IGLESIAS, Gabriel. Pedra em Carne. 2016. Versão comentada.

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Alguns discos marcam o tempo. Outros discos marcam um estado. Os discos que marcam tempo, passam. Se ressurgem, trazem lembranças apenas, mas nada mudam. Já os discos que marcam estado, esses ficam. E quando tocam, tocam emoções quase que permanentes – quem pode saber se um dia findarão? Medo, solidão, sensação de abandono. Meu Deus, será que tudo o que vejo é assim mesmo. Ou será que sou eu?

Pedra em carne. Gabriel Iglesias. Todos os dias, 5h da manhã. Ou nem todos os dias, e nem às 5h. É que quando o disco toca, essa é a realidade que desejo, a do silêncio, da escuridão ainda, dos poucos minutos de calma que me restam antes do dia nascer. Não é prática religiosa, é para não deixar a alma escapar. O que talvez seja a mesma coisa. Todos os dias eu desejo ser o simples pardal do qual Deus cuida. Todos os dias desejo acreditar que não estou só. Dúvida é pecado ou proteção? Não espero em paz.

Minha “transformação de uma eternidade” – aquela que Kierkegaard diz sobre a pressuposição cristã do mandamento “ama-te ao teu próximo como a ti mesmo” em As Obras do Amor – a minha transformação de uma eternidade é deixar de acreditar no abandono. Austera de si mesma, a lucidez vai vagueando por aí, só.

Às 5h da manhã o dia ainda está escuro. Faço tudo o que todo mundo faz quando acorda, até não querer morrer submersa no cotidiano. Inevitáveis são as perguntas essenciais. De onde vim? Para onde vou? O que tenho que cumprir em vida? Há algo além da morte? Se tudo acaba, por que devo me esforçar para qualquer coisa? Se não acaba, como continua? Sou dona do meu destino? Minhas escolhas realmente importam? Sou peça no tabuleiro imenso, o universo, aleatória, sem propósito? Não sei o que é Jerusalém.

O que realmente importa sou eu que estabeleço ou acredito que estabeleço porque não suporto a verdade de que não significa nada?

Vejo sim a vida em movimento de Pedra em Carne. Essa vida regida por Deus, que tem uma ordem, um ritmo, e ainda que haja rompimentos, renovações ou mesmo pausas, elas servem para que essa mesma ordem continue. A vida é a música de Deus. Esperança é caminhar.

Ouço Pedra em Carne porque não sou capaz de crer como Gabriel. O disco para mim é desafio. Pensar em Deus está muito, [muito, muito] além de mim. Mas se posso arriscar uma oração. Deus, contenha meus excessos, ou me dê mais espaço dentro de mim.
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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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