“Jauja” é cinema de gênero para contemplação

Um capitão dinamarquês, vivido por Viggo Mortensen, e sua jovem filha se encontram em um dos locais mais inóspitos da Patagônia Argentina, durante uma expedição exploratória na região, que reuniu soldados de diversos países. A garota, porém, desaparece. O soldado parte em uma busca, que já seria imprevisível em condições normais, mas se torna visceral, por ele estar próximo de Jauja, o mítico lugar que dá título ao filme.

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A compreensão de “Jauja”, o filme, pode ser maior se tivermos em mente que o verdadeiro protagonista não é o soldado, nem sua filha e sim a própria região. E sendo esse território objeto de lendas, a solução para o episódio que o local presenciou é tão lírica quanto misteriosa. Uma frase ecoa: “O que faz uma vida valer a pena e seguir em frente?”

A primeira surpresa é o formato reduzido, um 4×3, que parece estar na moda uma vez que já tivemos o vencedor do Oscar de Filme Estrangeiro “Ida” com essa mesma escolha estética. Nada natural para um filme que explora tanto as paisagens e os planos abertos. No entanto, a escolha se justifica a medida que a projeção avança. Toda a sensação de liberdade que essas paisagens poderiam simbolizar é rapidamente substituída por uma sensação de prisão e desespero.

A textura e as cores também chamam atenção, uma espécie de tecnicolor, tecnologia que captava as imagens e as “queimava” em três rolos coloridos. O resultado para nós, filhos da era digital, é uma cor saturada, mais viva que o normal. Foi utilizada até a década de 1970.

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Dessa época também veio um gênero que provavelmente serviu de inspiração, o western. Podemos vê-lo na subtrama da conquista de um território por meio do extermínio de um povo nativo e na trama principal, que remete ao clássico de John Ford, “Rastros de ódio”, em que o Ethan, personagem de John Wayne, parte em uma caçada contra os índios americanos, buscando resgatar sua sobrinha sequestrada.

O final “aberto”, para dizer o mínimo, gera controvérsias. É claro que o diretor Lisandro Alonso não o explicou. Aliás, seria muito chato se ele ou qualquer artista explicasse as obscuridades de suas obras. Negativamente, isso abre caminho para que certos artistas “experimentem” todo tipo de maluquice sem se preocupar com aquilo que irá comunicar ao público. O cinema é cheio desses filmes de dez espectadores, feitos para o prazer do cineasta e nada mais. Entretanto, não é o caso de “Jauja”, que merecia mais que seus 13 mil espectadores, número estimado do final de junho de 2015. Alonso combina sensações fortes de desespero, solidão e perigo iminente a uma isca jogada ao espectador no momento certo. Dessa forma, seu cinema está longe de ser aleatório.

Lisandro Alonso é um diretor que se permite criar um roteiro enxuto para que as gravações forneçam a maior parte da inspiração para o filme final. Ou seja, a paisagem patagônica serviu de inspiração, da pré-produção até a produção, e Alonso criou uma experiência cinematográfica onírica e inquietante.

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“Jauja” é uma coprodução de Argentina, país do diretor, com Dinamarca, França, México, Estados Unidos, Brasil, Alemanha e Holanda. Ufa! Está mais para torneio de verão do que cinema! As vantagens são muitas, como a abertura de mercados para a comercialização do longa. Viggo, por exemplo, além de atuar ajudou na produção executiva do filme viajando muito para defendê-lo em festivais e melhorar sua repercussão. A coprodução também atribui uma troca técnico-artística que quase sempre se reflete a longo prazo na escola cinematográfica de cada país. Troca essa que, felizmente, o Brasil está cada vez mais aproveitando, com programas como o Ibermedia. No caso de “Jauja”, a parte brasileira veio da produtora Bananeira, que ainda tem outras produções com os hermanos, o já lançado “El Ardor” e “Zama”, dirigido por Lucrecia Martel, ainda sem data de lançamento.

Foi filmado em Viedma, capital de Rio Negro, a mesma província do segundo destino turístico mais conhecido da Argentina, Bariloche. O local é protegido, não podendo trafegar de carro, sendo que todo equipamento teve que ser deslocado em mãos.

Um filme de poucas palavras, não sendo de fácil apreciação para todo público, mas um bom ponto de partida para o amante do cinema que deseja algo mais denso, uma vez que as sequências de ação inspiradas no western garantem certo equilíbrio entre o cinema contemplativo e o espetáculo.

“Jauja” venceu o prêmio da crítica no Festival de Cannes, na competição “Um certo Olhar”, em 2014.

Assista ao trailer de “Jauja”!

Denise Balesteros Written by: