Ida: a pureza que se questiona e a qual se dedica

002

É possível fazer votos de sacrifício de algo que não se conhece, não se sabe o prazer ou nunca se desfrutou os benefícios? Que valor tem? Parece que pouco. Seriam votos fáceis, para dizer o mínimo. Irrelevantes ao deus a quem se dirige. Esta é a pergunta central do filme polonês “Ida”, de Pawel Pawlikowski, que concorre ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. E esta é pergunta feita pela personagem Wanda, vivida por Agata Kulesza, para a jovem noviça Anna, interpretada por Agata Trzebuchowska, que no enredo é sua sobrinha, sua única parente viva, a quem não conhecia. Anna cresceu em um convento. Prestes a fazer os votos para se tornar freira, a moça é encorajada pela Madre Superiora, concebida por Halina Skoczynska, a resgatar sua história. Anna questiona a ordem, mas não faz resistência e segue o conselho.

Sobrevivente do extermínio nazista, Anna na verdade é Ida. Como crescera em um convento, esta revelação causa certo choque. Uma freira judia? É da boca de Wanda que Anna passa a conhecer um pouco mais de sua história. Aos olhos recatados da noviça, Wanda é uma mulher mundana, embora não haja julgamentos morais claros. Anna, na verdade, tem uma personalidade tão descolorida quanto a fotografia de Pawlikowski neste longa. O filme é todo em preto e branco, com enquadramentos intrigantes, que equilibram cenários e personagens – e muitas vezes mais cenários que personagens. Ousado.

CaixaBelasArtesLogo

Na busca pelos corpos dos pais, Wanda e Anna viajam. Wanda dança, bebe, transa e tem vida para esbanjar. Como juíza, desfruta os prazeres da liberdade que a idade e a estabilidade financeira permitem. É cínica e doce na medida. Ambientado no início dos anos 1960, no pós-guerra europeu, “Ida” é a procura por uma história, por uma identidade. Wanda é profana, Anna é pura. Wanda questiona a pureza e Anna se dedica a ela sem questioná-la. Elas se aproximam. Wanda desperta em Anna algo novo. É onde começa a melhor parte do filme. A resposta à pergunta original.

O longa irradia emoções pesadas, apesar dos poucos diálogos e nenhum deles de emoções tão expressivas. Mas “Ida” é forte. Fica na memória. Fica na memória tendo dito quase nada.

O cineasta Pawel Pawlikowski é polonês. Filme pela primeira vez em seu país. Possivelmente, o filme é tão profundo porque trata a história de sua própria família. “Ida” é candidato forte ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro justamente por esta densidade exibida com tão pouco vigor. Aprecia muito mais “Ida” quem tem verdadeiro apreço pelo cinema – porque o ritmo é lento. Compreende toda a sua complexidade os mais propensos à reflexão, quem talvez seja mais Anna que Wanda. Quem se questiona e se coloca à prova.

Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

Comments are closed.