Gravidade: perdidos na superficialidade e nos recônditos do universo

Gravidade01

Possivelmente, o filme que mais divide o público da safra Oscar 2014. Há quem tenha gostado muito e há quem tenha criticado ferrenhamente a produção de Alfonso Cuarón. Só não há quem fique em cima do muro. Ou talvez haja. Provavelmente quem sentiu um sono indomável durante a sessão. Acontece que “Gravidade” é um filme sem conflitos estimulantes, mentalmente falando. Mas isso é apressado dizer. É interessante, antes, repassar a história que acontece no espaço sideral, mais precisamente na órbita terrestre a 600 quilômetros de altura. George Clooney vive Matt Kowalski, um astronauta bem-humorado e bastante experiente que ao lado da seriíssima Dra. Ryan Stone, vivida por Sandra Bullock, tem a missão de consertar o famoso telescópio Hubble. Até aqui, a descrição de uma história – que somada a uma série de efeitos especiais de ponta – parece ser incrível. Mas nem tanto.

O filme já começa no espaço. Em um ritmo lento, mas com imagens muito bonitas, os atores flutuam alegremente, brincando com a gravidade como todo mundo sonhou fazer um dia. Quem teve a oportunidade de assisti-lo, em salas 3D ou IMAX, certamente conferiu um belo espetáculo. Do nível “As Aventuras de Phi”, de Ang Lee, de 2012, que foi de verdade um show de imagem! Mas a aventura mesmo começa quando um míssil russo atinge um satélite que acaba por provocar uma chuva de destroços que chega rapidamente até os protagonistas, que são jogados no espaço violentamente.

Assista ao trailer de “Gravidade”!

Dirigido por Alfonso Cuarón, com roteiro do próprio e de seu filho Jonás Cuarón, “Gravidade” é o típico filme que o espectador espera muito em alguns aspectos e se decepciona ao mesmo tempo que outros detalhes encantam e ficam na memória. Exemplos do que encanta? O silêncio de boa parte da trama provoca uma concentração nível máximo e também a sensação de estar flutuando. Quase um estado meditativo. Quando os sons vêm, impactam e prendem a atenção impossibilitando o piscar de olhos. “Gravidade” é praticamente todo feito em computação gráfica, o que desperta nos mais curiosos – mesmo já sabendo que ele é feito no computador – a pergunta: como os atores gravaram as cenas em que flutuam, quando seus corpos são mostrados inteiros?

Gravidade02

Mas só os efeitos especiais cumprem bem o seu papel. Algumas cenas são de disparar o coração, mas o maior sintoma que o filme provoca é o de sufocamento mesmo, como se o ar faltasse na sala do cinema como falta para os personagens em dado momento. Nada mais. O longa dura pouco e fica uma sensação de inacabado. A ausência de diálogos mais profundos entre Clooney e Bullock é de indignar. Afinal, a iminência da morte provoca mais questionamentos ou mais declarações sobre arrependimentos, conquistas, qualquer coisa, mas nada disso acontece. E não é porque fica o não dito pelo dito. Faltou uma boa troca entre os protagonistas.

Completamente inesperado, o final prejudicou um pouco a experiência do que poderia ser, como os personagens dizem, uma história incrível. Remete a um heroísmo do tipo absurdo, que não faz sentido algum. Os que gostam de interpretar mesmo quando não há o que interpretar, pode levar em consideração que a solidão da personagem de Bullock finalmente encontra um lugar para escoar. Uma segunda chance patética que se pudesse acontecer na vida real levaria a mais traumas do que resoluções positivas do que significa viver cada segundo.

Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

Comments are closed.