Karleno Bocarro: “Desconfio de pessoas excessivamente alegres”

A trajetória de Karleno Bocarro é marcada por exceções e muita determinação. Nascido em Fortaleza, no Ceará, em uma família de poucos recursos financeiros, encontrou nos livros, quando ainda era garoto, o caminho para a carreira dos sonhos: a de ser escritor. Mudou-se para a Alemanha aos 23 anos, sem falar uma palavra em alemão, e formou-se em História, Ciência da Cultura e Filosofia na Universidade Humboldt, em Berlim. Com vontade, dedicação e disciplina, viveu no país por oito anos, tendo também realizado um mestrado em Filosofia sobre a estética em Friedrich Nietzsche. A paixão pela escrita levou Bocarro a tentar por onze anos publicar seus romances, todavia, sem nenhum êxito. “Não há aposta mais temerária do que aquela que fiz: ser escritor em um país imenso e populoso, porém de poucos leitores.”, declara. Um dia, então, veio a redenção e o romance “As Almas Que Se Quebram no Chão” foi publicado pela É Realizações. O livro tornou-se um elogiado romance. Sobre essa jornada por experiências dolorosas, sentimentos sombrios e o papel da literatura como salvaguarda, Karleno Bocarro conversou com o Eliana de Castro com exclusividade. Como seus livros, uma entrevista para aqueles que aceitam seu destino. Confira!

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Eliana de Castro: A expressão “no pain, no gain” é uma máxima para você?
Karleno Bocarro:
Não sei se é uma máxima para mim, ou se tenho alguma. Embora não me seja estranha ou antipática a ideia de que, nesta vida, pouco se alcança sem dor, trabalho e dedicação. Lembra-me a bravura que todo escritor deve cultivar, a de cumprir seus deveres de escrita mesmo em circunstâncias diversas.

Lendo “As Almas Que Se Quebram no Chão” fiquei com uma impressão muito forte de um cuidado minucioso de sua parte em alcançar o texto perfeito, uma delicadeza com o idioma, quase respeito. A obsessão do personagens Barad, é sua?
Existe aquilo que chamo de “maldição da busca pela perfeição”, um problema e um desafio para o escritor de consequência, algumas vezes, estéreis e paralisantes, pois o que está em jogo é algo humanamente impossível. Isso não quer dizer que, ainda que nem sempre sob condições ideais, não se deva trabalhar com afinco para alcançar o que você chama de texto perfeito.

Agora, não é raro acontecer, após a publicação do livro, de o autor deparar-se com alguma parte que o envergonha, que devia ter sido melhor trabalhada. Não sei, talvez a escrita seja uma atividade desde o início fadada ao fracasso; o abismo intransponível entre o sonho de perfeição e a realidade. Ou o sonho não acompanha a esta. Pessoalmente, o que faço é reler e rescrever o texto, depois de pronto, inúmeras vezes. E se, após a sua publicação, ainda me escapar algo – sempre escapa –, esperar por uma nova correção; quem sabe entre uma edição e outra. Foi o que aconteceu com esta edição que você tem em mãos, segunda e revisada. Praticamente reescrevi o livro na esperança e certeza de fazer melhor.

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Quanto à obsessão, e Barad como todo escritor tem a sua, percebi que, embora exigente e aflitiva, ela não cessa de proporcionar uma sensação permanente de insegurança. E é esta que o faz buscar uma opinião alheia para os seus textos, levando-o a envolver-se com pessoas não lá muito dignas. É como se não houvesse escapatória, em algum momento de sua vida o obsessivo se sentirá tentado a invocar ou a encontrar o Mal. Mas fico feliz que você o tenha citado. De todas as personagens do livro, depois de Luísa, Barad é aquela que mais me desperta simpatia. Sinto por ele dor e compaixão. Agrada-me a seriedade com que ele luta por sua vocação, e entristece-me a maneira como a ela foi impedido.

Você demonstra não ter medo de escrever sobre sentimentos sombrios. Há algum sentimento sobre o qual ainda não conseguiu escrever?
Certamente é mais fácil escrever acerca daquilo que nos repugna, ou dos sentimentos sombrios que nos cercam, por estarem mais presentes no mundo. Como basicamente me inspiro em pessoas reais para moldar minhas personagens, embora isso já tenha me ocasionado alguns problemas, e não há ser humano sem sentimentos bons e ruins, acredito que escrevi a respeito de todos eles.

Escrever é uma maneira de viver em um mundo paralelo ou você não tem grandes problemas com o mundo real, cotidiano?
Sim, no mundo paralelo da solidão, às vezes terrivelmente angustiante, mas sempre necessário… Bem, o meu problema não é com o mundo real, mas com aquilo que atrapalha o trabalho do escritor: dinheiro curto, o que o leva a atividades estranhas ao ofício, e incerteza quanto ao valor duradouro daquilo que escreve.

É difícil eleger um único livro como sendo transformador na vida de uma pessoa, considerando toda uma trajetória. Então, qual foi o 1º livro que transformou sua vida?
“Contos” dos Irmãos Grimm, que li pela primeira vez ainda na infância. Seus aspectos terrificantes, cruéis, sombrios, tiraram-me na época várias noites de sono. Em contrapartida, passei desde então a temer e a acreditar na existência do Mal, que não me deixou quieto nem durante os meus longos anos de descrença, e no triunfo final do Bem ou ao menos na oportunidade de salvação, naquele momento no qual temos de decidir entre virarmos erva e flores que caem e secam, como diz o Réquiem de Brahms, ou aceitarmos o gozo eterno sobre nossas cabeças. Ademais, a influência dos “Contos” também se faz presente nos meus romances: naquelas passagens e trechos assustadores, de trevas, que a tudo parece sorver, em especial a alma humana, sem oferecer qualquer saída. Nas “As Almas Que Se Quebram no Chão” é o prédio em ruínas, onde se passa a maior parte da história, de uma Berlim ainda não cicatrizada pelas feridas da guerra e da posterior divisão imposta pelo regime soviético. Aí, no passado, um provável bordel para oficiais da SS, a tropa de elite de Hitler, o Mal arrasta-se pacientemente à espera de suas vítimas.

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Não teve receio de que a temática do livro, de inspiração claramente trágico-cômica, pudesse afastar os leitores?
Na realidade, não é e nunca foi uma preocupação minha afastar os leitores por causa disso e não acho que seja aquela de qualquer escritor que queira escrever uma obra séria. O Antigo Testamento, a obra mais trágica e cômica da História, nunca deixou de ter leitores ou os afastou, salvo os ruins, porque a única preocupação, de seus vários autores, era com a verdade e a realização de sua tarefa do melhor modo possível.

Agora, é claro, existe aqui um risco, de se escrever um livro para poucos, proveniente de um fenômeno que não sei se é recente ou inteiramente cultural, quer dizer, nosso: há uma leva enorme de leitores que prefere a leveza fútil de um livro de autoajuda, as aventuras vazias dos livros de entretenimento para adolescentes, a ler uma obra que não se furte de discutir a condição humana – irresolúvel e sempre dramática. Atraí-los aos bons livros é uma obrigação minha à medida que me recuse a fazer concessões ao gosto medíocre. É esta, por assim dizer, a maldição que lhes jogo para que um dia sintam repulsa desse tipo de leitura e voltem-se para a alta literatura.

Acredita que a literatura é uma manifestação do “sentido religioso”?
Sim, ou deve. Ou melhor, ela não pode furtar-se disso se pretende nos legar uma compreensão plena do drama existencial: a procura do homem para saber quem ele é, por quais critérios, sempre morais, deve pautar a sua vida, quais exemplos de sacrifício e sofrimento a seguir ou a negar, qual o seu dever para com os outros, etc. Mesmo que o escritor se proponha a escrever a respeito de personagens, que como uns malditos se recusam a curvar-se aos anjos, preferindo a morte estéril ou o fanatismo político ou religioso, não pode perder de vista nenhum desses aspectos se realmente anseia de escrever uma obra “maior”. Mais ainda, são justamente esses tipos, que em alemão chamamos de “ewig verneinende Geist” – o eterno espírito da negação –, por portarem, como Caim, o eterno desprezo pela Criação, que nos trazem à lembrança o fato de que, ao contrário da filosofia e da teologia pós-modernas, com suas afirmações parciais ou fracas, é a literatura, ao levar em conta a dimensão religiosa da vida, que os retrata com perfeição: a ira e a soberba encontram-se enraizados em seus corações.

Por que a melancolia é tão apreciada na literatura e na vida real ela tem que ser camuflada, uma vez que “pega mal” ser uma pessoa triste?
Bem, desconfio de pessoas excessivamente alegres. Se eu fosse um profeta só reuniria ao meu redor as tristes ou aquelas que aceitam o próprio destino. Em relação àquilo que se aprecia na literatura, não sei. Talvez a obtenção de uma resposta às agruras que nos atormentam, de uma quietude no meio da desordem ou de uma proteção contra o caráter dispersivo da vida contemporânea.

Qual é a maior ilusão mercadológica do nosso tempo?
Sei da minha: ter achado, ao escrever o meu primeiro romance, aí pelos idos do início do século, que a literatura me traria a tão sonhada estabilidade financeira, visto que os meus livros iriam vender que nem água.

O que a literatura fez por você que nada mais conseguiu fazer?
Enfrentar as tempestades da vida, descobrir que sou capaz de arriscar-me sem medo, suportar uma dose elevada de infortúnios e decepções…

Por exemplo?
Quando, em 1989, resolvi deixar o meu emprego do Banco do Brasil para ir estudar na Alemanha Oriental, um país comunista, sem falar uma palavra de alemão. Chegando lá, aprender, em um ano, o idioma, entrar na universidade, concluir os estudos e um mestrado. O pior, porém, ainda estava por vir, pelo menos para um escritor iniciante: escrever, ao longo de onze anos, três romances e não encontrar uma editora disposta a publicá-los. Somente em 2010, após a minha vinda para São Paulo, é que, por insistência e recomendação de amigos, a É Realizações aceitou publicar o primeiro, estas minhas “Almas Que se Quebram no Chão”. A propósito, não há aposta mais temerária do que aquela que fiz: ser escritor em um país imenso e populoso, porém de poucos leitores. Sabe, é como escrever para a gaveta do diabo e este não te dá um tostão furado. Na realidade, gastei mais com a minha literatura do que ganhei com ela. E não falo isso por queixa, simplesmente expresso as dificuldades daqueles que abraçam a vocação de escritor no Brasil.

Qual é o seu personagem preferido na literatura ocidental?
Dom Quixote. Pela entrega apaixonada, mesmo se pondo em ocasiões e perigos, ao seu projeto de existência. E no momento em que recobra a lucidez, nas páginas finais do livro, ele percebe que nada sucede por acaso, mas sim por especial providência dos céus. Além disso, qual outra personagem, na literatura mundial, é capaz de, a um só tempo, fazer-nos rir, gargalhar e chorar? E ainda tem o afeto sincero que dedica a Sancho Pança, o afeto da verdadeira amizade: dividem a dor, duplicam a alegria.

Quem foi o maior gênio da literatura ocidental do século 20?
William Faulkner. Seu domínio do ofício é algo que beira o extraordinário. Ora, o modo como ele descreve o que se passa na consciência de suas personagens, como renuncia à cronologia narrativa ou lhe impõe mudanças bruscas, como alterna a perspectiva do narrador, adotando pontos de vista variados e, às vezes, simultâneos, é de extasiar o mais cético dos leitores ou o mais autoconfiante dos escritores. Mas, veja bem, não há na sua obra um preciosismo despropositado. A técnica literária subordina-se àquela que é a maior finalidade de um grande romance: contar bem uma história, envolver-nos em um drama que também é o nosso.

Outra coisa, a saga, que narra a decadência dos Compson e Sartori e a ascensão dos Snopes, uma família de sujeitos inescrupulosos, e se passa em Yoknapatawpha, uma região imaginada por ele em um estado do sul dos Estados Unidos, me lembra bastante o universo de minha cultura, aquela do Nordeste, com suas famílias enormes. O meu avô, por parte de mãe, seguiu à risca a prescrição de Deus, do “sede fecundos, multiplicai-vos e enchei a terra”; gerou mais de 36 filhos. Já o paterno um pouco menos, meu pai teve dez irmãos. Essas famílias enormes, igualmente povoadas de destinos trágicos, doenças incuráveis e anomalias genéticas, incestos, religiosidade rica e excessiva, violência, etc. Um mundo riquíssimo e ávido por um sopro – a voz que lhe dará a vida. Ainda pretendo escrever mais dois romances com temáticas urbanas, mas quem sabe, se Deus o permitir, eu não me aventure a ser esse sopro.

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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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