca explorar ao máximo a capacidade criativa de seus atores. O longa ainda tem edição e fotografia, extremamente naturais, acertadíssimos.

A indicação para representar o Brasil no Oscar, noticiada nesta última quinta-feira, chega assim com muito contentamento. Alguns alegam que são as transformações ocorridas nos últimos anos que motivaram a escolha, feita pelo Ministério da Cultura. Em “Tropa de Elite” (2007), um filme extremamente crítico acerca dos poderes do país, foi preterido para escolha de “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias” (2006), sobre o período da ditadura. Mas não se engane. Trata-se de um filme “tipo exportação” no melhor sentido que a palavra pode ter. E uma indicação da Academia é para glorificar de pé, pois muitos filmes excelentes estão sendo produzidos em diversos países. O longa é uma produção da Gullane em associação com África Filmes e em coprodução com Globo, distribuído pela Pandora Filmes.

“Que Horas Ela Volta?” remonta discussões de longas atuais como “O Som ao Redor” (2013), do pernambucano Kleber Mendonça Filho, com um humor ultra real, que toca em feridas e desmonta preconceitos e regras criadas por ninguém.

Denise Balesteros Written by:

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