“Julieta”, de Almodóvar: do tipo ame ou odeie

“Julieta” carrega um segredo. Por 12 anos esconde de todos uma dor. Uma dor difícil de descrever, pois uma vez sufocada embaraçou-se no tempo.

Só que o tempo não costuma ser amigo dos que guardam segredos. Na medida em que passa, pressiona a consciência e como o cheiro de algo pobre, torna-se impossível vencer. Resultado da adaptação de três contos da escritora canadense Alice Munro – publicados em “A Fugitiva” (2004) – “Julieta” é o mais recente filme de Pedro Almodóvar.

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Do tipo ame ou odeie, ao sair do cinema o espectador pode se perceber agitado, contrariado ou ligeiramente enganado. Mas é preciso dar tempo para Julieta. Para compreendê-la, ainda que para não concordar com ela. O inevitável é que o filme de Almodóvar fica na mente. Independentemente de ter gostado dele ou não.

Usando um elegantíssimo chemise vermelho, Julieta embala seus livros ao mesmo tempo em que se despede de uma misteriosa e dolorosa fase de sua vida. Prestes a partir para Portugal com o namorado Lorenzo, a protagonista deixa a impressão de viver uma ótima relação com esse homem, um fio importante da trama, que torna intrigante o que acontece logo depois: Julieta desiste de viajar depois de reencontrar despretensiosamente a melhor amiga de infância da filha, a jovem Bea.

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A protagonista aparece em dois momentos de sua vida. Quando jovem é interpretada pela bela Adriana Ugarte. Em fase adulta, por Emma Suárez. Lorenzo é vivido por Darío Grandinetti. Estão ainda no elenco Rossy de Palma, como Marian; Inma Cuesta, como Ava; Daniel Grao, como Xoan.

Depois de desistir de se mudar para Portugal, Julieta resolve voltar a morar na casa onde viveu com a filha, em Madri. É em uma sala de um prédio antigo e sem móveis que Julieta pega um bloco de notas e escreve para a filha, abrindo então velhas feridas e revelando assim a razão de tudo ter acontecido como aconteceu, o que o espectador também só descobre no desenrolar do longa.

O drama de Julieta acontece em um cenário de beleza ímpar. Muito colorido, o filme ainda conta com apurado figurino e as características peculiares da moda dos anos em que se passa. É lindo! Elegante, prazeroso de ficar ali, acompanhando, sem julgamento, só dividirá o público fatalmente no final.

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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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