José Júnior: o Cavaleiro das Trevas “No Fio da Navalha”

Gotham. Rio. O crime escurece a cidade fictícia criada por Bill Finger e Bob Kane, em 1939. Já o Rio, criado por Deus em um dia de sublime inspiração, tem constantemente roubados seus tons de azul. As cores preto e vermelho representam terror e sangue. José Júnior, 47 anos, é o nosso Cavaleiro das Trevas. Em “No Fio da Navalha”, biografia escrita pelo jornalista Luis Erlanger, a história do fundador do Grupo Cultural AfroReggae é contada de maneira direta e acessível. Para quem ainda não conhece o trabalho de mediação de conflitos no submundo do crime, prepare-se, é pesado. A balança que garante a imparcialidade não pode vacilar para nenhum dos lados. Quem acompanha o carioca no programa “Conexões Urbanas”, no Multishow, entende um pouco mais a complexidade dessa trama. Seja como for, além das semelhanças e diferenças, o herói dos quadrinhos também é o ponto de partida dessa trajetória impressionante, como conta o livro.

Júnio_AfroReggae

O traje que protege José Júnior não é feito de tecido, mas de linhas finas riscadas em sua pele. São inúmeras as tatuagens de entidades sagradas que preenchem seu corpo. Enquanto Bruce Wayne precisou de um disfarce, Júnior decidiu não se esconder, mesmo quando é ameaçado de morte. O líder da ONG mais bem-sucedida do Brasil acredita em reencarnação e em outros mitos que deixariam psicanalistas desorientados. Como na trilogia de Christopher Nolan, em “No Fio da Navalha” está tudo o que nem sempre queremos saber sobre a realidade que nos cerca. O fascínio que o herói brasileiro exerce sobre quem cruza o seu caminho também é o mesmo do homem-morcego. Você pode amar ou odiar, ficar intrigado com sua coragem ou acusá-lo de vaidade. Só é impossível ficar indiferente.

Erlanger abre “No Fio da Navalha” de maneira brilhante. A citação do dramaturgo alemão Bertolt Brecht diz quem é José Junior e quem nós somos como brasileiros: “Pobre do povo que precisa de heróis”. Assim somos. Nossos líderes estampam manchetes imorais. A corrupção está Gotham, no Rio, São Paulo, Salvador, Maceió, e muitas outras cidades do mundo. Não basta odiar o mal apenas em palavras. Se é fácil se identificar com o Batman do cinema, difícil é defender alguém que não tem nada a ver conosco. E cada vez mais nas ruas das grandes metrópoles é cada um por si. E reze. Nem sempre Deus é por todos.

Logo no início de “Batman Begins” (2005), ainda na prisão, Bruce Wayne pergunta ao personagem que se apresenta como Ducard: “Quem é você?”. O homem diz falar em nome de Ra’s al Ghul, o responsável por dar novo sentido à vida de Bruce. Uma das frases ditas por Ducard é certeira: “Se você se torna mais do que um simples homem, e se você se dedica a um ideal, e se não conseguem detê-lo, você se torna alguém totalmente diferente.” Quando Wayne pergunta cético onde ele quer chegar, a resposta de Ducard vem a calhar ao nosso herói: “Uma lenda”.

Só que uma lenda fora do cinema paga um preço muito mais alto. A vida editada não inclui a agonia dos minutos que não passam ou as soluções que não chegam em duas horas. Em “No Fio da Navalha”, do meio para o final, quando Júnior descreve um pouco mais como funciona sua maneira de sentir, qualquer suspeita de vaidade, aquela citada no primeiro parágrafo, vai embora. Quem Erlanger interroga e apresenta aos leitores é um homem “refém de si mesmo”. Os mais sensíveis podem perder algumas horas de sono imaginando o que é ter a vida de José Júnior. Sim, é possível se perguntar: “Por qual razão ele corre tantos riscos?”. Ao contrário de Bruce Wayne, que sempre foi milionário e venceu seus medos em anos de treinamento, Júnior nasceu pobre. A couraça sobre a qual seus sentimentos mais íntimos se escondem foi formada ao longo dos anos, e desde pequeno quando, em casa, o vício do álcool atingiu sua família. Mas não só provações, digamos, sociais, atinge José Júnior. Hoje, com escolta policial 24 horas por dia, sua liberdade é cerceada e sua prisão tem grades invisíveis. Wayne se escondia na caverna, Júnior não pode sequer desligar o celular.

Erlanger, experiente jornalista de televisão, leva para o livro uma narração sem barreiras. O leitor perito sentirá falta de outras fontes, algo que escapa ao biógrafo. Ou, talvez, foi uma estratégia dar extensão à voz do protagonista. Além de ninguém mais ser capaz de descrever tamanha complexidade, ainda não há quem junte tantas peças e compreenda sua missão. A posição do jornalista e amigo é delicada. Mesmo os muitos anos em campo podem ter levado o autor a se perguntar: “Será que posso ir mais além?”. Como investigar a fundo uma personalidade como José Júnior e não tirar dele o lugar seguro? Um dos poucos, diga-se.

“No Fio da Navalha” cita muitos nomes, conta muitas histórias paralelas, de Júnior e de tantos outros que passaram pelo AfroReggae, além das glórias, os prêmios, as perdas e a esperança de que um dia todo esse cenário mude.

Em “Batman – O Cavaleiro das Trevas” (2008), Coringa levanta a questão da relação dependente do bem com o mal. Um não existe sem o outro. Coringa provoca forte. Em vários momentos quer que Batman ceda e o mate. Mas o Cavaleiro das Trevas não cede. Ele aprendeu a dominar a si mesmo.

Os inimigos do nosso Batman também sabem disso.

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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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