Jon Stewart: “Kierkegaard tem o dom de discutir questões humanas perenes”

Recém-lançado no Brasil, Kierkegaard – Subjetividade, ironia e a crise da modernidade é para todos os apaixonados pelo filósofo dinamarquês. O livro permite um mergulho profundo na vida e nas relações do grande autor, levando o leitor a uma melhor compreensão de seu pensamento pela devida contextualização no tempo histórico em que viveu. Escrito por Jon Stewart, professor associado do Centro de Pesquisa Søren Kierkegaard da Universidade de Copenhague, além de especialista em filosofia e religião do século XIX, a publicação promete aos bibliófilos um Fim de Ano em boa companhia. Com exclusividade para a FAUSTO, Jon Stewart conversa sobre a importância e os encantos do escritor. Imperdível!

Jon Stewart, autor de Kierkegaard – Subjetividade, ironia e a crise da modernidade.

O anúncio da biografia que escreveu sobre Søren Kierkegaard teve muito impacto aqui, no Brasil…
Jon Stewart: Fico muito feliz em saber. Há muitos brilhantes especialistas em Kierkegaard no Brasil, como Álvaro Valls e Ricardo Quadros Gouvêa. Por meio do ensino e da escrita, eles fizeram excelente trabalho ao longo dos anos promovendo estudos sobre Kierkegaard. Merecem o crédito por estabelecer as bases para o interesse em meu livro. Sou muito grato também ao meu tradutor Humberto Araújo Quaglio de Souza, que é um grande estudioso. Ele me ajudou com o curso on-line aberto sobre  Kierkegaard que fiz para a plataforma Coursera. O curso, que ainda está em disponível, foi visto por mais de 80 mil estudantes e foi a base para o livro. Humberto fez um ótimo trabalho ao traduzir as legendas e ao liderar o fórum de discussão em português. Ele também fez muito para promover o interesse nos estudos de Kierkegaard no Brasil e em Portugal.

Acredita que a biografia tornará Kierkegaard ainda mais relevante?
Hoje, as pessoas são muitas vezes rápidas em descartar pensadores do passado como se fossem irrelevantes para os problemas de hoje. Tendemos a pensar que somos confrontados com um conjunto especial e único de problemas do século 21, que os pensadores do passado nunca conheceram. Diante disso, pode parecer perda de tempo continuar a estudá-los. Mas, embora seja verdade que Kierkegaard nunca ouviu falar de globalização, computadores pessoais ou internet, no entanto, muitos dos seus conceitos e análises ainda são profundamente relevantes para o nosso tempo. No livro, tentei traçar o desenvolvimento da vida e do pensamento de Kierkegaard com ênfase especial no que ele tem para nos dizer hoje. Kierkegaard tem o dom especial de discutir questões humanas perenes que falam com pessoas de diferentes países, com diferentes origens intelectuais.

Lembra-se do primeiro momento em que se viu encantado com Kierkegaard? Que idade tinha?
Quando eu tinha 19 anos, fiz uma aula na graduação de filosofia da religião em que lemos Pós-Escrito às Migalhas Filosóficas, de Kierkegaard. Isso teve um impacto profundo em mim. Também lemos alguns outros textos clássicos que geralmente são lidos nessas aulas, mas houve algo sobre o tom e o estilo de Kierkegaard que realmente se destacaram. As outras obras pareciam um pouco chatas ou entediantes, mas Kierkegaard me pareceu iconoclasta. Ele realmente parecia levar a sério os difíceis desafios para a religião que haviam surgido no Iluminismo. Seu foco na liberdade individual e humana era muito atraente para mim na época, uma vez que eu estava lutando com essas ideias no contexto da minha própria vida.

Por que decidiu ir além do pensamento e investigar a vida de Kierkegaard?
Ao ler livros sobre Kierkegaard, muitas vezes fico um pouco frustrado com o fato de que os autores invariavelmente quisessem que Kierkegaard tivesse dito algo que eles já haviam decidido antes. Muitas vezes, eles queriam, em certo sentido, recrutá-lo a serviço de sua própria concepção de religiosidade ou de sua própria posição filosófica ou política. Depois de refletir, percebi que isso aconteceu com tanta frequência porque que as pessoas estavam acostumadas a abstrair as idéias de Kierkegaard do contexto em que originalmente surgiram, isto é, a própria vida e o tempo. Se alguém segue essa metodologia, fica bastante fácil distorcer e transformar suas palavras, para fazê-lo dizer o que se quer que ele diga. Isso, pensei, não respeita a integridade do texto. Kierkegaard não era um filósofo abstrato, que estava apenas analisando conceitos pelo seu próprio bem. Suas idéias surgiram do contexto de suas próprias experiências e interações com as principais tendências e figuras da vida intelectual na Dinamarca e os estados alemães da época. Então, quando abordo Kierkegaard, penso que é importante incluir esse tipo de contexto histórico e biográfico para entender completamente as ideias filosóficas que ele está desenvolvendo.

Por exemplo?
É impossível apreciar os detalhes de sua polêmica crítica da Igreja do Estado dinamarquês, se não se sabe sobre as principais tendências e controvérsias na Igreja dinamarquesa da época e as relações pessoais de Kierkegaard com algumas de suas principais figuras. Para mim, ter essa informação de fundo tornou muito mais fácil entender seus textos do que antes de ter aprendido sobre essas coisas.

O que hoje ainda é o mais fascinante no pensamento de Kierkegaard, depois de tantos anos de estudo?
Quando aprendi dinamarquês, abriu-se um mundo novo, tanto em relação aos próprios textos de Kierkegaard quanto aos de seus contemporâneos com quem ele estava em constante diálogo. Com relação aos seus próprios textos, ao lê-los no dinamarquês original, pude apreciar pela primeira vez os elementos retóricos e estilísticos que são impossíveis de capturar adequadamente em uma tradução. Com relação aos textos de seus contemporâneos, consegui lê-los pela primeira vez, já que quase nenhum deles estava disponível em tradução. Ao lê-los, pude ver que Kierkegaard estava constantemente fazendo alusões críticas aos seus colegas dinamarqueses. Isso me motivou a começar minha própria série de tradução (Textos From Golden Age Denmark), pois queria disponibilizar alguns dos textos-chave do período para leitores de outros países. Eu queria que eles pudessem ver por eles mesmos a importância dessas outras figuras para o desenvolvimento do pensamento de Kierkegaard.

Qual momento da vida de Kierkegaard foi profundamente impactante para você?
Depois que Kierkegaard defendeu sua dissertação, O Conceito de Ironia, em 1841, ele decidiu fazer uma viagem a Berlim, então capital da Prússia, para aprender mais sobre a filosofia alemã. Na época, a universidade de Berlim havia acabado de contratar Schelling, que estava numa relação polêmica com os hegelianos, e isso criou uma atmosfera intelectual rica e estimulante. Kierkegaard foi a Berlim e participou desta e de outras palestras de Schelling. Essa foi uma encruzilhada importante para ele, já que acabava de terminar seu curso e não tinha certeza do que queria fazer com sua vida. Ele decidiu, então, que queria se tornar escritor e começou a trabalhar em Ou-Ou: Um Fragmento de Vida enquanto estava em Berlim. Este período da vida de Kierkegaard foi importante para mim porque eu também quis ter ido para a Alemanha estudar. Como Kierkegaard, eu quis estudar os grandes filósofos alemães com os principais especialistas.

Conseguiu realizar esse sonho?
No fim das contas, consegui fazer isso, passei dois anos na Alemanha, enquanto trabalhava em minha dissertação. Esse período também foi uma encruzilhada importante na minha vida. Passei muito tempo refletindo sobre o que eu queria fazer quando recebesse meu diploma. No final, decidi ser pesquisador, e depois de defender minha dissertação, voltei para a Europa para continuar minhas pesquisas sobre filosofia continental.

Qual a importância de Kierkegaard para o Romantismo?
Kierkegaard pode ser visto como um importante crítico e comentarista do movimento romântico alemão, mas essa é uma questão complexa, já que algumas pessoas o consideram um romântico. Existe uma vertente dos estudos de Kierkegaard que o associa a movimentos como pós-modernismo e desconstrução. Eles vêem nele um propagador de certos conceitos que vêm do Romantismo, como a indeterminação do significado, a rejeição da autoridade e o uso dos pseudônimos. No entanto, em obras como O Conceito de Ironia, Kierkegaard critica explicitamente os românticos e propõe sua própria teoria da ironia como uma alternativa crítica explícita a dos líderes do movimento romântico alemão.

E qual é a importância do Kierkegaard hoje? O que podemos aprender com ele se mergulharmos em seu pensamento?
Há muitas lições em Kierkegaard para nós hoje. Vivemos em um momento em que as comunidades estão entrando em colapso e as pessoas sentem uma sensação de isolamento e alienação. Kierkegaard faz algumas análises perspicazes sobre esses tipos, incluindo ansiedade e desespero. Ele também tem algumas coisas valiosas a dizer sobre como as pessoas pensam e agem em grupos e como a individualidade é prejudicada. A análise crítica de Kierkegaard de seu próprio tempo também pode ser aplicada em grande parte à nossa era. As tendências e as correntes que ele identificou para crítica ainda existem hoje e talvez tenham se desenvolvido ainda mais.

Qual é o lugar da poesia em seus textos?
Kierkegaard estava ciente do fato de que havia muitos tipos diferentes de leitores. Alguns foram educados e outros não. Ele criou explicitamente seus trabalhos com diferentes tipos de leitores em mente. Creio que isso explica, pelo menos em parte, o grande sucesso de seus textos e de sua capacidade de falar a todos. Parte disso tem a ver com sua qualidade retórica ou poética. Aqui, acho que ele tem algo a nos ensinar. Hoje, os modernos tratados acadêmicos em filosofia são inteiramente homogêneos em relação à sua forma. Pode-se dizer que existe uma fórmula fixa que se deve seguir para publicar um artigo ou livro sobre filosofia. Hoje, as revistas acadêmicas e editores não aceitam mais nada que não acompanhe a fórmula aceita. Tentei argumentar sobre isso em outro livro: The Unity of Content and Form in Philosophical Writing: The Perils of Conformity, de 2013, que esse dogmatismo em relação à forma não presta nenhum serviço para a filosofia, uma vez que existem algumas posições filosóficas e argumentos que bem poderiam ser mais adequados a diferentes formas de expressão, como diálogos, romances, poemas, peças dramáticas, etc. Kierkegaard viu isso claramente e suas formas criativas de escrever são excelentes exemplos de como se pode fazer argumentos filosóficos e emitir críticas filosóficas usando uma forma de expressão diferente da que é geralmente aceita hoje. Então, acho que a poesia pode desempenhar um papel importante em um texto filosófico – um papel que não se trata apenas de estética, mas de fato traz um ponto filosófico.
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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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