Mãe!, de Aronofsky, e o drama de Sônia Tolstói

Quando o filme Mãe!, de Darren Aronofsky, acabou, entendi Sônia Tolstói completamente.

O que uma coisa tem a ver com a outra? Permita-me divagar e colocar em letras minhas sensações.

Esposa de um poeta – este interpretado por Javier Bardem – Jennifer Lawrence vive para o seu homem, cuida da casa onde vivem a fim de torná-la um “paraíso” na terra.

Cena de Mãe!, filme de Darren Aronofsky.

Conhecedores da vida de Liev Tolstói conseguirão ver Iásnaia Poliana na casa do filme de Aronofsky. Iásnaia Poliana foi o lar preferido do escritor russo, onde viveu a maior parte de sua vida. Iásnaia Poliana praticamente se tornou Meca para os “tolstoianos”. Viu o filme? Saberá exatamente do momento que me refiro.

A verdade é que Tolstói, como líder cristão, foi maior do que a Igreja Ortodoxa de seu tempo. A cisão tão conhecida tem a ver, principalmente, com a maneira de Tolstói entender Deus e os ritos, o que, claro, foi ao encontro dos corações dos mujiques. Naquela época, deixou-se de falar em cristianismo para falar de “tolstoismo” e até de “valores tolstoianos”.

Desde sua estreia, Mãe! tem sido louvado e odiado; na mesma sala, quase na mesma medida. Há quem saia do cinema suspirando pela agonia que Aronofsky é capaz de causar e há quem achou tudo sem pé nem cabeça. Para os religiosos, quase blasfêmia – exagero, claro, para dar mais solenidade.

Breve sinopse: Javier Bardem e Jennifer Lawrence formam um casal que tem sua vida tranquila transformada depois da visita de estranhos, que de hóspedes aparentemente inofensivos se tornam – levando a metáfora ao sentido religioso – idólatras.

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Pensei em Sônia Tolstói porque ela viveu na pele o drama quase sempre ignorado pelos biógrafos, de ter roubada a vida “normal” de esposa e mãe. Mais que isso! De ter roubado seu amado esposo. Para mais de dois séculos atrás, a fama que envolveu Tolstói foi grandíssima. Sua morte, acompanhada pelos jornais do mundo.

Até Mãe!, como todo mundo que aprecia Tolstói para além de Guerra e Paz, Sônia era apenas a mulher, por tantas vezes irritante, dramática e histérica. A companheira do escritor russo que passava a limpo linha por linha e até escolhia os detalhes que constam nos grandes personagens, como o veludo preto do vestido de Anna Kariênina que usou na festa em que dançou com Vrónski, Sônia foi o que a personagem de Jennifer Lawrence é: o coração que torna possível a obra do poeta.

Este poeta, Bardem, seduzido pelo amor sem limites de seus leitores, deixou sua pacata vida ser transformada e o amor que sentia pela esposa supõe apenas outra face do ego do escritor. Como diz Alberto Manguel, no escritor vê-se “a face do pequeno deus, criador de um pequeno universo”.

Uma das mais controversas biografias do escritor russo, intitulada Tolstoy, do escritor inglês A. N. Wilson, evidencia em suas mais de 500 páginas o caráter vaidoso e perverso do autor de Ressurreição. Por isso também o paralelo com o filme de Aronofsky não é lá uma viagem. Os seguidores do russo o veneraram como ao poeta do filme. E Sônia, que apenas queria o cotidiano de sua família preservado – além do desejo de ser a única a compreender Tolstói enquanto homem e artista, briga que manteve até o fim com Chertkov – também se negou a ser “mãe”.

Embora, no filme, a maternidade tenha dois vieses, Jennifer Lawrence teme perder o amor de Bardem como se dele dependesse respirar. Sua “importância” na vida do poeta é garantida na manutenção da ordem do cotidiano e do “silêncio” tão importante para quem cria.

Escritores dão vida e quem, curiosamente, viverá mais do que os próprios escritores. Sabe disso quem – como diz Nabokov – ainda hoje toma chá com Oblónski. Lembro-me, então, de um amigo, pastor, desses que respeita a Literatura como a própria Bíblia, à mesa de um café, certo dia, me dizendo: nós passaremos e Tolstói ficará.

Agora, depois de ter visto Mãe!, e constantemente me lembro de umas cenas terríveis, de fanatismo e hierofania, entendo aquele entardecer mais do que nunca. Por Tolstói, por Sônia. Pelos homens que tornamos deuses.

Javier Bardem está magnífico como o poeta. E Jennifer Lawrence, para jogar luz sobre quem ama, torna-se maravilhosamente insossa. Maravilhosa!
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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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