Fábio de Melo: o líder das almas pós-modernas

Um dos maiores fenômenos de massa de nossos dias não é um artista pop, mas um líder religioso. Ele é aquele que sabe fazer rir, mas que também consegue levar a reflexões profundas os seus milhões de seguidores. O padre mineiro Fábio de Melo tem sido responsável por redirecionar o olhar de muitas almas pós-modernas a princípios, digamos, “antigos”. Exagero?

O pós-moderno é o que está perdido em um mar de escolhas hoje possíveis, mas que ainda não satisfazem. Onde foi que erramos? Por que não somos felizes? O séquito do líder religioso, ainda que não use essas palavras, constantemente faz essa pergunta. Ou, provavelmente, não apenas o seu séquito, mas todos nós. Até por esta razão, Fábio de Melo tem se tornado uma voz literalmente ecumênica, e não apenas midiática.

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Arraigadas ao secularismo também de nossos dias, essas almas pouco pousam o olhar em outro lugar que não em si mesmas. Rendidas pela pressa, se recusam a qualquer coisa que demore. Meditação ou contemplação são verdadeiros enigmas. Chega-se em Barack Obama – segundo a teoria dos seis graus de separação – mas não se alcança a própria alma. Responder a estas angústias, entretanto, não é como foi um dia. Presos ou não a metas de consumo e de status (o apartamento comprado antes dos 30 anos ou o cargo de chefia), a grande maioria das pessoas, hoje, se relaciona apenas com quem se encaixa em suas próprias vontades e só aceita a ideia de um Deus que satisfaça suas próprias vontades – jamais o contrário. Por isso, é fascinante ver alguém apontar caminhos seguros entre tantos caminhos ditos da pós-modernidade, e sem ferir o ego – pelo menos não do público. O domínio que o padre possui sobre essa geração é então o próprio fenômeno. Fábio de Melo, em suas redes sociais ou em seu programa Direção Espiritual, tem sido uma voz de alívio à angústia e à superficialidade.

Não que ele tenha todas as respostas. Ao contrário, questiona junto: “Descubro o tempo todo o avesso da pergunta”, rascunha em “Mulheres de Aço e de Flores” (2008). Os possíveis preconceitos quanto ao conteúdo – julgado apenas pelo fato de o padre ter se tornado um nome de massa – desaparece logo na primeira explanação. Seja em sua fala oral ou escrita, Fábio de Melo em frases muito bem elaboradas revela o abismo de ambiguidades que é o próprio homem: “Se Deus quiser uma oração dos meus lábios, que recolha do meio dessa confusão de ideias”, ainda no mesmo título.

Tão jovem quanto muitos dos que o seguem – embora opte quase sempre em dizer que é velho – o sacerdote muitas vezes corre o risco de ser confrontado justamente por evidenciar o que é impossível negar: até que sejamos bons ou maus, seremos humanos: “As questões humanas, as mais naturais, são os lugares preferidos da revelação de Deus.”, como escreve em “Quando o sofrimento bater à sua porta” (2008).

A religião como instrumento de poder pode também fazer mal e o comunicador não ousa desmentir: “O contexto religioso é altamente perigoso para a subjetividade. A autoridade religiosa, quando não exercida com responsabilidade, pode ser geradora de claustros e dependências. Com um agravante. O cativeiro é interpretado como vontade de Deus.”, escreve em “Quem me roubou de mim?” (2013). Este é então um dos traços a se destacar em sua atuação? Um líder hoje, virtual ou não, precisa alcançar o homem real por trás dos diversos personagens que, quer queiramos ou não, todos assumimos nesta vida dupla. O pior é que nem sempre nos despimos deles, todos os dias ao ir dormir.

Quando facilmente nos “desconectamos” da culpa e do medo, e gratidão tornou-se um conceito ultrapassado, pouco somos inclinados à reflexão moral – desafio que até pode fazer rir o mais cético. Mas a maior arma do discurso de Padre Fábio de Melo parece ser certeira. Sua fala, cheia da palavra respeito, sugere um caminho para a redenção, e nem precisa ser religiosa: “Conhecer a Deus a partir do amor é garantia de experiência frutuosa. A religião que se pauta no discurso da misericórdia tem grandes possibilidades de formar um ser humano preparado para compreender os limites de forma positiva e interpretá-los a partir da lógica do respeito.”, escreve em “Mulheres de Aço e de Flores” (2008).

Respeito. Pode ser esse o começo para alcançar almas que hoje estão perdidas e que, mais do que nunca, só pensam em si mesmas. E, por fim, sobre Fábio de Melo, ele “descobriu a sacralidade do ofício que exerce”.
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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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