“Guelã”: o voo de liberdade (e solitário) de Maria Gadú

Maria Gadú lança Guelã novo disco

Que interessante acompanhar a transformação de Maria Gadú. Desde o disco de estreia, em 2009, e o grande sucesso “Shimbalaiê”, como a cantora mudou! Depois de vender mais de 200 mil cópias logo de saída e viajar o mundo, a cantora deu a primeira virada de sua carreira com “Mais uma Página”, disco lançado em 2011. O significado do título de uma das canções do segundo álbum – “Taregué” – traduziu perfeitamente o que Gadú queria e deveria se tornar: livre. E agora com “Guelã”, terceiro álbum de estúdio recém-lançado, ela parece estar em um lugar muito confortável: o seu lugar.

Depois de quatro anos sem um disco de inéditas, Maria Gadú lança “Guelã” e soa como um livro de Machado de Assis, que apenas sacia a sede intelectual quando o leitor está em uma fase mais madura, mais recolhida, distante de qualquer obrigação pré-universitária. É o tipo de obra que requer bagagem, um nível a mais de profundidade. Assim é Gadú e “Guelã”. O álbum é para ser apreciado devagarzinho, sem muito afã ou qualquer compromisso de estar “por dentro” dos lançamentos. Não é um disco para qualquer situação e não é para entreter, mais ainda do que já foi “Mais uma Página”. Sem dúvida, é uma gravação que sai da rota do mercado, o que pode acarretar em uma recepção não tão calorosa – mas tomara que não.

Agora, quem se entrega a “Guelã” deleita-se. Cumprimenta-o com respeito. A solidão que o disco revela é aconchegante, gera identidade. É estar sozinho sem estar sozinho. “Guelã” significa gaivota, talvez Gadú faça referência a ser livre, a alçar seus próprios voos.

Maria Gadú pode parecer atirar em seu próprio pé no que se refere às vendas – considerando o consumo fácil de música de massa – mas na verdade só escolhe não perder mais tempo para se firmar como um dos maiores talentos da Música Popular Brasileira da atualidade. A moça, que desde os sete anos compõe, canta e toca – e tendo permanecido tanto tempo entre os talentos do Lado B – é adulta, tem notoriedade e fama. Hoje pode fazer o que quiser.

Em “Guelã”, além de trazer diversos amigos para o seu lado, ainda enriquece o disco com experiências culturais diferentes, como a que reuniu quando morou fora. A participação do canadense James Brian, que a cantora conheceu na Inglaterra, é prova disso. Brian já trabalhou com Nelly Furtado. Além de todos, tem a grande amiga Maíra Andrade, que teve importante participação neste trabalho.

Relembrando todos os álbuns, o primeiro disco trouxe a linda canção “Altar Particular”. A poesia triste, porém bastante profunda, comove ainda e sem cansar. O primeiro lampejo da Gadú reclusa em seu íntimo aparecia… “Sei lá, a tua ausência me causou o caos/ No breu de hoje eu sinto que/ O tempo da cura tornou a tristeza normal…”

De “Mais uma Página”, a canção “No Pé do Vento” é de uma beleza sensível. Revelou, em 2011, maturidade latente, ou a consequência natural de quem tem o que falar: “Sou pássaro no pé do vento/ Que vai voando a esmo em plena primavera/ Cantando eu vivo em movimento/ E sem ser mais do mesmo/ Ainda sou quem era…” São versos empolgantes para ler e cantar. E a belíssima “Amor de Índio”, composta por Beto Guedes e Ronaldo Bastos, é a que pouco se pode falar, basta ouvir.

De “Guelã”, aprecie sem moderação canções como “Vaga”. Que beleza de letra e de música!

“A noite o rito da insônia/ A anos-luz da maré/ O corpo brinca nas sombras da luz que vem do luar/ A mente vaga, a mente vaga/ Procura a vaga na rua… Mentir estraga a corte dos problemas/ Da casa, da memória, da visão/ Me reconheço aqui, nesse segundo/ Solidão…”

Para ouvir com o coração.

Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com