Kundera convida a todos: “A Festa da Insignificância”

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Considerado um dos melhores livros de 2014, “A Festa da Insignificância”, de Milan Kundera, é o retorno do escritor tcheco depois de 14 anos, desde “A Ignorância”. Lançado pela Companhia das Letras, a história envolve quatro amigos: Alain, Ramon, Charles e Calibã e suas vidas desinteressantes, cujo sentido eles buscam em nada melhor do que nós mesmos, quando todos os dias com nossos projetos tentamos “ser alguém”. Aos 85 anos, Kundera domina a arte de dizer muito em frases simples. O que é quase imperceptível. O romance flui tanto que pode enganar o leitor voraz – principalmente aquele que lê para preencher o tempo e não para significá-lo. Assim como em seu clássico “A Insustentável Leveza do Ser” (1984), a polissemia é o seu maior trunfo. A festa é, então, a relação de sentidos.

Dizer que “a insignificância é a essência da existência” parece sugerir que não adianta os tantos sacrifícios que fazemos em busca da imagem que construímos como ideal. Pessimista? Talvez. Milan Kundera já escreveu romances, contos, ensaios, peça de teatro e poemas. É sem dúvida um dos maiores intelectuais vivos. O que 85 anos em um grande intelectual tem a nos dizer? Ironias e enigmas que exigem atenção para um deleite verdadeiro do seu texto perfeito.

Por isso tanto frisson com “A Festa da Insignificância”? Talvez. Nunca deixaremos de ser pequenos. Grandes, no máximo, para cinco ou seis pessoas. E por que seria importante reconhecer esta insignificância para viver melhor? Talvez, porque a vida se tornaria menos pesada, menos violenta. Menos dispostos a nos satisfazer nos tornamos menos violentos.

Um dos amigos insiste em descobrir por que o umbigo feminino tornou-se a zona erógena da contemporaneidade. Outro, assim que se vê livre de um diagnóstico de câncer, opta por dizer que está com a doença e planeja uma festa de aniversário que, óbvio, terá outro sentido, principalmente para os convidados que não imaginam ser uma mentira. Uma busca pela complacência? Seja o que for, Kundera brinca com a falta de sentido do hoje.

Os amigos, cada um a seu modo, levam o leitor a pensar em sua própria vida. E um dos questionamentos mais deliciosos do livro é a utilidade (ou inutilidade) de ser brilhante. Uma das melhores passagens:

“O sujeito brilhante supõe-se “sabe tudo”. Mas diante dele, em vez de se aproximar, uma mulher logo se sente obrigada a entrar em competição. Ser brilhante é não só inútil, mas nocivo.”

Característico de Kundera, o tom é sempre pitoresco. Apesar da leveza e da simplicidade do seu texto, é filosofia para poucos. Tem de haver vontade para compreendê-lo e, assim, se deliciar com ele. Elegante, mas enigmático. É um dos melhores livros lançados no último ano porque é o retrato mais fiel do nada que vivemos.

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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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