Joel Pinheiro da Fonseca: O termo “gênero” serve como gatilho

Afinal, que diabos aconteceu com a exposição Queermuseu, encerrada no Santander Cultural, Porto Alegre, no início da semana? Ops, diabos não, melhor não invocar o tinhoso. Mas será que a implicância é só religiosa? Política, talvez? Ou ainda: será que o episódio que polarizou o Brasil é mais uma prova do crescimento perigoso da máquina “fakemidiática” – e ideológica – que pode estar abafando a voz de veículos sérios? O que é arte? O que é sério? Houve mesmo apologia à zoofilia, pedofilia ou foi mais um caso de “anencefilia” [FAUSTO patenteará o termo, por favor, dê créditos se o usar]. Joel Pinheiro da Fonseca, economista pelo Insper, mestre em filosofia pela USP, articulista da Folha de S.Paulo e – que chocante! – também liberal, em entrevista extraordinária para a FAUSTO, comenta o caso. Confira!

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Joel Pinheiro da Fonseca.

Afinal, o que houve desta vez que causou tanta comoção? As obras são antigas, já foram expostas em outros espaços e desde que o mundo é mundo as pessoas usam a arte para falar de todo o tipo de sexo.
Como tantas exposições e mostras de arte pelo Brasil, essa tinha telas com nudez e sexo. O problema da Queermuseu é que, em seu título e em sua proposta, ela faz menção à questão do gênero e propõe questionar as normas tradicionais sobre o assunto.

E quando usa o termo gênero… O termo “gênero” serve como um gatilho para despertar a revolta de diversos grupos de conservadores militantes que organizaram protestos, mentiram sobre o conteúdo e sobre a finalidade do conteúdo, dizendo, por exemplo, que havia apologia à pedofilia ou à zoofilia, e chegaram mesmo a intimidar visitantes da mostra. A novidade aqui, portanto, não são as obras em si, mas a presença crescente dessa militância de direita. Não é como se a mostra estivesse se impondo sobre a população, invadindo os lares e os televisores do povo que talvez não partilhe daqueles valores. Era apenas uma mostra de arte que jamais chamaria a menor atenção do grande público. Só ficou popular graças à patrulha. Veja que irônico: em um dado momento, começaram a dizer que o grande problema era que crianças poderiam entrar ali, como se crianças simplesmente aparecessem dentro de museus. Mas todo o trabalho dessa militância de acusar, denunciar e divulgar a exposição na internet – inclusive com fotos das obras – fez com que elas chegassem a muito mais crianças, aí sim sem a devida supervisão de pais ou responsáveis.

Por que fizeram todo esse auê, então?
Simples: ganho político de lideranças que exploram os sentimentos populares – levando-os na direção do ódio e do conflito – para seu projeto de poder.

Existe toda uma operação “fakemidiática” e partidária que consegue tornar um único fato numa série de outros fatos absurdos e falsos em questão de segundos. O perigo não está exatamente aí?
Estamos aprendendo a lidar com a informação nesse tempo de redes sociais. Nesses últimos dois dias, por exemplo, começaram a divulgar um quadro com uma cena de sexo pedófilo – em estilo não realista – para acusar a mostra. Só que esse quadro nem sequer está na mostra! Claro que a correção vem logo em sequência, mas muita gente jamais saberá que foi enganada. É difícil pensar numa solução que venha de fora. Acho que jornalistas engajados em checagem dos fatos podem ajudar, mas serão sempre consultados por poucos, pelos mais interessados no tema. A outra solução possível é que, uma vez que um conteúdo ou notícia seja comprovadamente falso, a rede social passe restringir ou mesmo proibir sua veiculação, e possivelmente outros links da mesma fonte. Considero esse um passo muito perigoso, pois dará à rede social o controle sobre a informação que chega até grande parte do público. E todos sabemos que nem o Facebook, nem o Google, nem o Estado, nem ninguém são plenamente imparciais e objetivos. Por isso, não vejo muita saída: a solução tem que partir dos usuários. Estamos aprendendo a viver nas redes, sem os filtros tradicionais da grande mídia, do Estado, etc. Um pouco parecido com o século 19, que tinha um monte de jornais e panfletos para todo lado, defendendo todo tipo de ideia e veiculando muitas vezes informação falsa. As pessoas aprenderam a lidar, a mídia se consolidou, estabeleceu padrões mínimos de qualidade; tudo isso sem ter que proibir concorrentes.

Então, os usuários também têm uma responsabilidade nesta “causa”?
Do ponto de vista do usuário, precisamos de mais senso crítico e disposição de ir atrás da verdade, de procurar fontes além daquelas que confirmam – e mais, ditam – nossa visão de mundo.


“Precisamos de mais senso crítico e disposição de ir atrás da verdade, de procurar fontes além daquelas que confirmam – e mais, ditam – nossa visão de mundo.”

 

Joel Pinheiro da Fonseca

Redes sociais ajudam a esclarecer equívocos ou já viraram “masmorra”, como diz o filósofo Luiz Felipe Pondé?
Para quem é protagonista da própria busca por informação, a internet e as redes sociais são uma maravilha. Para quem adota uma postura passiva, acredita em tudo que passam para ele no WhatsApp ou no Facebook, a chance de ser enganado é muito maior. Há “lugares” que são verdadeiras cidades do conhecimento: onde pessoas trocam informações, especialistas ajudam a esclarecer o debate, comparam-se fontes, etc. E há também masmorras e cracolândias. Vez ou outra é justamente daí que sai uma ideia diferente e válida, mas também tem muita mentira e muito lixo. É a fazenda e a selva. No dia-a-dia, nossa comida vem da fazenda. Mas há maravilhas e segredos que só se encontram na selva. Por isso, apesar do momento meio conturbado, sou otimista. Só não pode deixar de promover bons valores: senso crítico, objetividade, buscar entender diferentes pontos de vista, etc.

Outra articulista da Folha de S.Paulo, a Mariliz Pereira Jorge,  comentou na página do Facebook dela que as pessoas não sabem interpretar texto e que seria otimismo querer que interpretem arte. O comentário foi nitidamente uma brincadeira, mas ela foi chamada de “elitista”. Seria outra prova de falta de interpretação?
A realidade é “elitista”. As pessoas diferem muito na hora de interpretar texto, arte, etc. Acredito que a imensa maioria tenha capacidade bruta para desenvolver essa habilidade até um nível satisfatório. Infelizmente, nem todos desenvolvem, seja por má formação, seja por escolhas equivocadas, colocam a defesa de sua tribo acima de tudo. O maior problema, a meu ver, não está aí.

Onde está?
Existem pessoas com a intenção de distorcer textos, ou obras de arte, para provocar a indignação e o ódio da maioria que ainda não domina o ferramental. Você vê feministas fazendo isso direto com pessoas de quem elas desgostam: pegam uma frase perfeitamente inocente e transformam numa monstruosidade, apenas para uma massa de seguidores ir lá detonar quem escreveu. No caso do Queermuseu, foi a mesma coisa, mas feito por militantes de direita.

Em entrevista para nós, o cientista político João Pereira Coutinho disse que na “liberdade de expressão já inclui o desrespeito”. Temos uma visão infantil da liberdade, que ninguém pode ofender ninguém; ou o contrário, que nela por direito pode-se dizer o que quiser, da forma que quiser, sem considerar nada e nem ninguém?
Hoje em dia pega muito bem se fazer de ofendido, de vítima. Qualquer discurso ofende minha religião, meu gênero ou ausência dele, minha cor, minha orientação sexual. No campo da retórica, do discurso, é a vítima que tem poder. Então todo mundo quer ser vítima, se colocar como oprimido, para daí poder exercer poder sobre o suposto opressor, com os aplausos de uma massa sempre pronta para linchar e assassinar reputações. Viveríamos muito melhor como sociedade se a mera ofensa não fosse objeto de punição legal. As pessoas teriam que buscar outra forma de conviver e negociar suas diferentes, que não apenas ameaçar com processo. Lembremos que Gilmar Mendes ganhou processo contra a humorista que o criticou; que o Miguel Nagib, do Escola Sem Partido, ganhou processo contra um interlocutor que o chamou de “fascista”. Jair Bolsonaro pode ficar de fora da corrida presidencial por ter feito uma piada. Daqui a pouco está todo mundo processando todo mundo, pois é uma estratégia vencedora.

Você falou em sua coluna que quem perde com tudo isso é a cultura. E quem ganha? Há um ganhador? Ou vários ganhadores?
Quem ganha são os agentes políticos cuja popularidade e adesão das massas aumenta com essas campanhas de ódio. Para esses líderes, quanto mais fanatizadas para o seu lado as pessoas estiverem, melhor. Então eles vão fazer de todo o possível para deslegitimar tudo que é normal, ponderado, não-ideológico, despolitizado. Só podem existir duas coisas: o meu lado perfeito, e o lado oposto, demoníaco.

Em um dos trechos da nota emitida pelo Santander Cultural diz: “Quando a arte não é capaz de gerar inclusão e reflexão positiva, perde seu propósito maior, que é elevar a condição humana.” Isso diz algo, de fato, sobre arte? E sobre natureza humana?
São palavras vagas, bonitinhas, politicamente corretas. Pessoas do banco até podem querer sinceramente promover as artes, mas é claro que, antes de tudo, eles não querem gerar insatisfação popular nem perder clientes. Tem arte que não é nada inclusiva nem positiva. Tem arte que fala mal, que ofende, que denigre, que é de um mau gosto chocante.

Arte pode falar de tudo?
Não gosto de tratar a arte como essa categoria separada, em que “vale tudo”. Como se tivéssemos a vida normal, a atividade humana pautada por diversas regras, e do outro lado a Arte. Os homens falam de tudo; os homens sentem de tudo; pensam sobre tudo. E esse pensar, falar e sentir se dá de várias formas: discursos, textos teóricos, histórias, artes plásticas, piadas, música. Algumas dessas manifestações a gente considera tão valiosas, tão ricas nos efeitos que elas geram nas demais pessoas, que colocamos em museus, em livros, em salas de concerto, etc, para que mais tenham acesso a elas. É possível impedir os homens de pensar? Infelizmente, sim. Seja por meio de leis restritivas ou de uma cultura intelectualmente repressiva. O Ocidente sempre foi marcado pela atitude contrária: ao apostar no indivíduo, deu-lhe a máxima liberdade para pensar e criar. A raça, a igreja, a moral dominante, a nação, vêm depois. Conflitos ocasionais acontecem, mas de maneira geral todos esses saíram beneficiados dessa atitude.

A linha é tênue entre retratar algo e fazer apologia de algo?
Do ponto de vista legal, não. Um componente necessária para caracterizar juridicamente a apologia ao crime é o dolo. Ou seja, a intenção de promover a prática daquele crime. Ele também tem que ser promovido de maneira direta, e não nas entrelinhas ou em uma certa interpretação da fala de alguém. Por isso que mesmo andar com uma camiseta ostentando uma folha de maconha não constitui apologia ao uso de drogas. Do ponto de vista moral, a coisa pode ser mais complexa. Mesmo assim, na imensa maioria das artes, há uma clara diferença entre retratar algo e propor aquele algo. Temos incontáveis quadros que retratam assassinatos, por exemplo. Ninguém supõe que eles sejam convites ao assassinato. O mesmo para a escultura clássica O Rapto de Proserpina, de Bernini, uma verdadeira maravilha da arte. Somos extasiados com a cena esculpida; vemos como os dedos de Plutão marcam a pele macia da Proserpina. Apesar disso, ninguém vê essa obra e sai com a ideia de que raptar mulheres é uma coisa bacana.

Se o Santander Cultural não tivesse recuado, a comoção perderia força? Afinal, o Brasil foi um dos países que “parou” para assistir Game of Thrones que em uma das cenas queimou uma criança – além de tantos outros.
Essas patrulhas militantes fazem muito barulho, e por isso parecem ser maiores do que realmente são. Espalhou-se um boato de que 20 mil pessoas haviam cancelado a conta no Santander; mentira, essa informação não tem qualquer base. Será interessante ver os alvos de patrulhas como essa quebrarem o script e não cederem, não pedirem desculpas. Isso é particularmente trágico quando o alvo não é uma instituição mas uma pessoa. Invariavelmente, depois de pedir perdão, ela é ainda mais pisoteada pela turba enfurecida. Se tivermos alguns casos de pessoas ou instituições que não baixem a cabeça, que mostrem o absurdo das acusações e exponham claramente a má fé dos acusadores, talvez a estratégia de criar esses escândalos para promover a si ou a um movimento deixe de fazer sentido. Só o tempo dirá, mas eu acredito que, contra esses promotores do ódio, a melhor defesa é o ataque. Mas um ataque justo e íntegro, que não se rebaixe ao mesmo nível deles.
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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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