Em “Rei Lear”, quem é você?

image

Apresse-se! A temporada do espetáculo “Rei Lear”, com Juca de Oliveira, vai apenas até o dia 9 de agosto. Esse gigante do teatro encena um dos mais famosos textos de William Shakespeare, dirigido por Elias Andreato. Em apenas uma hora de espetáculo, é impossível não se emocionar com a tragédia do rei que envelhece antes de se tornar sábio. A experiência de generosidade e acolhimento que vive, quase no fim da vida, com suas três filhas revela-se uma grande decepção e surpresa. Em cartaz no Teatro Eva Herz, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo, é uma daquelas peças que toca profunda e inexplicavelmente.

Ou nem tão inexplicável assim. Como escreveu Ítalo Calvino, na série de ensaios “Porquê Ler os Clássicos”, textos como “Rei Lear”, parafraseando, “nunca acabam de dizer o que tem a dizer.” E sabe disso quem é pai ou filho; minimamente conscientes, é claro. O monólogo que tem texto traduzido e adaptado por Geraldo Caneiro apresenta recortes dos momentos centrais da história inglesa do século 17, abordando como mote central a ingratidão.

Imagine o privilégio que é assistir Juca de Oliveira atuando. Com ele no palco, quase nada mais é preciso. Dá para dispensar cenários sofisticados, jogo de luz elaborado, figurino impecável… E é comprovadamente possível dispensar porque “Rei Lear” é exatamente assim: Juca no centro do palco, vestido de preto, sem cenário e com pouca luz. Acompanhar os primeiros 30 minutos é ir aos poucos se deixando levar pelo drama do octogenário até o momento em que o espectador se percebe pego. Quando um questionamento moral aloja-se silenciosamente, é impossível não se perguntar: quem sou eu? Goneril, Regan ou Cordélia? Sou eu Lear ou o bobo, que assiste a tudo astutamente, provocando com sabedoria e inteligência, mas sem tomar partido?

Leia também!
“A Língua em Pedaços”: a paixão de Teresa D’Ávila

Juca de Oliveira interpretou outros textos de Shakespeare ao longo de seus 60 anos de carreira. Em 1966, o ator viveu Júlio César e em 1975, Ricardo III. O grande Otelo ganhou vida na voz de Juca em 1982. A novidade de “Rei Lear”, contudo, é que pela primeira vez na história do teatro mundial um único ator vive todos os personagens dessa trama.

Quando o sofrimento de Lear o consome, pela decepção e pelo abandono, emoções podem invadir tão profundamente que pode ser difícil segurar as lágrimas. A grandeza de Juca de Oliveira revela-se na dor de Lear. Ao fim do monólogo, o espectador não será mais o mesmo. O clássico quando lê a alma a repele da zona de conforto.

Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com