Miguel de Unamuno: “A consciência é uma doença”

Miguel de Unamuno valorizou os sentimentos. Não negou a importância deles diante da razão. O autor trágico vivido no fim do século XIX e começo do século XX foi companheiro daquele que todos os dias se vê como palco de uma irremediável disputa entre razão e sentimentos. Nascido em 1864, em Bilbao, Espanha, tornou-se doutor em Filosofia e Letras pela Universidade de Madri. O filósofo e ensaísta de passagem conturbada e polêmica pela vida morreu em 1936. Terceiro convidado da Série Além – Entrevistas do outro mundo, recebemos o espanhol na FAUSTO para um diálogo sem grandes pretensões. Nada de perguntas definitivas. Nada de respostas que se encerram. Às vezes, a única coisa a fazer mesmo é aceitar a própria condição de desgraçado. A guerra contra a angústia já está perdida. O único prazer – Unamuno concorda – está na própria luta.

Miguel de Unamuno
Miguel de Unamuno.

FAUSTO – Agradecemos o tempo que nos presenteia. Porque é mesmo verdadeiro presente o tempo daquele que reconhece a importância dos sentimentos…
Miguel de Unamuno: Diz-se que o homem é um animal racional. Não sei por que não foi dito que é um animal afetivo ou sentimental. Talvez seja o sentimento e não a razão que o diferencie dos outros animais. Não costumam ser nossas ideias que nos tornam otimistas ou pessimistas, mas é o nosso pessimismo, provavelmente de origem fisiológica ou patológica, que forma nossas ideias.

Sabe, não quero fazer nenhuma pergunta. Encontro-me exausta. Não tenho mais perguntas definitivas, não busco mais respostas que se encerram. Desejo apenas seguir tateando pensamentos nesse imenso nada…
De mim eu sei dizer que quando era moço, e até criança, não me convenceram as patéticas pinturas que faziam para mim do inferno, pois desde aquela época eu não achava nada tão horrível quanto o nada mesmo. Várias vezes foi dito que todo homem desgraçado prefere ser quem é, mesmo com suas desgraças, antes de ser outro sem elas, porque os homens desgraçados, quando conservam a sanidade em sua desgraça, quando se esforçam por perseverar em seu ser, preferem a desgraça à não existência.

Creio que sou uma desgraçada sã. E minha luta é entre estar dentro e fora de mim. Sinto como se eu vivesse fora do mundo o tempo todo. Dentro, mas fora. Ou vivesse dentro de mim o tempo todo e fora fosse apenas o cumprimento de uma sentença. Tenho, porém, a escrita, que me incendeia! Até lembro de Rilke: “Confesse a si mesmo se morreria caso fosse proibido escrever.”
E as pessoas que pensam com o cérebro acabam sendo definidores, tornam-se profissionais do pensamento.

Não sei como conseguem.
Há pessoas que parecem pensar apenas com o cérebro, ou com qualquer outro órgão que seja específico para pensar; enquanto outros pensam com todo o corpo e toda a alma, com o sangue, com o tutano dos ossos, com o coração, com os pulmões, com o ventre, com a vida.

É isso que me mantém sã. Meu espírito tem vida independente? Sou metafísica? Talvez, eu seja apenas poesia. Poeta não tem chance de saber a própria dimensão. E amo tanto a filosofia que desejo que ela seja meu esteio. Quero até o último suspiro buscar qualquer coisa, só não quero ficar exausta por nada.
Corresponde-nos dizer, antes de mais nada, que a filosofia se inclina mais para a poesia do que para a ciência. Poetas e filósofos são irmãos gêmeos, se é que não são a mesma coisa…

Acredito que sejam gêmeos… Talvez, pensar doa mais em um do que em outro.
A consciência é uma doença. Mais ainda: o homem, pelo fato de ser homem, por ter consciência, já é, em relação ao burro ou a um caranguejo, um animal doente. Além de não haver uma noção normativa de saúde, ninguém provou que o homem tenha que ser naturalmente alegre.

Sim! Sinto que para preservar aquilo que há de mais caro às vezes só é possível por meio de algo que também mata, mas pelo menos mata lentamente. Se eu tivesse que ser alegre, eu morreria mais rápido.
Tivemos que abandonar a posição dos que queriam tornar a verdade racional num consolo e num motivo de vida. A primeira briga é com nossa razão; a segunda, com o nosso sentimento. A paz entre essas duas potências é impossível. E devemos viver de sua guerra e fazer dela, da guerra mesma, condição da nossa vida espiritual.

Todos os dias é uma guerra dentro de mim. Só tenho certeza de mim enquanto escrevo, e curiosamente é quando estou em guerra comigo e nessa guerra sou duas, e as duas fazem sentido, não prefiro uma. Seria fácil se houvesse uma correta, uma preferida.
Para isso costumam filosofar os homens, para convencer a si mesmos, sem conseguir. E esse querer convencer-se, esse desejo de violentar a própria natureza humana, costuma ser o verdadeiro ponto de partida íntimo de muitas filosofias.

Não ter certeza de nada é muito difícil.
Não posso acreditar em quem me garante que nunca, em nenhum momento de sua vida, sentiu o rumor da incerteza. Não compreendo os homens que me dizem que nunca foram atormentados pelo além da morte nem pela sensação do nada.

Mas é o que mais há.
Não faltará quem diga que a vida deve se submeter à razão. Responderemos que ninguém deve o que não pode, e a vida não pode se submeter à razão. “Deve, logo pode”, replicará algum kantiano. E contrarreplicaremos: “Não pode, logo não deve”. E não pode porque o fim da vida é viver e não compreender. Nada é seguro, tudo está no ar. A certeza absoluta e a dúvida absoluta estão igualmente vedadas para nós.

Como lida com isso?
Da minha parte, não quero colocar paz entre minha cabeça e meu coração, entre minha fé e minha razão. Quero que eles briguem. É isso, um homem que afirma contrários, um homem de contradição e de luta, como se definia Jó: um homem que diz uma coisa com o coração e o contrário com a cabeça, e que faz desta luta sua vida. Podem me dizer que essa é uma posição insustentável, que precisa de um fundamento em que fundar nossa ação e nossas obras, que não podemos viver em contradições, que a unidade e a clareza são condições essenciais da vida e do pensamento e que é necessário unificá-lo. E continuamos sempre na mesma situação.

Isso é estar vivo.
É justamente a contradição íntima o que unifica minha vida, dá razão prática de ser. Ou melhor, é o próprio conflito, a própria apaixonada incerteza que unifica minha ação e me faz viver e agir.

É impossível ter fé e duvidar.
Assim é a fé humana, como a heroica fé que Sancho Pança teve em seu amo, o cavaleiro Dom Quixote de La Mancha, uma fé baseada na incerteza, na dúvida. Porque Sancho Pança era homem, homem inteiro e verdadeiro e não era estúpido, pois, se tivesse sido um idiota, teria acreditado, sem dúvidas, nas loucuras de seu amo.

Então, é só deixar passar essa erupção de contradições que acontece agora em mim.
Vivemos apenas de contradições e por elas; a vida é tragédia e a tragédia é uma perpétua luta, sem vitória e nem esperança dela; é contradição.

Perdoe-me se desperdicei uma grande chance. Deixaria-me algum conselho?
A bondade é a melhor fonte de clarividência espiritual.
***

Dedicamos a todos que não têm o que dizer.

Nota 1: Devemos a ideia da série ao grande escritor Mario Prata, quem nos impressionou pela genialidade e criatividade, em 2015, com o maravilhoso livro Mario Prata entrevista uns brasileiros.

Nota 2: Todas as respostas são trechos autênticos do livro de Miguel de Unamuno. Algumas respostas foram montadas de trechos independentes, mas ligados pelo assunto. Tivemos o imenso cuidado de preservar a integridade de seus pensamentos.

Nota 3: A pesquisa bibliográfica para construir o contexto foi apenas sobre um tema: a angústia. Os livros lidos seguem abaixo.

Referências Bibliográficas
UNAMUNO, Miguel. Do sentimento trágico da vida. São Paulo: Hedra, 2013.
MARTINS, Andrei Venturini. Do reino nefasto do amor-próprio. São Paulo: É Realizações, 2018.
PONDÉ, Luiz Felipe. Conhecimento na Desgraça. São Paulo: Edusp, 2004.

 

Eliana de Castro Written by:

Jornalista pós-graduada em Cultura pela FAAP, é mestranda em Ciência da Religião pela PUC-SP. Contato: eliana.faustomag@gmail.com

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