Farmácia Moral: O afeto com 5% de desconto no boleto

Madrugada de domingo para segunda. Melhor hora para escrever sobre o que nos aflige. Se um dia você quiser falar sobre autoajuda ou vender algum produto, escolha outro horário para pegar uma caneta ou o seu tablet.

Minha idade está relacionada à geração Y (why em inglês – questionadora, chata) pelas pesquisas publicitárias, informação importante para falar sobre “Cegueira Moral – A Perda da Sensibilidade na Modernidade Líquida”, livro recém-lançado pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman em troca de correspondências com o filósofo e cientista político lituano Leonidas Donskis, publicado no Brasil pela Zahar.

Zygmunt_Bauman
Zygmunt Bauman.

Bauman é conhecido pelo termo “líquido” em seus títulos e ideias, onde o tratamento de questões como o amor, a vigilância, o medo, a política, a segurança e agora a moral aparecem na nossa era tecnocrata e afetam absolutamente todas as gerações, cada qual de uma forma. Com quase 90 anos, o sociólogo tem escrito mais do que a média de leitura dos brasileiros. Só neste ano é o segundo lançamento do autor. O primeiro foi “Vigilância Líquida”, junto com o filósofo David Lynn, mostrando o lado progressista e caótico da tecnologia. Você tanto pode ganhar tempo através dela como ser pego numa traição caso um drone pouse na janela do seu quarto aparentemente seguro no 21º andar. Aceitamos os contratos e ficamos à mercê do “big data”.

Leonidas Donskis, pela sua formação e por ser membro do Parlamento Europeu, leva sua discussão neste último lançamento para o âmbito político-moral, relacionando a mudança (e separação) que o poder teve da política devido às transformações sociais que fizeram os indivíduos se afastarem de uma moral sólida e se aproximar de uma insensibilidade, onde as narrativas são criadas no mundo virtual. Para Donskis, de um lado o poder perambula em segurança pela esfera global e livre para escolher seus alvos; do outro está a política, “espremida e destituída de todo ou quase todo o seu poder, de seus músculos e dentes”. Há um “totalitarismo líquido (ou soft)”, como o padrão chinês de modernidade: sua forma de capitalismo sem democracia, ou seja, fique rico, mas permaneça longe da política.

O mal subjetivo, segundo Donskis, um dos motivos de nossa “cegueira moral”, não aparece na sociedade de forma evidente como antigamente (o totalitarismo é um dos exemplos). Hoje ele é “fraco e invisível”, tornando-se ambivalente em sua interpretação.

Sabemos que vivemos em uma sociedade pautada pelo que você tem, logo a lógica é totalmente ligada à sua conta bancária e aos produtos que você escolhe para te representar. Porém, Bauman leva a discussão para um novo tipo de consumo, o consumo dos “tranquilizantes morais”. Não precisamos mais nos preocupar com “peso na consciência” ou o sofrimento do outro por um ato subjetivamente inconsequente. Somos mercadorias e tratamos nossos pares como tal, viramos Don Juans e Giacomos Casanova, heróis da modernidade que usam o afeto como arma de suas rápidas relações. A melhor mulher, o melhor trabalho, a melhor viagem e o melhor celular sempre serão os próximos.

A grande diferença é que temos voz, microfones digitais que espalham informações, na maioria das vezes rasas, pelos aplicativos e redes amplamente disponíveis à massa. Um dos problemas, segundo Donskis, é que quando uma rede social chega a indivíduos que vivem em um regime tirânico, isso se torna um problema político a ser resolvido. A Primavera Árabe e as manifestações no Oriente Médio são casos explícitos da obsessão do poder que nossa época vive.

Um dos termos relacionado pelos autores para expressar essa perda de sensibilidade é o da adiaforização da conduta humana. Adiaphoron em grego significa algo sem importância. Foi utilizado pelos estoicos e mais tarde pelo reformador religioso Phillip Melanchthon (companheiro de Lutero) para designar as diferenças litúrgicas entre católicos e protestantes, ou seja, algo que não merecia atenção. Bauman usa o termo relacionando uma saída temporária da nossa zona de sensibilidade e tratando os outros como objetos, não como pessoas. Para ele o termo não significa “desimportante” e sim “indiferente”, como se vivêssemos em uma sociedade do tanto faz. Uma das causas seria a racionalidade instrumental da modernidade líquida e a ilusão que as coisas reais são somente aquelas que acontecem conosco, todo o resto é ficção ou invenção das revistas de grande circulação.

A questão do narcisismo não poderia ficar de lado. Ou nos tornamos vítimas ou celebridades nessa era obcecada pelo consumo, autoexposição e sensacionalismo. O “compro, logo existo” ou o “podemos, logo devemos” é comparado ao olhar estatístico que os seres humanos sofrem. Como visto em “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, o fracasso em atingir a felicidade é visto como um sintoma de atraso. Não temos o soma do livro como remédio moral, mas temos Jack Daniel´s Honey, milhares de mulheres solitárias perdidas no inferno das noites livres, sorvetes importados, carros com bluetooth integrado no seu iphone, cinemas 4D e cruzeiros temáticos como farmácias curativas desses holofotes com as luzes amarelas que se apagam quase todos os dias.

Uma das expressões centrais e importantes para tratar dos nossos insensíveis contemporâneos é a palavra “precariado”, cunhada pelo professor e economista Guy Standing. Esse termo surge substituindo os conceitos de “proletariado” e “classe média”. Os precariados sofrem um forte processo de atomização, vão para um lado e para o outro sem controle do seu destino e com uma baixa segurança e expectativa de solidez do dia de amanhã. A única coisa que os unem é o sofrimento, ou seja, (in)conscientemente todos percebem uma simples equação: eles podem, nós não. Bauman busca a definição do termo no Oxford English Dictionary e nos explica: precário é “ser mantido pelo favor e à disposição de outro; logo incerto”.

A lógica do marketing atual é expandir as necessidades até o nível da oferta e relacioná-las as necessidades de forma distante. Você não precisa, mas o meu argumento fará você entender que precisa, não pelo uso em si, mesmo porque seu uso é limitado ao próximo lançamento, mas pela sua boa convivência narcisista nos ambientes de trabalho, familiar ou de bar.

Donskis afirma com precisão que o gênio saiu da garrafa; torne-se quem você quiser! Bauman alerta para a ambivalência, já tratada em outros momentos, da liberdade x segurança; uma não vive sem a outra e sua conciliação é mera utopia. A falta de confiança gera fronteiras e diásporas, como a relação de Houellebecq (tratada no último capítulo do livro) dentro do romance “A Possibilidade de uma Ilha” sobre a morte de Deus paralela a eliminação dos laços humanos e sociais. Donskis questiona em seguida se “a morte da sociabilidade seria mesmo a morte de Deus?”. Apesar da tese que essa pergunta daria, sabemos que o romance discutido envolve a questão do isolamento total do indivíduo juntamente com o acaso que as inúmeras possibilidades pós-modernas evocam.

Não temos para onde correr e o boleto está vencendo. Não temos pra onde ligar pedindo sua prorrogação. E como diz Bauman, vivemos para comprar o perdão de nossos pecados antes mesmo de cometê-los.

arte_CegueiraMoral.indd

Tiago Souza Written by:

Comments are closed.