Feud: envelhecer nos torna mais autênticos ou mentirosos?

Envelhecer é assistir tudo escapar. É constatar que nunca nada foi seu. A vida é um presente que se dá aos poucos e aos poucos se pega de volta. Quem é capaz de falar a verdade sobre envelhecer? Não é libertador desaparecer. Primeiro para os outros, depois para nós mesmos…

Feud. 2017. Jéssica Lange vive a atriz Joan Crawford e Susan Sarandon dá vida à grande estrela Betty Davis. Dois ícones de Hollywood que viveram seus dias de glória na juventude – dos anos 1930 aos anos 1950 – uma pela beleza e outra pelo talento. Entre elas, algo em comum: a juventude e o sucesso podem ser traiçoeiros se vivê-los até o esgotamento for a escolha. Somos apenas inconsequentes se somos apenas presente, não livres.

Jessica Lange Feud Joan Crawford
Jessica Lange vive Joan Crawford em Feud.

Feud diz sobre a contenda entre as atrizes, mas guarda um drama psicológico. O desafeto que marcou a trajetória de Joan Crawford e Betty Davis, pelos olhares de Ryan Murphy, Jaffe Cohen e Michael Zam, os criadores da série, mostra algo mais profundo: quais pilares nos sustentam para além da nossa forma e do nosso vigor?

O que temos além de nós mesmos?

Futuro é lembrete de que precisamos de um novo nós?

É raso, é claro, falar apenas de pele quando se fala de envelhecer. Não são os acúmulos de histórias e histerias que pesam mais? Envelhecer não diz mais sobre o corpo do que diz sobre a alma, essa intangível, em forma de Deus e de diabo, dois faceiros que dividem o comando e constroem o que entendemos ser… Nós.


Pode ser que envelhecer seja se libertar de padrões, de crenças. A beleza não está, porém, na ansiedade de viver os desejos que nunca aconteceram por falta de tempo, dinheiro ou liberdade, mas na precisão que se passa a ver o próprio tempo.

 

Assista a série Feud, com Jessica Lange e Susan Sarandon.

Do que somos feito, afinal? Apenas de consciência? A resposta é, inescapavelmente, subjetiva e religiosa. Uma vez que vivemos hoje mais do que um único casamento pode suportar, e os contos de fadas não previram tal longevidade, quem é capaz de dizer como melhor viver?

A atuação de Jessica Lange é um escândalo de beleza pela maneira tão perfeita como coloca em cena os dramas existenciais de Joan Crawford. Do apego à beleza à insegurança na hora de atuar ao lado de alguém que sempre achou mais talentosa, Jessica mostra nas sutilezas, no olhar choroso, nos lábios trêmulos, que se desejamos passar pela vida em uma trajetória minimamente plena é preciso que descubramos diante do espelho quem existe para além das marcas mais profundas. Fácil é dizer que o presente é o melhor presente quando é no espelho do outro que rugas têm boca. E boca que grita. O tempo passa e nos sentimos mais autênticos ou o tempo passa e só nos tornamos mais cínicos e mentirosos?

Mulheres, os homens não caem mais na cena exagerada feita muitas vezes quando se quer algo, cena que vibra com fragilidade fingida, e que antes como chamado heroico despertava o homem protetor, e não só, também o homem predador. Se é sensual a mulher jovem que se deixa cobrir pela virilidade de um homem, soa para o mundo triste a mulher que envelhece e pede condescendência. O drama de Joan.

Homens, beleza não faz falta, nem o vigor que ora sim ora não incha desenfreado entre as pernas. Faz falta o queixo levantado de desbravador de todos os horizontes do mundo.

Pode ser que envelhecer seja se libertar de padrões, de crenças. A beleza não está, porém, na ansiedade de viver os desejos que nunca aconteceram por falta de tempo, dinheiro ou liberdade, mas na precisão que se passa a ver o próprio tempo. Parece até que os espaços vazios são preenchidos por algo maior, quase divindade. Mas talvez não. Talvez apenas esses espaços se harmonizam e permanece apenas o que importa.

Mas o que importa?
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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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