Micróbios, de Diego Vecchio, e as doenças da literatura

Composto por nove contos, Micróbios é o tipo de livro que o leitor devora de uma só vez. Lançado pela Cosac Naify, o título do argentino Diego Vecchio é inspirado em Samuel Auguste Tissot, médico suíço que relatou doenças que tinham como causa principal a literatura.

Não, você não leu errado. Para Tissot, ler e escrever levam a patologias sérias. O humor refinado e a criatividade de Vecchio conseguiram transformar o assunto chatíssimo em algo realmente interessante. Vecchio pegou a deixa inusitada e escreveu um livro divertidíssimo, principalmente pelo caráter absurdo.

A deixa inusitada é na verdade conhecimento de causa. Diego Vecchio é hipocondríaco assumido. Nada do que se lê em Micróbios dá para acreditar que poderia acontecer, mas aí é que está a graça do texto. Não tem como parar de ler ou não querer saber como termina a saga de cada pobre coitado, vítima das letras.

O primeiro caso é o da dama das tosses, seguido pelo homem do tabaco e a menina dos ossos, que sofre de falta de apetite. O conto sobre essa menina já um dos mais absurdos e também um dos mais engraçados.

Daria para falar um pouco mais sobre cada história, mas neste caso é melhor mergulhar sem medo no livro. Os relatos esdrúxulos continuam com as damas das focas, que são gêmeas siamesas; e com o homem dos miolos, um escritor que precisa de um cérebro novo.

Vecchio extrapola com o homem das formigas “desaparafusadoras” – que é muitíssimo engraçado. Agora, sobre os quatro últimos contos não daremos prévias de propósito. Tem que ler!

Cada caso acontece em um país: Canadá, Rússia, Nova Zelândia, Hungria… Os personagens possuem sobrenomes e traços peculiares de suas culturas, outro ponto para Vechio.

Voltando a Tissot, ele comparava os males da literatura com os da masturbação, prática sobre a qual escreveu L’Onanisme (1758 ou 1760, as datas não coincidem). No tratado, o médico alerta que o ato de se masturbar provoca anemia, complicações renais, apodrecimento dos dentes e escurecimento das unhas. Considerado o pai da medicina moderna, Tissot tinha o reconhecimento de homens como o filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau, o filósofo prussiano Immanuel Kant, o ensaísta francês Voltaire e o grande líder político francês Napoleão Bonaparte.

A dose de humor é a mesma de tragédia. E talvez haja tanta tragédia que o humor vem como antídoto. O texto do argentino é rápido. Diego narra de um jeito que não dá tempo para o leitor sentir pena dos personagens. São relatos nada emotivos e muito precisos, concentrados na tarefa de contar o inacreditável.

Nascido em Buenos Aires, o escritor argentino vive na França há mais de 20 anos. Doutor em literatura pela Universidade Paris VIII, também atua como tradutor. Este é o seu primeiro livro publicado no Brasil. O autor tem outros sucessos como Historia Calamitatum (2001) e Osos (2010). Vale a leitura com certeza absoluta.
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Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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