Gustavo Nogy: Hoje há limites demais e isso não é bom

Dia desses publicamos sobre o melhor livro do ano, em nossa passional opinião. Eis o título: Saudades dos cigarros que nunca fumarei. Pelo riso desenfreado que nos causou – presente que recebemos como indulgência pelos duros tempos em que estamos vivendo – desejamos que o nobre leitor também possa viver essa experiência. Então, ria! Lamente! Desdenhe! Concorde ou discorde, apenas não se vitimize em razão de… Nada. Fazendo jus à nossa raiz trágica, em forma de conversa de bar FAUSTO entrevista Gustavo Nogy, o autor. Sobre nossos ídolos, humor ou falta dele, Literatura e outras bobagens, nada de charutos ou cervejas artesanais… Pedimos mesmo foi a boa e velha cachaça porque saudades podem, sim, matar. Deleite-se!

Gustavo Nogy, autor de Saudades dos cigarros que nunca fumarei.

Fausto – Seu livro é extraordinário! Começar uma entrevista com um elogio, porém, pode ser uma armadilha. Dependendo de sua primeira resposta, o leitor não seguirá – Ou, pior ainda, nem voltará! Mas arriscarei…
Gustavo Nogy: Agradeço o elogio, mas não acredito nele. Sou ateu do seu elogio. Isso não é falsa modéstia porque não sou humilde: sou arrogante sem motivo nenhum. Nem tenho do que me gabar, mas me gabo. Já o livro é – espero que seja – divertido, curioso, meio esquisito. Não sei como vão classificar o negócio. Queria que fosse extraordinário. Queria merecer já o Nobel. Estou esperando que os suecos venham bater na minha porta. Não vai ser assim, lamentavelmente. Ficarei feliz se tiver conseguido fazer um tipo de literatura – ensaio breve e pessoal; crônica – diferente daquela mais conhecida no Brasil.

Por exemplo?
A crônica do Rubem Braga, que vê um passarinho, acha aquilo incrível, compara o passarinho com o Barão da Indústria, daí termina dizendo que o passarinho é mais bonito. Na minha versão, seria: “Olha, aquele lindo passarinh… BAM! Morreu o passarinho”. Não que eu mate passarinhos. Mas você entendeu.

Sim, entendi… Quando percebeu pela primeira vez que você é muitíssimo engraçado?
Quando criança eu era muito tímido. Enrubescia por qualquer coisa. Até hoje enrubesço. Sou o último ocidental que enrubesce. Num dado momento da vida, percebi que minha maneira de dizer as coisas, de ver as coisas, era sempre fazendo caricatura delas, exagerando, comparando. O mesmo humor da minha mãe, aliás, que até morrer passava trote em 1º de abril. Herdei isso dela, mais do que dos autores que li. Acho graça de tudo, levo poucas coisas e pessoas a sério, eu incluso. Debocho dos outros, debocho de mim. Talvez eu não seja tão engraçado assim; talvez as pessoas se levem a sério demais: cheias de boa consciência e causas e manifestos e senso comunitário.

O humor mudou muito, né?
O humor hoje é, está, cada vez mais comportado, enojado de boas intenções. Todos estão suscetíveis. Todo mundo tem dodói. Como eu falo, escrevo, sem me preocupar com isso, soa engraçado. Não sei se o humor tem limites; talvez tenha. Não vou fazer piada em enterro de criancinha. O que sei é que hoje há limites demais, e isso não é bom. E pouco me importo com os limites.

E que você é inteligente, quando percebeu?
Não sou excepcionalmente inteligente.

Mas eu não disse “excepcionalmente”, apenas inteligente…
Percebi. Pretendia te induzir a me achar “excepcionalmente” inteligente. Queria muito ser um gênio. Queria compor como Mozart, já novinho. Queria escrever como Shakespeare. Queria jogar como Zidane ou Maradona. Porém, desgraçadamente, não sou mais inteligente do que a média; talvez um pouquinho, para algumas coisas, e olhe lá. O problema é mais com a média, mesmo, que anda muito baixa. É mais demérito da média do que mérito meu. Escrevo essas bobagens e, quando vou ficar um orgulhoso delas, penso: há o Padre Antônio Vieira, o Machado de Assis, o Gilberto Freyre, o Millôr Fernandes, o Nelson Rodrigues… isso só em língua portuguesa…

Faz sentido. É meio assim comigo, penso no Cioran, na Agustina Bessa-Luís… Que mulher! Agora, você se lembra do seu primeiro ensaio? Foi sobre o quê? Aquele ensaio que ninguém “deu bola” ou, talvez, sequer tenha sido lido… Se for um assunto sensível, podemos passar para a próxima pergunta, não quero constrangê-lo.
Não houve “primeiro ensaio”. Não me lembro dos primeiros textos. Escrevo há muito tempo, quase tudo joguei fora, e nos últimos anos tenho publicado na Internet. Agora, o livro. Não é assunto sensível nem constrangedor. Sou um livro aberto… Hmmm, que trocadilho infame… Mal vejo a hora que gravem sobre mim aqueles depoimentos, e chorem, e digam o quanto eu era impressionante já desde pequeno. Eu conto tudo. Autorizo aí qualquer biografia não autorizada sobre mim, ao contrário do Roberto Carlos que desautoriza até as autorizadas.

Seus ídolos ainda são os mesmos?
Os do futebol, sim. Um dos seres humanos mais importantes a andar sobre a terra, para mim, é o Evair, ex-centroavante do Palmeiras. O homem foi pra Lua e voltou, e pouco me importo com isso. O pênalti que o Evair cobrou no dia 12 de junho de 1993, contra o Corinthians, vale por trezentas idas e vindas à Lua. Além do futebol, meu ídolo literário é o Jorge Luis Borges. Lembro-me de quando comprei sua obra completa. Chegaram os livros numa caixa e fiquei sem saber o que fazer. Fiquei rodeando aquilo como índio em volta de fogueira. Fui tomar banho, voltei para o quarto, fechei a porta e… abri a caixa. E li tudo de uma vez, todos os dias. Reli em seguida. O engraçado é que o meu texto não tem rigorosamente nada a ver com o do Borges. Isso é bom.

E as aparências, enganam?
Ao contrário. Oscar Wilde disse que somente um tolo não julga pelas aparências. Concordo muito com ele. A maior parte das pessoas – pode me incluir entre elas – revela tudo em cinco minutos. Ou menos. Platão era inteligente demais e você descobria isso em trinta segundos. Dilma é burra demais e você descobre isso em dois segundos. Não somos tão profundos assim. Ainda bem.

Como escolheu os temas para compor esse livro de estreia?
Não escolhi. Eu pensava em alguma coisa, me irritava com alguma coisa, e escrevia. Sou muito reativo. Se alguém diz besteira, ou o que julgo ser besteira, quero dizer: “Que besteira!” Daí escrevo e, como sou vagamente canalha, vou logo ridicularizar a besta e a besteira respectiva. Tudo me interessa, ainda que eu saiba pouco de tudo. Mas isso é próprio do ensaio, do ensaio breve e pessoal, que é mais ou menos o que faço – ainda que nem sempre chegue a ensaio; alguns ficam no registro crônico. O ensaísta é um sem vergonha do espírito. Um distraído com alguma coisa interessante a dizer.

Adoro sem vergonhas do espírito! Ótima definição. Isso na escrita, hoje, é meio visto como blasé também, não acha? Já ouvi isso, só que sempre me parece que em vez de ser coisa de “gente metida”, é de gente “livre” – lembrando o Nikos Kazantzákis: “Nada espero, nada temo, sou livre.”
Não sei se a falta de vergonha na cara do espírito é blasé. Espero que seja, porque nos faltam esnobes. Tem escritor demais querendo mostrar a realidade pra gente, o que invariavelmente é a realidade feiosa e mesquinha do escritor. A realidade dele é morar no Capão Redondo ou aqui em Jacareí, que não é muito melhor. Ou então, escritor falando de coisas sociais, realidades econômicas, seguro-desemprego. Escritor que diz escrever com o fígado – quer coisa mais ridícula? Escritores e leitores que dizem que determinado livro foi como um soco no estômago. Se eu tomar um soco no estômago não vou gostar nada, e vou tentar devolver com duas vezes mais força. Literatura é para dar alegria, abrir e ampliar a imaginação, proporcionar beleza, talvez inteligência. O realismo é uma superstição persistente. Claro que há livros importantes que são tristes, soturnos. Mas mesmo esses têm de ser escritos como se não fossem tristes. Os livros do Kafka, o próprio Kafka, têm algo de muito sombrio. Mas também de muito engraçado. Kafka era um humorista. Nietzsche e Cioran também. O Cioran é tão pessimista, mas tão pessimista, que chega no limite, faz a curva e acaba ficando divertido. Parece meu sogro.

Está com medo de retaliações?
Carlos Andreazza, meu editor, garantiu que a Record tem ótimos advogados. Espero. Não tenho medo; tenho curiosidade. A editora me deu liberdade para dizer sandices e irresponsabilidades; eu as disse. Houve momentos em que me peguei considerando: “Talvez eu não devesse escrever isso…” Até que, minutos depois: “Ora, por que não?!” E escrevia. Se falarem mal de mim, serei o primeiro a assinar. Não valho muita coisa não, só que tem um detalhe: eu ao menos sei disso, ao contrário de muitos críticos…

 

 

O que é mais perigoso: minorias ou maiorias?
Hoje as minorias são cada vez maiores – cada vez mais… maiorias. Muitas delas. Mulheres são minorias, mas há mais mulheres no mundo, ou quase isso. Sei que não se trata de número, mas de representatividade, poder, pelos nas axilas, etc. O fato é que minorias e maiorias são mais parecidas entre si do que se pensa: a minoria de hoje será a maioria de amanhã. O revolucionário de hoje olha para o reacionário e diz: “Eu sou você amanhã”. Todo mundo sabe disso, mas enquanto compensa esmagar o próximo dizendo-se vítima, nós vamos esmagando. Muitos dos debates e das reivindicações não passam de trotes universitários. A mesma estrutura reativa. O calouro apanha, é pintado, é ridicularizado pelos veteranos. Daí, o calouro vira veterano e faz a mesmíssima coisa com os calouros seguintes. Só sei que, com o perdão da blasfêmia, onde dois ou mais estiverem reunidos – não estarei no meio deles. Gosto de gente, mas um de cada vez. Entrem na fila.

De fato, como afirma em seu livro, George Steiner é um mestre. “Conduzir o leitor aos grandes”, como você diz… Para mim soa como oferecer um sentido para viver. O que a leitura significa para você?
A leitura é meu modo de estar e ser no mundo. Soou ridículo isso? Na sétima série eu jogaria bolinha de papel na minha própria cabeça…

[Dá risadas]
Prossigamos. Leio todos os dias, há muitos anos. O texto bem escrito me dá prazer. A literatura de ficção, o ensaio, o poema – são objetos ou “seres” que dão prazer estético e ampliam minha capacidade de viver. Deixam-me menos burro e caipira. Lendo, você empresta dos outros um jeito de ver, de imaginar, de ouvir, de compreender que você não tem. Você vive mais de uma vida quando lê. Eu queria ser muitas coisas que não sou, viver muitas vidas que não vivo e não viverei, mas a leitura de alguma maneira substitui isso. É como reencarnar várias vezes numa vida só, e se lembrar de todas elas, e misturar todas elas, e terminar sendo você mesmo de um jeito mais interessante.

Tolstói ou Dostoiévski?
Nabokov.

Jura? Por quê?
Porque gosto mais de Nabokov.

Sartre ou Camus?
Nenhum dos dois, para o meu gosto. Muito embora Camus tenha sido um ser humano mais decente que Sartre. Mas, para não fugir da pergunta, a literatura de Camus me parece mais viva e relevante do que a de Sartre; entretanto, já no fim da vida, Sartre escreveu uma obra de gênio: O Idiota da Família, biografia literária e espiritual de Flaubert, livro assombroso. Ele pode levar isso pro Criador, pra tentar justificar a vida idiota que teve.

Bolacha ou biscoito?
Que essa discussão perdure até hoje é mesmo incompreensível. Bolacha é o gênero do qual biscoito é a espécie. Biscoito é sempre de alguma coisa: biscoito de polvilho, por exemplo. Se me mostrarem um mapa ilustrando que a maioria dos povos chama de “bolacha”, direi que a voz do povo é a voz de Deus. Se me mostrarem um mapa dizendo que a maioria dos povos chama de “biscoito”, direi que as massas são ignaras e que o comunismo está aí para provar isso. Cariocas não contam, registre-se.
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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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